Portugal da Idade Média


Cristina Torrão,

Visão História Portugal na Idade Média.png

«Em Portugal, houve nas últimas décadas uma explosão de investigações que alargou imenso as temáticas (…) Sabemos hoje muito mais sobre o que aconteceu no território que veio a tornar-se Portugal, e sobre o reino português, do que há 25 anos, e de uma forma mais plural» – palavras da historiadora Maria de Lurdes Rosa, na entrevista que serve de introdução a este especial Visão História.

A publicação cumpre aquilo que a historiadora nos promete. Abrange toda a época medieval (do século V ao XV), dando-nos informações sobre aspectos normalmente desprezados pela nossa História, mas essenciais para entendermos a formação de Portugal e as raízes do nosso povo, como a época dos reinos Suevo e Visigodo e a era islâmica, bem mais diversificada do que aquilo que nos fizeram crer, durante séculos. Além disso, apresenta artigos sobre a vida dos camponeses, os mesteres, a organização da sociedade, as finanças, o ensino, a cultura, a literatura, etc. Porque estudar a História não é apenas decorar datas e nomes de reis, batalhas e guerras.

E, no entanto, “não há bela sem senão”. O artigo sobre D. Afonso Henriques, cheio de incongruências, não possui o nível qualitativo das outras contribuições. Para começar, o autor, Luís Almeida Martins, diz-nos que o «político e jurista Diogo Freitas do Amaral (…) deu em 2006 à estampa o livro D. Afonso Henriques – Biografia». Na verdade, esse livro é seis anos mais velho, foi publicado, pela primeira vez, no ano 2000, pela Bertrand Editora. Mais à frente, D. Teresa surge como sendo galega, quando não se sabe ao certo onde nasceu, embora se considere ter sido leonesa. Aponta-se o castelo leonês de Ulver, situado nos montes do Bierzo, como local do seu nascimento. Luís Almeida Martins diz-nos ainda haver uma lenda que diz ser D. Afonso Henriques filho de Egas Moniz, ou seja, o nosso primeiro rei teria sido fruto dos amores ilícitos de D. Teresa com o fidalgo de Ribadouro! Ora, a lenda não fala de “amores ilícitos”. O pequeno Afonso teria nascido aleijado das pernas e D. Egas Moniz, encarregado da sua educação, resolveu trocá-lo, ainda bebé, por um filho seu da mesma idade. Neste caso, a mãe nunca poderia ser D. Teresa! E, para dar mais um exemplo da falta de cuidado na escrita deste capítulo, atente-se à seguinte passagem: «já com 60 anos, D. Afonso Henriques (…) tentou apoderar-se de Badajoz. Ali, teve de lutar contra mouros e leoneses, acabando prisioneiro de Afonso VII (…) Acabaria por ser libertado pelo primo em troca de uma faixa de terreno na Galiza». Na verdade, quando o nosso primeiro rei atacou Badajoz, em 1169, o seu primo estava já morto há doze anos! Quem o fez prisioneiro foi Fernando II de Leão, filho do dito Afonso VII. E, diga-se de passagem, genro do próprio Afonso Henriques.

Tenho ainda uma crítica a fazer a este especial Visão História: falta um artigo dedicado a D. Teresa! Ela aparece-nos em vários momentos, incluindo um capítulo intitulado Ser Rainha, no meio de, por exemplo, D. Mafalda de Saboia, D. Isabel ou D. Filipa de Lencastre. D. Teresa não se enquadra, porém, neste contexto. Ela não se limitou a ser esposa de um rei (até porque foi casada com um conde); ela regeu sozinha sobre o condado Portucalense durante dezasseis anos. D. Henrique continua a ter mais destaque do que ela. Mas, como eu já aqui referi no Delito de Opinião, D. Teresa marcou indubitavelmente a independência em relação a sua meia-irmã D. Urraca, a única herdeira do imperador Afonso VI. Recusou-se terminantemente a prestar-lhe vassalagem, assim como ao sobrinho (depois da morte de D. Urraca em 1126). Ou seja:  muito mais do que o conde D. Henrique, ela foi a preparadora do caminho que seu filho haveria de percorrer.

Pelos vistos, e apesar do avanço do estudo histórico, D. Teresa ainda é limitada à adúltera, a quem o filho teve de pôr na ordem. E, não contentes com os irmãos de Trava, ainda lhe querem impingir outro amante, o próprio Egas Moniz! Haja paciência!

2021-09-16 Ponte de Lima mit Manfred + Birgit 156.

Estátua da rainha D. Teresa, em Ponte de Lima

15 comentários em “Portugal da Idade Média”

  1. Mau Maria, deixem a senhora reinar nos artigos e letras já que tanto se bateu pelo condado. Seria também por si que não gostava de vassalagens. E não lhe retirem a maternidade do nosso primeiro coroado. Além de ensinar mal a história, é muita aleivosia.

  2. para mim os Seres Humanos não se dividem em homens e mulheres,
    mas em competentes e incapazes.
    minha MÃE com 4 anos de escolaridade era bem melhor que eu com licenciatura e não só

    1. Esse título é um pouco polémico, sim. Mas a verdade é que D. Teresa se intitulou rainha, assinava com selo real e assim foi denominada pelo papa Pascoal II, numa carta datada de 18 de Junho de 1116. Tudo indica que o seu título era aceite pelos barões portucalenses (antes de estes terem abandonado a corte). Além disso, D. Afonso Henriques era denominado de infante, como os descendentes reais. Para mais pormenores, pode ler o que escrevi aqui:

      https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/efemerides-historicas-ao-tempo-da-10743100

      1. Certo.
        A D. Teresa, filha de rei, mas a concessão desse tratamento não correspondia a mais do que uma distinção honorífica sem conteúdo político.

        1. Uma distinção honorífica dá o direito à pessoa de ser tratada por ela, não?
          E o que quer dizer com “sem conteúdo político”? D. Teresa regeu (ou governou) o condado Portucalense sozinha durante dezasseis anos, influindo, de maneira irreversível, no contexto político hispânico.

          1. As crónicas medievais são importantíssimas, mas devem ser analisadas com muito cuidado. Os cronistas desse tempo não se preocupavam em ser objectivos, ou o mais objectivo possível, pode dizer-se que ainda não havia a noção de objectividade. As crónicas serviam, normalmente, para enaltecer os feitos de um rei, imperador, ou nobre, estava fora de questão apontar-lhes defeitos, ou narrar acontecimentos que lhes estragassem a “imagem”, por exemplo. Além disso, a imaginação dos cronistas era bem vista, se servisse para enaltecer ainda mais a figura. No meio disto tudo, havia uma profunda desconfiança e um grande preconceito em relação a mulheres que se destacavam. Era a mentalidade da época. Uma crónica do século XII menoriza sempre a mulher que teve a ousadia de se pôr à frente de um território. Daí, os preconceitos em relação a D. Teresa, a tentativa de realçar os seus defeitos (neste caso, a sua vida amorosa, o pior numa mulher, naquela época) em detrimento da sua acção governativa. A um homem fazia-se o contrário. A má imagem e a menorização de D. Teresa duram, infelizmente, até hoje.

    2. D. Teresa foi reconhecida como Rainha de Portugal pelo Papa em 1116, sendo que Portugal (ou o condado) se mantinha na vassalagem do Reino de Leão.

      1. Oficialmente, sim. Mas ela nunca prestou formalmente vassalagem à irmã, nem ao sobrinho. O filho fez exactamente a mesma coisa.
        A independência de Portugal só foi verdadeiramente reconhecida em 1179, já D. Afonso Henriques tinha à volta de 70 anos. Mas é verdade que o genro Fernando II, que sucedeu a seu pai Afonso VII no trono de Leão, em 1157, nunca exigiu vassalagem ao sogro, sempre o tratou de igual para igual.

  3. Tem a lista de impostos e o seu peso que o Reino cobrou ao longos desses séculos por exemplo?
    Se não tem é a habitual História genérica que se escreve desde sempre…
    Sempre parcial sempre limitada ao Big Brother da politica.

    1. Listas?
      Tem um excelente capítulo sobre a vida dos camponeses (90% da população), de autoria de Iria Gonçalves, a partir de um casal de jovens que forma família. Relata a sua vida, até que chega a vez de os próprios filhos formarem as suas próprias famílias. Estão retratadas todas as dificuldades a que estavam sujeitos (impostos, doenças, anos de má colheita, guerras e outras violências, etc.). Tem outro capítulo sobre o trabalho no campo e na oficina, de Maria Amélia Álvaro de Campos, onde se descrevem igualmente os vários mesteres citadinos e a vida destas pessoas. Descrições destas são muito melhores do que listas que só os especialistas sabem interpretar, hoje em dia.

  4. A propósito de D. Teresa, permita-me:

    «D. Tareja final

    Garotinha preferida
    de donzel do outro lado
    face guardada no corpo
    grito temperado na fala

    Faca de trazer na liga
    cruzada de pai a filho
    de cantiga e invenção
    de todos graça e castigo
    e o rosto fechado à mão

    Dedos de muita finura
    susto da carne real
    doutras gabando por bem
    os espinhos do mesmo mal

    Menininha sem acerto
    que do pousar o dizer
    pela escrita
    dá sinal de esvoaçar

    que te seja leve o estar
    e solto logo o sorriso
    o azul dos dias dados
    de bom grado
    e o olhar destapado
    para dar.

    24/9/71

    (…)

    D. Tareja final (pp. 281-282)

    [nota] 254. Eventual referência a D. Teresa de Leão (1080-1130), condessa de Portugal [em galego-português, Tareja de Portucale], filha do Rei D. Afonso VI de Castela e Leão, e mãe de D. Afonso Henriques de Borgonha, que se viria a tornar o primeiro rei de Portugal. Ao casar-se com Henrique de Borgonha, seu pai deu-lhe em dote o território a sul do Minho. Viúva aos vinte e cinco anos, governou com êxito o Condado Portucalense durante dez anos: soube ganhar a confiança dos colaboradores do marido, travou os avanços dos mouros na região de Coimbra e venceu a sua meia-irmã, D. Urraca de Castela, quer pelas armas quer pela diplomacia. O papa Pascoal II reconheceu-a como Rainha de Portugal, em 1116. Segundo o historiador argentino Marsilio Cassotti, D. Tareja é um caso único da História ocidental medieval, numa época em que era muito difícil para uma mulher poder assim assumir o governo de um reino nascente e exercer o poder como os homens (Cassotti 2009). A sua relação política e sentimental com o conde Fernando Pérez de Trava desencadeou a revolta daqueles que temiam a influência dos fidalgos castelhanos, que culminaria em 1128 com a batalha de São Mamede, na qual D. Teresa foi derrotada pelas forças partidárias do seu filho, D. Afonso Henriques.»

    In: Horta, Maria Teresa; Costa, Maria Velho da; Barreno, Maria Isabel; Ana Luísa Amaral (org.). Novas Cartas Portuguesas. – 1ª ed. anotada. Lisboa : D. Quixote, 2010. pp. 281-282, 403

    1. Não conhecia. Muito interessante, obrigada.

      Só não concordo com um pequeno pormenor (ao qual o AntónioF é alheio):
      Diz o texto que “a sua relação política e sentimental com o conde Fernando Pérez de Trava desencadeou a revolta daqueles que temiam a influência dos fidalgos castelhanos”. Não era a influência dos fidalgos castelhanos que os portucalenses temiam, mas a dos fidalgos galegos! D. Teresa lutou tanto pela independência de Portucale, em relação ao poder central hispânico, como o filho Afonso Henriques. Ela queria unir Portucale à Galiza, sim, mas isto nada tinha a ver com Castela, ou quaisquer fidalgos castelhanos. Já vi este erro em mais sítios, esquecendo que também a Galiza se demarcava de Leão e Castela. Aliás, Castela, na altura, estava longe do poder que atingiria posteriormente. Ao tempo de D. Teresa (e do filho), o poder central hispânico, em Toledo, pertencia ao reino de Leão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *