Era uma mulher difícil de descrever. Todos os que a conheciam gostavam dela, mas como se gosta de alguém que nunca nos incomoda nem provoca em nós qualquer sentimento de desconforto, e talvez por isso mesmo não nos prende a atenção. Nunca levantava a voz, não fazia movimentos bruscos, não tinha quase peso específico que fizesse deslocar o ar à sua passagem. Diluía-se na decoração, nas conversas, no ruído de fundo, a ponto de tornar-se transparente. Ninguém saberia dizer como estava vestida numa festa, se mudara de penteado, se emagrecera ou engordara, porque a sua imutabilidade estava estabelecida há muito por todos e era inquestionável, ainda que não fosse real. Dizia sempre o que era esperado e parecia esperar sempre o que lhe diziam com uma serenidade feita de bom senso ou de apatia, mas de qualquer modo inalterável. O seu universo era a família numerosa que criara e para a qual vivia em exclusivo, como exemplar provedora que era: a satisfação dos menores caprichos do marido, barulhento e boémio, que a ignorava olimpicamente, os inúmeros problemas de uma prole que ia dos três aos dezoito anos, a casa, as escolas, as lancheiras, a roupa que passava de uns para os outros com esmero e dignidade. O seu campo de acção estendia-se aos amigos em apuros, que encontravam nela um ombro e um par de ouvidos sempre que a vida lhes era madrasta. Não opinava, apenas ouvia e sorria, ouvia e abraçava, ouvia e calava.
Sempre achei que aquele olhar tímido e aquele sorriso eternamente solícito escondiam uma quase imperceptível tensão interior, como se vivesse nela um pássaro assustado, acossado, em permanente estado de alerta. Tudo nela tinha ficado por desatar, por descobrir, por viver. Vivia as muitas vidas à sua volta e não ousava ter uma que fosse só sua. Não chegou a tê-la. Morreu um dia destes, com a mesma discrição com que atravessou as vidas alheias: apagou-se enquanto dormia, sem incomodar ninguém nem causar agitação no descanso nocturno da família. Só de manhã, quando tudo começou a falhar na rotina diária, perceberam que não contariam mais com ela. Aneurisma, garantiram-me. Mas eu acho que ela implodiu.


Implodiu de certeza Ana. Excelente post .
Acho que sim, Ariel. Antes sequer de ter tido tempo de explodir.
Obrigada.
Maravilhosa ternura. Um Hino.
Obrigada, Toze. Uma ternura triste, talvez.
A ternura está na maneira como o disse.
Excelente texto, Ana. E não se pense que este padrão está em vias de extinção. Com algumas nuances há muitas por aí a viver apenas a vida dos outros.
Acho que ainda há muito disso, sim, Teresa. Por incapacidade de afirmação, por medo, por falta de oportunidade ou por “esmagamento” de outros. Trocam-se os sonhos próprios pelos sonhos dos outros e segue-se em frente, mas vai-se morrendo aos poucos.
Ana, eu acho que a tristeza mata mais do que se julga. Que belo texto, o seu.
:))
Mata, sim, Maria do Sol. E às vezes sem se ter a percepção disso, que é o pior.
Obrigada.
🙂
Surpreendente texto, Ana!
Conheço algumas mulheres assim.
E homens também, não quero ser injusta.
Muitos resistem à custa de fobias, de hipocondrias, ou de alguns tubos de escape como fugas temporárias ou pequenos ataques de fúria.
Nestes casos, em que não há pequenas explosões, funciona como uma panela de pressão: foi um aneurisma, mas podia ter sido um ataque cardíaco.
Fabulosa análise de uma vida em que se desistiu de si próprio e dos sonhos possíveis ou impossíveis…
Ana
Tem muita razão, Ana, conheço homens assim também. Quase sempre, eles e elas, submetidos – por medo, desistência ou sentido de dever – a personalidades mais fortes, ainda que não necessariamente melhores. Mas há mais mulheres assim nas gerações até à minha, simplesmente porque foram educadas para isso e não souberam libertar-se desse peso. Um dia morrem sem ter tido vida própria, e o mais irónico é que só nessa altura parecem ser apreciados. Mesmo assim, pela falta que fazem aos outros e não por aquilo que eram.
É verdade, Ana. “São mais apreciados pela falta que depois fazem”. E isso ainda torna tudo mais triste e inútil, digamos assim. Porque cada um tem de viver a sua própria vida, não há volta a dar-lhe.
Mas também são as implosões que tantas vezes dão as melhores histórias . Como esta.
um abraço, Ana
São personagens ricas, sim, Cristina. Mas é pena que tenham alguém real por detrás, alguém que até pode parecer feliz, mas não é.
Um beijinho
Lindíssimo este seu post, Ana, que é bem o exemplo de uma fina escrita feminina, embora a ‘traço largo’. Conheci e conheço alguns seres como aquele que aqui tão bem nos desenhou e, de um modo geral, são pessoas muito especiais em toda a grandeza da expressão. A imagem que escolheu é, também ela, de uma beleza rara, o que só vem reforçar a raridade e a beleza que têm as almas semelhantes àquela que aqui nos retratou. Parabéns.
Portanto, sempre existe uma escrita feminina? Eu Também acho que sim.
Sem dúvida alguma que existe, João, e muito diferente da ‘nossa’. Mais solta, mais fluída, mais poética, se quisermos, e sobretudo sem a preocupação de ser tão ‘geométrica’ e objectiva como a das homens. Atrever-me-ia a dizer mesmo que, de um modo geral, as duas escritas não se limitam a ser simplesmente diferentes: elas escrevem mesmo melhor do que nós. Paciência…
Não sei se vos dê razão: acho que há várias escritas femininas e várias escritas masculinas, e não tenho a certeza de saber identificar-lhes o género em todos os casos. Seja como for, não é na linguagem que vejo as maiores diferenças (se é que as há assim tão demarcadas), mas nos temas escolhidos, talvez.
Obrigada Luís. Esta era uma mulher muito querida mas poderia ter sido muito mais do que isso, tenho a certeza. Havia uma tristeza nela que desmentia toda aquela felicidade aparente e eu tenho pena de que ela nunca tenha sido devidamente apreciada, pelo menos.
A imagem é do Chema Madoz, um fotógrafo que eu adoro. E é de uma beleza rara, concordo.
Belíssimo, Ana, a confirmar o que eu já suspeitava – pela sua escrita – a Ana é, também uma pessoa muito especial.
Tocou-me muito…
Maria, esse comentário é que só pode ser de uma pessoa muito especial! E também me tocou, acredite. Obrigada.
🙂
Estranhas vidas de dedicação e anulação, anónimas e desconhecidas, não se fazendo notar, transparentes.
Deveria ter uns 80 anos quando implodiu, a avaliar pelas famílias números de meados dos anos quarenta, em que, quem se fazia então mulher, por casa ia ficando a cuidar dos seus e de todos que estes rodeavam…
Para todos aqueles que a conheceram será uma grata memória; para ela, que se conheceu, a sua vida poderá ter sido uma opção ou uma fatalidade, que a sua transparência (no caso opacidade) nunca permitiu se adivinhasse… a menos que se descubra num qualquer esconso de sua casa, um caderno amarrotado com os seus escritos e que estes indiciem qual terá sido a sua vida (já procurou Ana?).
O pior, Meunikaki, é que ainda nem tinha 50…
Não procurei rastos de uma vida dupla, mas acabou de dar-me uma ligeira esperança: a de que tenha havido, por pouco tempo que fosse, alguma coisa que lhe tivesse dado a ilusão (ou a certeza, melhor ainda) de ser importante para alguém que não dependesse dela. Será que houve? Espero que sim.
🙂
Ana, conheço um caso de uma mulher sem vida própria que faleceu antes deste Natal, com 52 anos. Foi o choque generalizado porque ninguém suspeitava que a senhora estava doente. Tinha cancro, escondeu à família, e recusou tratar-se. A filha ficou devastada e só me dizia, agora quero ver como é que aqueles dois se vão amanhar sem a escrava lá em casa. Referia-se ao pai e ao irmão.
O que não falta por aí é gente que se deixa morrer. A tristeza é a pior das doenças.
Que horror, Ariel! A sua história é ainda mais triste, porque não deixa grande margem para dúvidas…
No caso que conheço e descrevo aqui, nem ela nem ninguém suspeitava deste desfecho precoce. Ironizando, a primeira vez que ela surpreendeu toda a gente foi agora, quando morreu.
E a imagem, Ana, tanta sensibilidade…
A imagem é fantástica, Maria.
🙂
Ana, não são propriamente nas nossas casas….
Mas que assumimos como nossas, e assistimos ao definhar do seu “miolo”…
ana
Extraordinário texto, Ana, que retrata bem o que parecem ser certas mulheres (mais típicas da geração anterior à nossa), que, com talentos próprios, são, por opção familiar, levadas a dedicar-se exclusivamente à vida doméstica, e, muito frequentemente, tornadas invisíveis pelo brilho (por vezes autoritário) dos seus parceiros. Conheço alguns exemplos. Curiosamente, num deles, que me é próximo, aconteceu a viuvez e logo começaram a notar-se-lhe umas vagas, suaves, mas inequívocas manifestações de rebeldia, umas afirmações de vontade. O que confirma como é precária a resignação dessas mulheres. Como, de facto, vivem e resistem décadas e décadas num estado de alta pressão potencialmente explosivo.
P.S.: Isto não significa que sejam infelizes, apenas permanentemente insatisfeitas. Sendo que a insatisfação permanente é o «traço largo» mais comum à espécie humana, em todas as situações.
Sabe o que mais me perturba, Luísa? Não é o facto de eu não saber do que ela seria capaz sozinha, mas pensar que ela própria nunca tenha chegado a sabê-lo. Nem que fosse para falhar! Não garanto que ela não alimentasse secretamente a esperança de ter mais espaço próprio quando os filhos estivessem todos criados. Mas depois viriam os netos e tudo voltaria à estaca zero, quase de certeza. Seja como for, nunca soube o que isso era.
Tem razão quanto à insatisfação, mas nem isso ela demonstrava. E não era burra, ao contrário do que possa parecer.
Gostei muito, Ana.
(quanto ao mais, acho que não há uma escrita feminina)
Obrigada, Joaquim. Concordas comigo, então? Conheço homens que escrevem “como mulheres” e vice-versa.
Volto por dois motivos.
1) Dizer que partilho o gosto pela fotografia e pelo autor
2) Dizer que recambiei os meus (poucos) clientes para este texto. Aliás, fiz um post.
:)))
Sempre querida, Maria do Sol. Já lá vou espreitar mais esta simpatia sua.
🙂
Explodir e sempre melhor que implodir, ao menos fazemo-nos ouvir, damos a conhecer as nossas vontades, os nossos medos, as nossas falhas, as nossas qualidades.
O unico problema de explodir e que ha muita gente que nao gosta do estrondo
Beijos
Paula
O estrondo da implosão pode ser muito mais ensurdecedor, pelo menos simbolicamente. Não defendo de maneira nenhuma que se viva centrado no próprio umbigo e se faça os outras pagar por isso, mas entre isso e a auto-anulação vai uma enorme distância.
Volte sempre, Paula.
Muito bom o texto mas muito triste a realidade, Ana.
Pois é, Leonor. E este é mesmo um caso real.
Ana,
que belo hino àMulher…
Quantas não temos visto desfilar, mesmo na nossa própria casa…. diante dos nossos olhos…
Triste como a parte triste da vida!
Abracinho
Na minha casa, felizmente, não vi ainda definhar nenhuma, Anamar (suponho que era o que queria dizer). Mas já vi outras, noutras casas, e tem razão: é muito triste.
Excelente crónica, Ana. E há tantas tantas tantas vidas assim…
Semi-vidas, Pedro. Há muitas assim, tens razão.
Tenho sempre muita dificuldade em comentar textos destes, porque retratam situações de sofrimento mascarado. São vidas que não chegam a ser vividas…
Infelizmente, há muitos casos de gente que pode implodir a qualquer momento, é tudo uma questão de resistência. Conheci e conheço alguns exemplos.
Belíssimo texto, Ana.
Acho que todos nós conhecemos alguém assim, o que só por si é prova suficiente de que há imensos casos destes. Triste.
Será caso para dizer que a mãe de família eliminou a mulher?
Curioso… Ontem li um post sobre um conto do Machado de Assis. Lembrei-me dele agora porque o autor do post escreveu que nesta história «O alferes eliminou o homem». Não conheço o conto, apenas retive o que li aqui: m/2010/01/o-espelho-de-machado-de-assis.h tml
http://antoniorebelodasilva.blogspot.co
Talvez a teoria sobre as duas almas de cada indivíduo, aí descrita, seja aplicável a esta mulher. Não sei…
Belo apontamento, o seu.
Talvez seja uma explicação possível, Nicolina. Também não conheço o conto de Machado de Assis, mas, neste meu caso, eu diria que a “mulher” já tinha sido eliminada antes de ser “mãe de família”. E talvez essa segunda condição, apesar de tudo, lhe tenha nesmo dado mais algum tempo de vida… 🙂
Sim, nessa perspectiva tem razão, mas quando escrevi mulher estava a pensar na pessoa e não tanto na mulher/mulher.
Há quem viva para os outros, por escolha própria, em permanente dádiva, e seja feliz. Não vejo nada de trágico nestas vidas, bem pelo contrário. São vidas cheias. Depois há os que se anulam, no esforço de se ajustarem a um papel que lhes foi atribuído, muitas vezes sem saberem bem por quem nem para quê. São estas últimas que, de facto, acabam por implodir e estes casos sim, são trágicos.
Cheguei tarde mas tenho aqui na mão o meu cartaz a dizer 9 pontos! (os dez são para o Nobel :-).
Muito bom. E gostei sobretudo da ideia que insinua no final, que me “convém” muito.
Realmente, talvez seja melhor sermos extrovertidos e, dentro dos limites da educação e dos excessos de personalidade permitidos, irmos explodindo de vez em quando.
Isto muito embora os antigos falassem em ataques de apoplexia…
Ainda a propósito do texto (e não da sua personagem central) confesso outro reflexo inelutável: é que – dependendo da circunstância concreta, bem entendido -, sempre desconfiei de pessoas exageradamente contidas.
Oh meu Deus, Chloé, que responsabilidade! Mas obrigada pela generosidade da classificação.
Quanto à contenção exagerada, concordo inteiramente consigo: é letal, e por isso muito pouco aconselhável. Umas fumarolas, soltas de vez em quando, sabem bem e evitam o vulcão…
Excelente! Um conto absolutamente fantástico. Vim recomendada pela MSol. Ainda bem que segui o link! Parabéns!
Muito obrigada, Susana. Mas antes fosse uma ficção, infelizmente é um caso bem real. Limitei-me a contá-lo aqui.
Ui… O meu marido tem uma expressão interessantes para estes casos: uma vida que era para ter sido e não foi. Triste. Muito triste.
Uma expressão certeira, de facto. Uma vida que não foi, apesar de parecer ter sido.
A tua escrita é sempre muito poética, Ana, mas neste texto cada palavra é como cada uma das gotas do fio: bela, graciosa.
E é a suavidade de cada palavra que precisamente me perturba, porque com cada uma delas acabas por revelar uma vida que não chegou a ser.
Porque não se desatou, não se descobriu, não se testou; enfim, verdadeiramente não viveu.
Gostei muito.
Obrigada, Fugi. Só quis deixar aqui registada uma vida que quase não chegou a sê-lo, como dizes. Impressionou-me ter intuído isso numa pessoa que tinha aparentemente uma vida “cheia”, mas em que havia uma tristeza latente que era (quase) visível a um olhar mais atento.
Há vidas assim…