O que aconteceria se fosse possível referendar a adopção por casais do mesmo sexo apenas junto dos homossexuais? Acredito que ganhasse o sim, mas qual seria a expressão dessa vitória? Esquecemo-nos muitas vezes que não temos forma de aferir até que ponto as associações lésbicas e gays representam os desejos da sua comunidade, mas o que sabemos é que há muitos homossexuais que não concordam com a adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Alguns, precisamente porque são pais biológicos e sabem quanto custa aos seus filhos enfrentar a segregação a que também estão sujeitos, por osmose.
Mesmo o casamento – cuja legalização não contesto – é um assunto polémico entre os homossexuais. Há quem considere esse mimetismo dos modelos hetero um absurdo. Lembro-me que há muitos anos o poeta Al Berto, que infelizmente já não está entre nós, expressou essa perplexidade num programa que a televisão dedicou ao assunto. Dizia ele que o desejo de identificação com os modelos heterossexuais entrava em flagrante contradição com a assumpção e afirmação da diferença. Pergunto-me se hoje seria possível ouvir nos media o mesmo tipo de discurso por parte de um homossexual assumido. As vozes dissidentes agora piam baixinho.


Estupenda reflexão, Teresa.
Permito-me um curto destaque: «até que ponto as associações lésbicas e gays representam os desejos da sua comunidade». Desejos e necessidades, obviamente. Isto porque me lembrei do dia em que João Soares, então presidente da câmara de Lisboa, ofereceu instalações para sede de uma daquelas associações. Nunca percebi se lhe satisfez o desejo abusivamente, se o fez por achar que ser homossexual é parecido com ser pobre…
Provavelmente, vindo de João Soares ,só o fez por achar que ser homossexual é parecido com ser pobre. Não sendo eu a favor nem contra a homossexualidade , acho que é um direito que assiste a cada um. Cada um deve ser feliz á sua maneira. Mas a legalização é abrir um precedente para a adopção. Não é para já! Esta é só uma primeira vitória.
Não sei se não será para já. Talvez o Tribunal Constitucional venha a dizê-lo.
No entanto, aqui para o caso, só me interessava saber por que raio João Soares arrajou instalações para aquela associação, quando há sempre tantas colectividades a querer o mesmo.
Para tapar o “buraco” de alguém?
Essa é forte, mesmo para um parafuso…
Foi porque Soares (o João) é fixe 🙂
Só pode.
Teresa: Nos post que tem dedicado a este assunto e que eu tenho lido, a Teresa mostra uma lucidez, uma serenidade intelectual, um equilíbrio despreconceituoso e uma clareza de palavras invejáveis. Parabéns.
:))
Obrigada, Mdsol. Temo que nem todos os meus leitores pensem assim. Verifico com pesar que quem não apoia sem reservas todas as reivindicações desta comunidade é logo rotulada de homófoba… não se faz a coisa por menos.
Pois eu faço minhas as palavras da Maria do Sol.
Eu também assino por baixo das palavras do Sol em Maria.
Ninguém que te conheça esperaria de ti outra coisa.
Um abração.
Ninguém que te conheça ficaria admirado com este abração.
E viva o rei dos Açores!
Obrigada, Joões 🙂
”[Alguns, precisamente porque são pais biológicos e sabem quanto custa aos seus filhos enfrentar a segregação a que também estão sujeitos, por osmose.”.
Não posso deixar de lhe dizer que isto é uma opinião homofóbica. Conheço vários pais que se assumiram homossexuais e nunca os filhos foram estigmatizados por isso, conheço também homossexuais que adoptaram crianças e também essas crianças não são ostracizadas pela orientação sexual do pai/mãe adoptivo/a, mesmo quando estes vivem com um parceiro. Tudo isso que diz faz parte dum imaginário recorrente nas pessoas que são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a adopção por homossexuais e que julgam que com psicologias de meia tigela e algumas palavras mais ou menos politicamente correctas pensam assim lavar a sua consciência democrática.
Pois, Lili, se calhar os homossexuais que são contra a adopção gay também são homofóbicos. Conheço alguns, sabe? Aquilo a que chama psicologia de meia tigela não é uma tese que careça de fundamento: se é difícill ser gay – e não há nenhum que o negue – tem a certeza que é fácil ser filho de um casal homossexual? Quanto à consciência: não lhe pesa pensar que nesta questão o interesse das crianças pode estar a ser tratado de uma forma leviana, em benefício dos interesses de uma comunidade que tem muito mais por que lutar?
Ser contra a adopção não é ser homofóbico, a não ser que tenham uma justificação igual à sua. Há imensos estudos que provam o contrário do que diz e o amor das crianças pelos pais e vice-versa é muito mais forte do que o disparate que escreveu. De qualquer modo filhos traumatizados seja lá por que motivo for há-de haver sempre, a regularização da adopção por casais homossexuais, que aliás já é uma realidade essa adopção, só falta ser legislada, só virá banalizar o assunto, porque, sabe-se, o que a sociedade não consegue eliminar tende a diluir e a assimilar. É o início do fim dos preconceitos.
Sim, é muito difícil ser-se homossexual, para alguns, sobretudo para os das gerações mais novas, o caminho tem sido menos penoso, graças exactamente à quebra de preconceitos e ideias feitas. Há alguns anos, muito poucos, acreditava-se que a homossexualidade era uma doença.
Cara Lili (ou deverei dizer cara “dona da verdade”, dada a arrogância com que vem aqui dar as suas doutas opiniões?): É melhor explicar mais devagarinho, que não entendi. Se acha que “sim, é muito difícil ser-se homossexual”, presumo porque admite que a sociedade continua a segregar os homossexuais, por que razão entende que é um disparate dizer que os seus filhos apanham por tabela? Não acha que há aqui uma certa distorsão no seu raciocínio?
Como lhe disse, há imensos estudos que provam que nada do que escreveu corresponde à realidade. Também lhe disse que as gerações mais novas, graças a Deus, têm o caminho muito mais facilitado.
Quanto à arrogância tenho pena.
Lili: Como se sabe, o que há mais é estudos feitos à medida. Se “o caminho” fosse tão “facilitado” porque haverá ainda tantos gays que não têm coragem para sair do armário? Se calhar o melhor seria começar por aí. Pôr adultos a enfrentar problemas de adultos e enquanto a situação não melhora deixar as crianças de fora. Que tal?
Não são estudos feitos à medida, são estudos feitos por Universidades isentas de quaisquer intuitos.
A Teresa mistura alhos com bugalhos, tão depressa fala da adopção de crianças por casais homossexuais como fala da dificuldade que alguns homossexuais têm de sair do ”armário.
As crianças não estão de fora, regra geral, vivem em más condições, em quase todos os níveis, em instituições de acolhimento.
A Lili com este comentário mostrou bem que não entende ou não quer entender o meu ponto de vista. Para mim, os “alhos e bugalhos” têm tudo a ver e por terem tudo a ver é que são um problema.
Como a si não lhe chamei nenhum nome nem me pus a analisá-lo mal-educadamente, nem sequer comento. Ficamos por aqui.
A Lili não chamou nomes (nem ninguém o fez a si), mas foi pouco correcta quando entendeu dizer «disparate que escreveu». O que foi desnecessário e gratuito: este ‘post’ é uma reflexão bem descrita e apoiada em matéria de facto, pelo que está defendido por natureza; qualquer outra opinião, porventura também válida e respeitável, não carece dessa linguagem.
Posto isto e face ao modo agressivo que escolheu, é bem possível que sejamos nós, nesta casa de bom acolhimento e grande diversidade, a dizer-lhe que ficamos por aqui. Os nossos modos são sempre mais elevados.
Não me lembro de ter trocado comentários consigo.
E sim, continuo a chamar de disparatado, ao suposto fenómeno aventado por quem escreve o post: ” que há muitos homossexuais que não concordam com a adopção de crianças por casais do mesmo sexo. Alguns, precisamente, porque são pais biológicos e sabem quanto custa aos seus filhos enfrentar a segregação a que também estão sujeitos, por osmose.”; exactamente, por conhecer muitas pessoas nesta situação e nenhum dos filhos ser vítima de tal estado. O único facto de que tenho conhecimento é que há homossexuais, que são contra a adopção e contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas não por essa razão tão proverbial. Também conheço homossexuais que nem sequer querem saber destes assuntos.
Conhece homossexuais que são contra? E já agora não quer partilhar connosco as razões que os levam a ser contra? Talvez fosse interessante para a discussão, ou acha que não convém?
Que nervos, escrevi distorsão em vez de distorção. Só agora é que vi. A culpa foi, é claro, da dona Lili, que me tolheu o português. (E tu, João, foste um querido em deixar passar. Sim, porque a complacência do João não é para todas. Eh!eh!eh!)
D. Lili faz lembrar aquelas beatas do antigamente que quando alguém criticava Nossso Senhor Jesus Cristo a Sua Santa e Venerada Mãe e toda a Corte Celestial apareciam logo esbaforidas a chamas Satanás a quem se atrevia a criticar o dogma. As beatas de agora não chamam Satanás mas Homofóbicos a todos os que contestam o dogma «politicamente correcto». A mentalidade retrógada é exactamente a mesma. E o fanatismo também é.
“sabemos […] que há muitos homossexuais que não concordam com a adopção de crianças por casais do mesmo sexo”
Sabemos isso? Como sabemos isso? Conhecemos assim tantos homossexuais, e conhecemos em tal detalhe as suas opiniões? Não creio.
sabemos o contrário disso ?
Sabemos. Há pessoas a lutarem por esse direito, o contrário não tenho conhecimento.
Em bom português: há pessoas a lutar (não «há pessoas a lutarem»).
Parece que a arrogância não é da minha parte, de qualquer modo, obrigada pela correcção, às vezes acontece.
Numa das primeiras aulas de Língua Portuguesa, na FLUL, o professor disse-nos que uma das coisas mais feias, que se podia fazer num diálogo, era emendar uma pessoa. E realmente soa extremamente pedante.
O professor disse-nos que uma das coisas mais feias que pode fazer-se num diálogo é emendar uma pessoa
(não «o professor disse-nos que uma das coisas mais feias, que se podia fazer num diálogo, era emendar uma pessoa»).
O verbo fazer está acompanhado da partícula apassivadora se e, por isso, concorda com o sujeito expresso na oração. (Observação: quando ligada a um verbo transitivo direto, a palavra se é partícula apassivadora).
E deixe de ser tão pedante.
O professor disse… pode fazer-se (não «se podia fazer»)… é emendar (não «era emendar»)…
Casal transitivo directo: um apassivador e outro actuador!
Luís: O que acha mais razoável? Acreditar na unanimidade de opiniões por parte da comunidade gay relativamente a esta matéria ou aceitar que nem todos partilham a mesma posição?
Mas quem disse à Teresa que a ”comunidade gay”, seja lá o que isso for, é toda a favor da adopção de crianças por casais homossexuais?
Curioso, num comentário que deixou acima, percebi que só tinha conhecimento dos gays que eram a favor da adopção, dando a entender que os outros, se não se manifestavam é porque não existiam.
…Estamos perante a “faca de 2 gumes”: Por um lado (alguns) querem o casamento, outros…talvez sim! Mas, no que toca a adopção, os homossexuais coerentes, sabem bem, que se está a laborar num contra-senso! Muito realisticamente, como encarariam as crianças que, se tal hipótese alguma vez viesse a ser real, fossem confrontadas com este anormal “ambiente familiar”? e. na vida, sobretudo na escola? Como responderiam à questão:”Como se chama o teu pai?…Manuel”
e a tua mãe?…Joaquim!! de certeza, um trauma as assaltava: “Por que não posso ter uns pais como os outro meninos”?-Respondam os psiquiátras!
O que é um homossexual coerente?!
Há imensas crianças a viverem assim em muitos países, que são completamente normais e veja-se heterossexuais!
Dou-lhe um exemplo: http://je-bois.livejournal.com/196344.ht ml
Se tiver paciência para procurar tem imensos posts onde pode atestar como foi, por exemplo, o primeiro dia de aulas.
Em bom português: há imensas crianças a viver (não «há imensas crianças a viverem»).
Um homessexual coerente é aquele que, por exemplo, não anda a defender o direito à igualdade às segundas, quartas e sextas, a defender o direito à diferença às terças, quintas e sábados e a guardar os domingos para pensar como é que vai fazer na semana seguinte.
Não conheço ninguém assim, acho isso mais um disparate.
Concordo com o post.
Contundente esta sua reflexão, Teresa. Lúcida, serena, bem escrita e contundente. E identifico-me com ela.
Gosto de saber que surfamos a mesma onda, Mike 🙂
Quanto ao poeta Al Berto, é bom que se note que ele não desejava retirar os direitos a ninguém ao sublinhar-lhe as diferenças.
O poeta Al Berto, nessa reportagem, pronunciou-se unicamente sobre o casamento. Nesse tempo a adopção gay não estava sequer em discussão.
Nesse caso não vou extrapolar o que poderia uma pessoa, que está morta há quase vinte anos, dizer hoje em dia.
Gosto, como sempre, de acompanhar as tuas reflexões. É justo lembrar que nem todos têm a mesma opinião, mesmo estando do mesmo lado da “barricada”. Liberdade é isso mesmo, discordar e exprimir essa discordância. Além do mais, como muito bem salientas e eu já defendi também por aqui, o tema da adopção tem de ser muito bem ponderado em cada caso. Não é assunto para trincheiras intolerantes e cegas, sem pensar nas crianças.
É isso que me incomoda, Ana. Nesta discussão parece-me óbvio que o que está em causa é a conquista de direitos para os homossexuais e não o interesse das crianças.
Penso que é prematuro avançar por esse campo, quando essa comunidade ainda é alvo de tantos preconceitos. Daqui por uma ou duas gerações talvez. Agora é extemporâneo.
Aqui, mais uma vez, a sua resposta é homofóbica, e desta vez nem sequer vem encapotada com o politicamente correcto. Não se esqueça que há milhares de crianças, à espera de ser adoptadas, em instituições sociais, que o processo de adopção é moroso e que, em muitos casos, os pais adoptivos passados às vezes apenas 15 dias, devolvem as crianças por incompatibilidades insolúveis.
E não, Teresa, não se trata do interesse dos homossexuais, os homossexuais são seres humanos como outros quaisquer, com qualidades, defeitos e amor, ou ódio, para dar, os que desejam adoptar uma criança, ou os que já o fizeram, estão quase, na sua maioria´, enquadrados nos seres humanos que têm muito amor para para dar, desejam ser mães ou pais que sabem que mãe/pai é quem cria.
Caramba, Lili, esta marcação cerrada já soa a perseguição pessoal! Começa a apetecer-me também corrigir-lhe o português, já que não me parece possível corrigir-lhe a intolerância…
Lili, não distorça o que digo. Nunca pus em causa a capacidade de amar e educar dos casais homossexuais. Aliás, já me referi a isso explicitamente neste mesmo blog. Mais, entendo que é por amor e respeito pelas crianças que muitos homossexuais entendem que não devem adoptar. Se chamar-me homofóbica a faz feliz, esteja à vontade, não quero que lhe falte nada.
Não acredito que, se fosse referendada, a opção adopção por parte de casais gay ganhasse.
Bem ao contrário.
A sociedade portuguesa ainda é profundamente conservadora.
E é por isso mesmo que os arautos do casamento gay não querem que esta opção seja objecto de referendo, porque sabiam que, em referendo, perderiam.
Plenamente de acordo, Pedro Coimbra. No post coloquei uma hipótese académica: a de o referendo ser apenas circunscrito à comunidade gay. Nesse caso e só nesse caso, acredito que venceria o sim.
Estes marginais hedonistas de sexualidade dúbia desconhecem que a identidade de uma criança se constrói primordialmente por referência aos modelos masculino e feminino protagonizados pelo pai e pela mãe. Adoptantes gay são a garantia segura de graves e irremediáveis danos no processo de construção identitário da criança.
A natureza tem leis milenárias que não são fungíveis à descrição pelos construtores de género. Que só compreenderão isto quando “adoptantes” destes começarem a ser abatidos pelos adoptados à força, através de leis contranatura.