Um governo em transgressão na estrada


Pedro Correia,

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Passados quase cinco meses, o país ainda ignora a que velocidade exacta seguia a viatura ministerial que matou o cidadão Nuno Santos num troço fatídico da A6. Eis um exemplo concreto de falta de transparência que faria corar de vergonha qualquer governante da Europa realmente democrática e civilizada.

Felizmente existe jornalismo. Um dos deveres deontológicos do jornalismo, como George Orwell ensinava, é remar contra as tentativas de silenciamento do poder político. Que não existem só nas ditaduras.

A velocidade a que circulam as viaturas oficiais nas nossas estradas é chocante.

Desde logo, pelo perigo para o incauto cidadão comum, como o trágico atropelamento de 18 de Junho demonstrou. Depois, pela impunidade: estes veículos em transgressão escapam às sanções apesar de o Governo pretender sacar 129 milhões de euros em multas de trânsito no próximo ano – cerca de 240 euros por minuto.

Finalmente, pelo péssimo exemplo transmitido aos portugueses num país onde ocorreram 626 mortes no asfalto em 2019.

 

É neste quadro que ainda mais se justifica o jornalismo corajoso e competente. Jornalismo praticado pela SIC na sua rubrica “Essencial”, inserida no Jornal da Noite.

Durante algumas semanas, repórteres da estação ao volante de automóveis descaracterizados acompanharam viaturas oficiais em deslocações de serviço. Viram – e registaram – comportamentos lesivos da segurança rodoviária a pretexto do cumprimento de banais sessões da agenda governativa: pressão sobre os veículos da frente sem respeitar distâncias de segurança, ultrapassagens em troços assinalados com duplo traço contínuo e circulação a preocupantes velocidades, como se voassem baixinho.

Aconteceu por exemplo com o BMW 530 de Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e da Habitação: saiu de Oliveira do Hospital às 14.54 e chegou a Matosinhos às 16.29, cumprindo um trajecto que deveria durar duas horas em pouco mais de hora e meia. A quase 200 km/h quando circulava no IC6, estrada com apenas uma faixa em cada sentido. Para inaugurar um guindaste no porto de Leixões.

Aconteceu também com o BMW 320D do secretário de Estado adjunto e da Energia, João Galamba: apanhado a mais de 200 km/h na A2, entre Lisboa e Alcoutim, sem sequer assinalar a marcha de forma luminosa ou sonora, como a lei faculta aos titulares de cargos políticos em serviço de urgência. Contra-ordenação muito grave, que a um português sem pedigree governativo custaria multa de 500 a 2500 euros e carta apreendida até dois anos.

 

Conceição Lino reconheceu a transgressão dos próprios repórteres da SIC: «Para gravarmos estas imagens também tivemos de andar acima dos limites de velocidade durante breves momentos. Fizemo-lo por razões de interesse público e porque não nos foi possível de outra forma recolher estas imagens, que são relevantes.»

Motivos mais que justificados. Orwell aprovaria. A isto chama-se serviço público: mostrar aquilo que o poder não quer.

 

Texto publicado no semanário Novo

11 comentários em “Um governo em transgressão na estrada”

  1. Ainda os governantes em questão se vão desculpar com o terem visto os carros anónimos da SIC a segui-los e pensarem que eram terroristas ou coisa parecida.

    Quanto à velocidade do carro de Cabrita, é apenas uma questão de referencial: o carro estava parado e o atropelado é que seguia em excesso de velocidade.

  2. Estou de acordo com esse jornalismo de investigação só tenho pena que não o façam para a pandemia.
    A perseguição que estão a fazer aos não vacinados, na Áustria e Berlim é surreal. Países que viveram o holocausto estarem a recriar a segregação só demonstra que o regime nazi está vivo e é desejado por muitos governantes. Não há um único jornalista que alerte para os perigos de uma nova ordem mundial a tentar entrar de mansinho na vida de todos os povos.
    Temos o exemplo de África em que a vacinação é irrisória assim como o número de mortos covid, e eu pergunto, querem vacinar os africanos porquê?
    A vacina não evita o contágio, não evita a propagação, não evita a morte, para quê esta fobia vacinal?
    A prisão domiciliária a que estão sujeitos os não vacinados na Áustria e em Berlim devia ser condenada e evidenciada na primeira página de todos os jornais dos países livres e democráticos.
    Tenho pena que assim não seja, esperemos que estas medidas totalitárias não alastrem e se tornem na nova pandemia.

  3. Tentar ( perdoem-me a ingenuidade…) correr com esta quadrilha infame a 30 de Janeiro…
    Mas depois caio em mim . bolas, quem vai votar são os mesmos que votaram após os incêndios criminosos , destes criminosos, em 2017…
    E também votaram mo marselfie ( o tipo que, na pele de comentador sabia tudo, estava a par de tudo, “adivinhava ” tudo… e agora é o que (não) se vê…).
    JSP

    1. Os incendiários fugiram para a Califórnia, agora os que se orientaram com as reconstruções começaram a ser julgados.
      E a seguir veio a queda das pedreiras, agora as corridas é que estão a dar?

  4. Também assisti a esse programa apresentado pela Conceição Lino, que achei bastante oportuno e bem feito. E, pasmei de incrudelidade, quando o ministro PNS, confrontado com o facto de ir a excesso de velocidade, sem justificação plausível, e mostrando-se algo maçado com o facto de sentir forçado a uma explicação, disse, em meio a um riso amarelo, que isso não era nada de mais, que os próprios jornalistas, afinal, também estavam a incorrer nessa falta, tanto quanto ele…
    A sério, Ministro!?
    Quanto cinismo, mau gosto e cara de pau!

  5. A resposta do futuro califa quando confrontado com o excesso de velocidade do seu veículo mostra bem o modo de pensamento de muita gente.

  6. «Para gravarmos estas imagens também tivemos de andar acima dos limites de velocidade durante breves momentos. Fizemo-lo por razões de interesse público e porque não nos foi possível de outra forma recolher estas imagens, que são relevantes.»

    Não sei se cola.. O dobro da velocidade média efectuada pelo ministro para o trajecto X a 120 diria o mesmo que a velocidade que está na foto, n’est-ce pas?

  7. “Para inaugurar um guindaste no porto de Leixões.” Sorte dele o guindaste não ter estropo de pendurar pelo pescoço.

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