Os melhores romances e novelas portugueses do século XX


Pedro Correia,

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Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes (1941)

O Barão, de Branquinho da Fonseca (1942)

Volfrâmio, de Aquilino Ribeiro (1943)

Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943)

Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio (1944)

Vindima, de Miguel Torga (1945)

A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro (1947)

A Toca do Lobo, de Tomaz de Figueiredo (1947)

Terra Morta, de Castro Soromenho (1949)

18 comentários em “Os melhores romances e novelas portugueses do século XX”

  1. Só não conheço Tomaz de Figueiredo, dos outros conheço-os todos e li a maior parte das obras aqui retratadas. Bons livros e boa escrita em português coisa que infelizmente agora é raro ou inexistente.

    1. São obras muito diferentes. Várias de temática social, como estava na moda à época, mas escritas com aprumo estilístico e vigor narrativo: ‘Esteiros’, ‘Cerromaior’, ‘A Lã e a Neve’. Também ‘Vindima’, única (e admirável) incursão de Torga pelo romance, obra que o autor foi sempre menosprezando sem razão visível.

      O excelente livro de Castro Soromenho ilustra a literatura “africanista”, como nessa época se dizia: é raro hoje ouvirmos qualquer referência a esta vertente da nossa ficção literária, algo que considero injusto. Poderia ter destacado também ‘Kurika’, de Henrique Galvão (1944), entre o livro infantil e o romance de aventuras, igualmente ambientado em Angola.

      ‘Volfrâmio’ é outra obra capital de mestre Aquilino. Escrita quase em tempo real sobre a dúbia posição portuguesa durante a II Guerra Mundial, quando ingleses e alemães vigiavam a extracção do ambicionado minério de minas beirãs e transmontanas. Vale como romance e como documento.

      ‘O Barão’ é novela de ambiente quase fantástico, objecto insólito na nossa literatura tão apegada ao naturalismo.
      ‘A Toca do Lobo’ derrama saudosismo num solar minhoto: espécie de elegia da juventude perdida, daqueles anos em que se é feliz sem se fazer ideia.
      ‘Mau Tempo no Canal’ é um monumento literário. Devia ser declarado património imaterial da Humanidade. No fundo, já o é – sem necessitar de selo algum dos burocratas da Unesco.

      1. Dentro da temática social e no estilo dos “Esteiros” ou da “Engrenagem” do Soeiro Pereira Gomes, temos o “Até amanhã camaradas” do Manuel Tiago, que era o pseudónimo do Álvaro Cunhal. Uma agradável surpresa para quem nunca foi considerado escritor.

        1. Ao contrário do que se tornou tendência dominante junto das bempensâncias, eu aprecio a chamada literatura “neo-realista”. Daí já ter destacado Redol e destacar agora Soeiro, Torga, Ferreira de Castro e essa obra-prima do género que é “Cerromaior”, de Manuel da Fonseca.

  2. Metade não li, não posso “votar”… “Esteiros” li obrigado no 7º ano. Reli-o décadas depois, com carinho saudosista. Se Soeiro Pereira Gomes tivesse emigrado para os EUA se calhar teria sido um bem sucedido roteirista em Hollywood… (e teria sido colocado na “lista negra” dos anos 1950s, claro). E gosto de Manuel da Fonseca, por mais datado que digam que é (tal como prefiro o inicial Cardoso Pires ao experimental que veio a ser durante um período, até longo mas depois intermitente – para a minha sensibilidade livros como “O Delfim” e “O Dinossauro Excelentíssimo” envelheceram imenso, já os posteriores “Balada…” e “Alexandra Alpha” mais depurados de rodeios estilísticos [nisso mais a “Balada…”são excelentes]). O “Mau Tempo do Canal” (conjuntamente com bem diferente “Sinais de Fogo”, mas prefiro o do Sena) são os romances portugueses de XX pré-“O que diz Molero” de que mais gosto.

    Mas se pedissem para escolher um daqui iria para “O Barão” – que reli este ano -, sobre o qual o Edgar Pêra fez o meu filme português preferido, uma obra magnífica. Do que conheço de ficção portuguesa este livro é um corpo estranho, com a particularidade de não o ser através de recursos estilísticos mas de conteúdo. É uma delícia. E é muito actual, um texto que ficou jovem.

    Sobre o que dizes da literatura “africanista” do período colonial – a maioria dos textos é muito fraquinha, em termos “literários” (formais) e de conteúdo. A excepção é mesmo o Castro Soromenho. O qual mereceria uma outra atenção actual, não só pelo seu valor próprio mas também como demonstração de que havia textos – ficcionais – bem válidos nesse período colonial.

    Enfim, quando for a Lisboa vou buscar o “Volfrâmio” às estantes, que nunca o li. (E não tenho este do Torga, nem o li).

    1. Destaco este livro do Castro Soromenho por ser um impressionante documento do que era uma vila de província no interior da Angola colonial. Julgo que se refere aos anos 30 mas poderia ser de épocas anteriores e até um pouco posteriores.

      O livro está injustamente esquecido, ficou algures entre dois mundos: o do colonialismo, que tão desassombradamente denunciou, e o do pós-independência, em que se apressaram a rasurar tudo quanto estivesse para trás sem a chancela do partido único.

      Mas vale a pena regressar a este autor hoje tão omitido nos canhenhos literários. Bem o merece, por motivos estéticos e temáticos.

  3. Esteiros é um livro que merece de minha parte uma singular referência, por ser um dos romances e autores que tocou a sensibilidade de minha mãe, juntamente com outros em que destaco uma escritora de nome Pearl S. Buck, uma mestiça de americana com asiática.

    De minha parte afirmo: esteiros não é um livro para recordar. É antes uma leitura actual que apela à consciência que também na lama trabalhamos e na lama nos colocaram pós Abril. Porém temos de continuar a olhar para o alto sabendo que há estrelas que nos guiam em direcção ao futuro, que é hoje. Estas estrelas são o sonho que permite mudar o mundo em cada um de nós, começando por vencer o comodismo, a prepotência, a falsidade, corrigindo a trajectória de um mundo que se escraviza a um deus pitagórico pensando que pode reduzir ao número o que é humano.

    Dito isto, e terminando com eloquência, mandemos foder o mal que em cada um nós está.

      1. Obrigado. A liberdade que me oferece permite manter a minha veia de esteta.
        Furar, do latim fodere, tal como outros palavras relativas ao falo, na sua origem não possuem a conotação dada. No entanto divergem no direito as opiniões.
        Mas achei oportuna sua referência para se iniciar o estudo:
        http://antoniosoaresrocha.com/direito/foder-foda

  4. Boa tarde Pedro Correia.
    Que esteja tudo bem consigo.
    A caneta não lhe pesa, felizmente, como leio aqui e no jornal, e daqui do Chapéus lhe tiro o chapéu.
    Nenhuma das obras é melhor que as outras.
    Não li a “A toca do Lobo” nem a “Terra Morta”. Por razões profissionais, muitas vezes me lembrei de Nemésio, ao andar por S. Miguel e especialmente na Fajã de Cima, ou navegar no canal olhando S.Jorge o Pico e Faial.
    Mas gosto particularmente do “Mau Tempo no Canal” (de que retirei trechos para um dos meus discursos formais), “Esteiros” e “Volfrâmio”. Saúde.
    Bom fim de semana.
    António Cabral

    1. Nemésio atinge neste livro, como já assinalei algures, o ponto cimeiro da nossa arte literária do século XX. Ao nivel do Eça de “Os Maias” no século XIX.
      Tudo o resto vem depois. Mas qualquer destes romances e novelas merece elogio, cada qual por seu motivo.
      Bom fim de semana, meu caro. Saúde.

  5. No final do meu 2° ano do ciclo preparatório (actual 6°ano) tiveram lugar exames nacionais. Na prova de Português, como texto de interpretação, saiu um excerto da obra de Soeiro Pereira Gomes. E desse texto, foi destacada uma frase onde era solicitada a nossa interpretação. Pensei na minha mãe, á época emigrante em França e escrevi, tenho a certeza, a minha melhor composição escolar. Terminado o exame dirigi-me á biblioteca e encontrei um exemplar dos Esteiros. Li o romance de seguida, com uma única interrupção, para dormir, por ordem expressa pela minha avó paterna. Na manhã seguinte terminei a leitura e contei á minha avó a vida dos meninos-operários dos telhais á beira dos esteiros do Tejo. As vidas de Gineto, Gaitinhas e companhia. Vidas que faziam da minha uma existência dourada. A avó Antónia, com um sorriso que não era comum aparecer na sua face de mulher que enfrentou de frente e tenazmente todas as agruras da vida, informou-me que a vida de menino do meu pai tinha sido em tudo semelhante às vidas desses meninos-operários e que os telhais do Tejo do meu pai tinham sido a fábrica de cortiça existente na vila (Sines). A partir desta data a avó Antónia (analfabeta) comprou-me todos os livros pelos quais demonstrei interesse, todos. A frase do exame que pedia a nossa interpretação e na qual me inspirei na minha mãe: “Adosinda desfiou o seu Rosário de lágrimas e canseiras”.

  6. Li “Vindima” de Miguel Torga. Um raro romance do escritor/poeta.
    Gostei. Ambientado no Douro com a linguagem própria de Torga.
    Penso que com “A Rua” e “Senhor Ventura” foram os únicos romances de um tão grande e diversificado escritor.

      1. Vindima, pura “luta de classes”. Deliciosa a metáfora do ninho com os ovos podres. Quando resolvi escrever para cinema (uma brincadeira para comemorar meio século de existência) resolvi colocar a Maria Lionça, o Armindo, o Alma Grande, a Mariana, o Leproso e o velho Garrincha a viverem todos na mesma aldeia. A brincadeira resultou, está a ser filmada uma minissérie de 4 episódios para a RTP. Pena que a cena onde o Armindo seduz a ingénua Matilde, o palanque do confessionário da igreja, tenha sido eliminada por exigência da herdeira de Torga. Ficou com os cabelos em pé!

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