
Adolfo Mesquita Nunes: «Ter um olfacto, como dizer?, quase inexistente pode ser uma bênção numa ou outra circunstância, mas fico sempre com a sensação de que boa parte da vida me passa ao lado. Não teria essa sensação se o olfacto estivesse completamente desligado, mas não está. Há cheiros, poucos, que sinto com intensidade (e segundo sei nem sequer serão cheiros especialmente fortes quando comparados com outros que me passam ao lado).»
Leonor Barros: «Chega o autocarro. Uma carripana velha com um homem magro e seco de cabelo grisalho ao volante. Estendemos-lhe o dinheiro e eis que irrompe num episódio de ódio sem precedentes. Mais vociferar, mais berrar, mais esbracejar. Uma verdadeira sorte não perceber russo, o que não sabemos não nos pode magoar, mas pressenti que não nos estivesse a elogiar, sim, que manias tinham os estrangeiros de visitar Moscovo. Depois de lhe darmos mais dinheiro, o ser vociferante e irado calou-se. Quanto ódio. Tanta ira até lhe faz mal. Os russos não gostam de estrangeiros. Nem de manhãs.»
Luís M. Jorge: «Há algo de perturbador nestas manifestações de ricos que entre Nova Iorque e Paris se mobilizam para que lhes aumentem os impostos. É preciso que uma democracia ultrapasse todos os limites da submissão abjecta aos interesses de uma elite para que esta acorde repentinamente de um torpor de três décadas e nos comunique que nos esquecemos de a taxar.»
Patrícia Reis: «Querido Eduardo – E passou-se mais um ano. O tempo tem sempre o condão de me surpreender. Já não compro o Público porque me custa ver que não estás. As boas novas são as que já sabes: a maria manuel publicou a sara k, o verão de todos os silêncios, pela Planeta. Uma capa linda, um lançamento emotivo com várias leitoras (todas nós a invejar a bela voz da Filipa Leal, mas enfim, sabes como é a inveja das mulheres, quando não é má, é de admiração saudável). É um belo livro.»
