Histórias da Carochinha


Cristina Torrão,

Nesta minha estadia alargada em Portugal e apenas com acesso a oito canais televisivos (que são só seis, pois dois estão de férias), quase me limito aos da RTP. Acontece que a RTP Memória passa, nesta altura, a série “Walker, o Ranger do Texas”, não pertencente às minhas preferências, mas de algum agrado do meu marido (o meu sogro era fanático). E como é de minha opinião que podemos aprender com tudo, mesmo com coisas de que não gostamos, ou com as quais não concordamos, tenho visto alguns episódios. Pensei que me pudessem servir de reflexão. E serviram mesmo.

“Walker, o Ranger do Texas” é baseada num velho pressuposto: há alguém que tem sempre razão. A série assenta numa personagem de moral indiscutível, inteligência a toda a prova, forma física infalível e técnicas de combate invencíveis. Para ser ainda mais politicamente correcta, esta personagem reconhece as qualidades das artes marciais, é sensível aos ensinamentos cherokee e muito amiga dos negros (conquanto estes não lhe contestem a supremacia e estejam dispostos a desempenhar o papel do “banana”, quando dá jeito). Concluindo: estamos perante um homem que sabe sempre tudo e age sempre de forma correcta, de acordo com os princípios que lhe foram ensinados na infância e na juventude, por pessoas (entenda-se, homens) igualmente sem defeitos e de uma moral ímpia.

Walker Texas Ranger.jpg

Homens assim não existem. O Walker é tão fictício, que podia ser representado por uma figura de desenhos animados. Esta série está ao nível de “Uma Casa na Pradaria”, ou dos contos de fadas dos Irmãos Grimm. O Ranger Walker mais não é do que a fada da Gata Borralheira, um ser com toque de Midas, pronto a resolver os problemas de gente em aflição.

E qual é o problema, perguntam vocês. Não se pode sonhar um bocadinho? Claro que pode. Desde que se tenha consciência disso. Não levamos as peripécias da família Ingalls a sério, assim como sabemos não existirem fadas. Mas muitos acreditam no Walker! E acreditam que o mundo pode ser como o da série: nunca há dificuldade em distinguir o Bem do Mal, todos têm o seu papel bem definido na vida e, caso esta ordem seja ameaçada, há sempre um justiceiro que põe tudo no lugar, um justiceiro que nunca cai em tentação, nunca se deixa corromper, nem nunca comete abusos. Quando o Walker pega numa arma, dispara sempre na direcção certa e atinge sempre o alvo certo. Quando o Walker faz um juízo sobre uma pessoa, nunca se engana (e raramente tem dúvidas). O Walker só agride alguém que o merece, nunca perde a calma nem a paciência com outros. Não há dinheiro no mundo que leve o Walker a fechar os olhos a uma incorrecção, a um desvio que seja.

Estes sonhos transformados em realidade são aproveitados por manipuladores. Até há pouco tempo, os EUA tiveram um Presidente que convenceu muitos norte-americanos ser capaz de construir uma América à medida da série do Walker, um mundo onde não há lugar para desvios, onde todas as famílias vivem felizes e seguras para sempre, onde as crianças têm sempre paciência para ouvirem os sermões dos adultos e onde as mulheres, profissionalmente, têm o rigor da Procuradora Alex Cahill e, em família, são dóceis, cumprindo o papel que dela se espera (mas, sinceramente, alguém consegue ver a Alex Cahill despenteada e desmaquilhada a levar com os salpicos de óleo, enquanto frita peixe?).

«Casaram e viveram felizes para sempre» – este é o final de chave de ouro nas histórias da Carochinha. Na vida real, todas as famílias escondem os seus podres.

45 comentários em “Histórias da Carochinha”

  1. Estamos há ano e meio a ouvir uma história da carochinha e ninguém até hoje achou estranho. Mas tenho a impressão que esta não vai ter um final chave de ouro. Digo eu que não sou ranger.

    1. Pois, vivemos acontecimentos que previstos há pouco mais de um ano, eram “teoria da conspiração”.
      Agora vivemos a experiência de “imersão” nas mesmas.
      Talvez devamos perguntar ao Pentágono, afinal também eles vieram agora afirmar que há OVNIs e mostrar os filmes militares…
      Que virá a seguir ? Godzilla ? Soylent Green ?

  2. Homens assim não existem?
    Que a Cristina não conheça nenhum é uma coisa, outra é dizer que não existem, aliás eu sou o Walker da minha terra.

  3. O problema das séries televisivas como esta que refere, é incutirem às pessoas valores e atitudes como a coragem, bravura, liberdade, o saber defender-se, boa forma física, bom atavio, respeito, educação, masculinidade, feminilidade (no caso das senhoras), camaradagem, amizade, e família, assim como a não discriminar pessoas pela sua raça ou cor da pele.

    É por tudo isto que séries de TV como «Walker, o Ranger do Texas» – entre outras de boa qualidade, feitas no Século XX -, causam alarme nos liberais, pois põe em causa o modelo podre, promiscuído, retardado, decadente e degenerado, de indivíduos e sociedade que idealizam.

  4. Parece-me que estou a sentir uma pontinha de saudade do Trump neste post.

    O silêncio de facto tem sido ensurdecedor. Então as auto intituladas feministas que têm mais a dizer sobre um tweet do sobre os Taliban…

  5. Um cheirinho a anti-tumpismo?
    Será que me enganei?

    Por lapso, o anterior comentário não ia ‘assinado’. Aqui fica a correcção.

      1. Nos comprometedores tempos que correm, à cautela, usa-se uma ‘tranquilizadora’ equívoca ambiguidade(pleonasmo deliberado.

  6. Cristina,
    No “Walker” tudo anda na ordem.
    A ordem é importante para poder surgir algo extraordinário.
    Neste último ano tenho andado ocupado a “organizar” uma criança, com o intuito de ela poder desorganizar com a consciência do permitido, do proibido, das regras.
    Seria interessante um Walker do Texas, transsexual, de burka arco-íris e a disparar para todo o lado mas só a acertar nos malvados dos brancos, heterossexuais; seria interessante mas difícil de construir uma história com esse enredo.

    1. Mal daqueles (sim, refiro-me a rapazes sem questões de índole convencional quanto a essa característica) que na idade para tanto natural o não quiseram ser. Walker ou figura afim. E mal daqueles que, tendo-o querido, disso hoje se envergonhem.

    2. Pedro, é mesmo uma “história da Carochinha” para rapazes (grandes e pequenos). Assim como a Branca de Neve o é para as meninas. O importante é colocar uma série destas no nível adequado e não tomá-la pela melhor realidade. Muitos norte-americanos querem uma realidade assim à força.

  7. Analisar eventos ocorridos há décadas com os olhos de hoje não faz sentido. Respeito a opinião mas não posso concordar, este exercício é equivalente ao graffiti no Padrão dos Descobrimentos.
    E quanto aos valores que a série transmite, nada têm de mal, respeito e convivência sã deveriam ser a regra e não a exceção e o princípio básico de o bem vencer o mal não deveria ser posto em causa.

    1. «este exercício é equivalente ao graffiti no Padrão dos Descobrimentos» – alguns comentadores aqui do Delito fazem associações interessantes. Lá em cima um até falou dos talibãs.

      1. A comparação com o graffiti do Padrão dos Descobrimentos é por se tratar de um anacronismo, mas suponho que terá percebido.

        1. É uma excelente comparação, mas claramente fora do alcance de muitos. Aliás, pelos tempos que correm a série tem sérios problemas de igualdade de géneros e raças, pois se a mulher era constantemente “salva” do herói, logo uma manifesta alusão á fragilidade do género feminino que não se sabe defender e o indivíduo de raça negra relegado para um papel secundário,,,,
          Hoje teria que ser o negro o herói, a procuradora uma lésbica transsexual e o chico lá teria que fazer uma perninha num bar gay. Ah e o cavalo que antes era usado como meio de locomoção, agora teria que ser ajudante da procuradora, nos momentos de carência afectiva.

        2. O anacronismo tem as costas largas, o seu significado tem suscitado as maiores confusões.
          Quem é anacrónico? Aquele que aponta criticamente os erros do passado (embora os entenda no contexto), a fim de evitar que se repitam; ou aquele que glorifica os erros do passado, desejando transportá-los para os dias de hoje?

          1. Cara Cristina (permita-me),
            Elogio-lhe o civismo de aceitar as críticas que são colocadas ao seu texto, não tem passado despercebido.
            Quanto às suas questões, chamo a atenção para os seguintes pontos que me levam a pensar que o mal está mais nas conclusões que a Cristina tira do que aquilo que efetivamente pretende criticar:
            1) no texto parte do princípio que a personagem preta na série é submissa e desprovida de personalidade ou vontade própria, tendo o seu comportamento balizado por uma atitude subserviente, o que não corresponde à realidade da série;
            2) sugere que ao considerar o seu texto como anacrónico se glorificam os erros do passado e se perpetuar tais comportamentos para o futuro. Pela parte que me toca, não aceito tal crítica. Se na série do Walker nada tenho a opor porque nada lhe encontro de errado (qual o problema de um chefe ser branco e o ajudante preto se o contrário também é perfeitamente aceite, por exemplo) já não posso aceitar e deixar de lamentar que hoje em dia e cada vez mais se estejam a por em causa factos do passado, vandalizando as obras que os celebram. Coloco exatamente no mesmo patamar o que se fez no Padrão dos Descobrimentos e o que os talibans fizeram ao destruir estátuas do buda, ressalvando os seus reais efeitos, pois que no primeiro caso facilmente se limpou.
            Espero que entenda o que pretendo dizer.
            Cumprimentos.

          2. 1) A «personagem preta» só tem personalidade ou vontade própria, quando convém. Noutros momentos é de uma estupidez confrangedora.
            2) Nunca disse que concordava com a vandalização de monumentos. Só continuo a não perceber o que o meu texto tem a ver com isso.

          3. O seu texto nada tem a ver diretamente com vandalização de monumentos mas o princípio é o mesmo, é analisar o que se fazia dantes com os valores de hoje. E isto assusta. Agora achamos graça por ficar chocados com os “disparates” que antes se faziam, no futuro, por este andar, corremos o risco de se mandar queimar livros e achar isso normal.

  8. ESTA série amostra a ficção de como devia ser a sociedade num MUNDO civilizado algo que nunca na vida há de acontecer poisa inveja corrupção impéram no mundo actual

  9. Parece-me bem haver um herói como o ranger do Texas. Se o Walker encontrasse uma prostituta transexual negra, manca e vesga, ajuda-la-ia no que fosse necessário. Faria o certo. Eu esforço-me por fazer o mesmo.
    Ou seria melhor ter como herói um Dexter, cheio de fraquezas e ambiguidades? (Arrepios).

    PS- Vi um episódio do Dexter, aconselhada por amigos, e achei horrível. É profundamente perturbador fazer parte de uma sociedade que produz um herói a partir de um assassino em série.

    1. Ainda não vi, na série, ser abordado o homossexualismo, o transsexualismo ou a prostituição.
      Já agora, também ainda não vi uma criança do sexo feminino estar no centro de um episódio. São sempre meninos que têm capacidades transcendentais, ou aprendem a ser como o Walker (uso de armas, fascinação pela vida militar, essas coisas).

      1. Talvez porque a série não se debruce sobre esses assuntos. A série descreve a épica luta entre os bons e o maus. Não pode saber se uns e outros são homossexuais, transexuais ou poliamorosos.. E na realidade, na minha opinião, isso não interessa nada.

  10. muito bem.
    Mas a parte dos podres é que seria a novidade. O tema maior.
    Nao nao estou a pensar nos podres domesticos, mas, afinal, no podre que é cada um de nós. E quem se quiser excluir, está á vontade.

    Portanto, nao so só as familias propriamente dias que escondem os seus podres. O enigma é : como seriamos, familia incluida, se assim nao fosse. ? É como um cancro benigno.

  11. Cristina, nestes comentários parece-me notável a quantidade de pessoas que parecem ter-se sentido incomodadas com um post que me parece óbvio. Certamente que a série era do seu tempo, mas não é anacronística. Tenho a certeza que se encontram séries semelhantes nalgum sítio. O que também se encontram, felizmente, são séries boas, que de uma forma ou outra reflectem em vez de despachar a mesma fórmula semana sim, semana também.

    Note-se, eu até via às vezes a série. Tinha o condão de não precisar de ser seguida, dado que não havia história real. Só que era de facto um cartoon, onde Walker era não só invencível como os seus adversários pareciam ficar petrificados à espera do pontapé inevitável. Foi muito por causa desta série que surgiram os “Chuck Norris facts”.

    Duas notas curiosas:
    1. Mike Huckabee, quando candidato à presidência, disse que a sua política de defesa (ou de defesa da fronteira, não me lembro bem) se resumia em duas palavras: Chuck e Norris.
    2. Um dos Chuck Norris Facts era: Não há Evolução, apenas animais que Chuck Norris permite que vivam. Quando esta foi contada a Chuck Norris ele disse que não entendia muito bem, porque a Evolução não era real (ou algo do género, conto de memória).

    1. João André, infelizmente há muita confusão (propositada) à volta do termo anacronismo, hoje em dia. Mas esta série de facto não o é, a eleição de Trump provou-o.

      O que quis mostrar foi, acima de tudo, que a série com o Chuck Norris devia ser vista ao mesmo nível de “Uma Casa na Pradaria”, ou seja, uma fantasia, entretenimento puro, conforme os gostos. Nada tenho contra quem a vê com essa consciência. Mas o Chuck Norris, e como o João André demonstrou nesses dois exemplos, é levado demasiado a sério. E eu nem quis ir muito por esse lado, mas esta questão também passa pelo facto de uma série como a da família Ingalls agradar mais às mulheres e o Chuck Norris agradar mais aos homens, o que dá bem mais credibilidade a esta última. Mas, como disse, nem queria entrar por aí, só o referi porque sei que o João André entende.

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