
Vou relendo vagarosamente Os Maias, saboreando cada página, cada parágrafo, cada frase. Há livros que lemos na adolescência, como comigo foi o caso deste, a que é indispensável regressar na idade adulta. Porque aquilo que nos interessava então deixou de nos interessar tanto agora – o enredo, a trama, as peripécias amorosas – e cada capítulo volta a ser uma fascinante descoberta de pormenores. Com as grandes obras da literatura é assim: quando as lemos, de alguma forma elas também nos lêem a nós.
É um Portugal antigo, muito datado, que emana destas páginas. Mas é também um Portugal contemporâneo, um país que teima em ser intemporal para além de todos os ciclos e de todas as modas. Como se nos víssemos ao espelho. Paradoxalmente, sendo um escritor realista, que descrevia com minúcia lugares emblemáticos e situações características da sua época, Eça de Queiroz – falecido faz hoje 121 anos – é também um escritor eterno. Porque foi capaz de apreender e captar aquilo que permanecia imutável para além da ilusão das aparências. Costuma-se dizer, neste sentido, que é um “escritor actual”. Nada mais certo.
E depois há a linguagem. A saborosa, inconfundível linguagem queiroziana. Eça, como sucede aos maiores escritores, reinventou o idioma, dando-lhe graça, verve e colorido. Basta o primeiro capítulo d’ Os Maias para detectar isto. Em expressões como «a paz dormente do bairro», «aquela doce quietação de subúrbio adormecido ao sol», «uma impressão de causar aneurismas», «era um amor à Romeu».
E há ainda a ironia – a célebre ironia de Eça, que tantos tentaram imitar sem o menor sucesso. Por ser tão pessoal, por ser tão intransmissível. Também patente logo no capítulo inicial. Afonso da Maia, irritado com a beatice da mulher: «Quando sentia na casa a voz de rezas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu Voltaire.» O filho, Pedro, passando de menino atinado a adulto devasso: «Foi despontando naquela organização uma grande tendência amorosa: aos dezanove anos teve o seu bastardozinho.» E até ao conhecermos um dos animais domésticos lá de casa: «À janela o papagaio, muito patuleia e educado por Pedro, rosnava injúrias aos Cabrais.»
Em tempo de papagaios com novos motes e de outros bastardozinhos, revisitar esta obra-prima é um prazer inesgotável: eis a melhor forma de mergulhar, através da literatura, no Portugal de sempre.

Lido duas vezes. Uma por obrigação, outra por opção.
A passagem da ida ao hipódromo é intemporal. Vem à memória (também) cada vez que a SIC organiza os seus globos de ouro.
Uma dúvida, quanto ao uso da expressão “datado”. Qual o significado? É que datado significa estar associado a uma data (ter sido datado), mas cada vez mais se lê o uso como sendo “dated”, que em americanês corresponde ao fora de moda, antiquado.
Datado, para mim, é situado e enquadrado no tempo. As traduções incompetentes do “amaricano”, todas literais por desconhecimento da semântica e da sintaxe portuguesa, geram essas confusões de conceitos em que tropeçamos a todo o momento. Acabando por perverter o significado das palavras.
O Eça faz parte daquela classe de escritores, que a morte, em vez de destruir, monumentalizou.
Grande verdade.
Você é que sabe, mas:
Queirós e queiroziano , porque não Queiroz?
De tanta linha que escrevi não tem mais nada a assinalar do que uma gralha?
De facto Portugal é um país cheio de Pachecos e de Acácios. Hoje como anteontem. Iguais aos bisavós que Eça tão bem retratou.
https://porticodalinguaportuguesa.pt/ind ex.php/academia/pareceres-academicos/ite m/eca-de-queiros-ou-eca-de-queiroz
A “academia” que pariu o aborto ortográfico? Chiça, safa. Antes os palpites do professor Karamba.
Cá está você sem perceber o que é ou não é pra chatear, tão pouco quis assinalar o que acha que foi uma gralha, até por “estar bem das duas maneiras” como diz o outro.
Segunda oportunidade perdida: continua estacionado. Pacheco ou Abranhos, tanto faz.
Vá lá Vá lá, não lhe terem aparecido aqui os antiracistas a desfazer no João da Ega, ainda está com muita sorte.
Capazes disso são eles. Aproveitemos enquanto Eça não é ainda zona interdita.
E você atrapalhado por causa da gralha.
Há uns bons anos, coisa parecida aconteceu-me no final do secundário com um professor a assinalar/sublinhar a vermelho o meu Queiroz, sem nunca me chamar atenção. Também ele ficava atrapalhado, não só com a Antologia dos Autores Portugueses como com o meu BI.
Não comentei o “O papagaio e o bastardozinho” por estar bem escrito, e revisitar “Os Maias” dá sempre jeito. .
Obrigado. Há professores que nos deixam bom rasto na memória, outros também deixam rasto – mas só isto.
Já li “Os Maias” várias vezes. E, de cada vez, é como a primeira. Há sempre, mas sempre, coisas a descobrir.
Vá-nos relembrando passagens inesquecíveis, à medida que vai lendo, Pedro! Descrição das personagens, de situações, tudo sublime!

Há livros que tenho lidos, relidos e anotados de uma ponta à outra, Cristina. Com destaque para esta trilogia: Bíblia, Os Lusíadas e Os Maias. Cada qual, à sua maneira, diz muito do que somos. E são fonte de sabedoria permanente, inesgotável.
A Arte da Guerra.
O Princípio de Dilbert.
Sim, há muitos mais. Do Príncipe ao Principezinho. Mas eu concentro-me nestes, para mim essenciais – cada qual por seu motivo. E não me tenho dado mal.
Eu releio Os Maias muitas vezes, principalmente quando acabo de ler um qualquer livro de um qualquer autor da moda altamente recomendado e me sinto vazia e triste por ter perdido tanto do meu tempo. Os Maias comigo funcionam como o chocolate ao qual acabo por inevitavelmente voltar, quando nada mais funciona.
Tiradas “à Eça” são muito imitadas mas jamais igualadas, Pedro. Adorei ler este texto.
Obrigado, Dulce. Confesso que este é um dos livros da minha vida. Começa muito bem e acaba ainda melhor. De todas as vezes que o li (e já foram três por inteiro) aprendo sempre coisas novas, que pareciam não estar lá antes.
A melhor definição de um clássico é mesmo esta.
«(…) com a certeza de ter que recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis. A “política” portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande império».
O vasto reino é o Afeganistão. O império em causa era o britânico, evidentemente. E esses poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis estavam então à ilharga da sua jóia.
Essas ilhargas já não são, há muito, mera questão de contiguidade geográfica. O império, para as mentes iluminadas, hoje é outro e a ele se deve, parece, todo o mal do mundo se intervém. E, revelam-no com clareza cortante os últimos dias – e também para essas mentes, dir-se-ia -, se deixa de intervir.
“Afeganistão e Irlanda”. De Eça foi o que fui levado a reler por estas horas.
Afeganistão? Até parece que meteu esta de propósito.
Alguém tem de começar…. a…ser pensado…como comentar isto de outra vez os barbudos.
Parece que já está a sair um pequeno ensaio ‘eles até já usam relógio e são a favor da iniciativa privada’, sabendo que outros atiram com um certeiro(?) ‘já estava tudo combinado ser assim’. E não se fala mais nisso, não vá o Rangel oferecer-se para ir a Cabul.
Pode ir o Biden. A Kamala é que não convém aparecer por lá. A menos que leve burca.
Sempre actual, até nisto.
Todos os anos leio os Maias. Começo no início do Outono, mas, se estiver triste ou deprimida, não acabo o livro: é que, se estou em baixo, não consigo “assistir” à morte de Afonso da Maia, nem ao seu último encontro com o neto, ou com o Ega. Se isto não é poder de um imenso escritor… Bom, agora é Verão e estou no campo, é tempo de ler A Ilustre Casa, como faço também todos os anos: não tarda ouvirei o vozeirão do Titó, um dos homens mais livres de Portugal, e o riso de Gonçalo, cochichando com a prima Maria Mendonça, na generosa casa dos Barrolo, e todos os outros, de Vila Clara ou de Oliveira, já os vejo, vou ter com eles. Eça Imortal!
Coincidência, Margarida. “A Ilustre Casa” será uma das minhas próximas leituras.
Só li até ao incesto e desisti !
Nem sabe o que perdeu.
Um papagaio de pata ao léu (patuleia) é aquilo que se quer.
O papagaio (é o segundo bicho preferido dum pequeno humano que vive cá em casa) influência da Virgínia Woolf (a viúva e o papagaio) e dos inúmeros piratas que lhe vou apresentando (com o papagaio no ombro) e explicando que ter uma pala no olho não faz de ninguém menos culto (cf. com Camões).
Patuleia e Maria da Fonte são, talvez, das revoltas (alguns chamam-lhe revoluções) menos estudadas e menos compreendidas da História de Portugal.
Os Cabrais de ontem são os Costas de hoje.
Os centralizadores da vontade socialista da cidade imposta ao povo de pata ao léu.
Os pata ao léu da altura não queriam revolução cultural nenhuma, queriam, simplesmente, não pagar impostos e viver como habitualmente.
Curiosamente, Zeca Afonso e mais uns quantos vêem a “Revolta de Maria da Fonte” (das sete mulheres do Minho) como um 25 de Abril em 1846; quando na realidade foi um “levantamento” de sinal contrário.
Se há bicho de que gosto é o papagaio. Lisboa, por sinal, está cheia deles – tal como os golfinhos, que regressaram ao Tejo tantos anos depois. Serão vantagens ocasionais da pandemia?
Mantenho o sonho antigo de ter um papagaio – verde, claro. De pequenino, para ser ensinado a falar e a cantar ópera. Dizem-me que agora é quase impossível, pois os “amigos dos animais” impedem isso.
Século e meio depois, estão cá todos….
Todos. Os Eusebiozinhos, os Cohens, as Gouvarinhos, os Salcedes…