Ao contrário do que já vi escrito, Copenhaga não foi decepcionante para todos. Houve quem saísse de lá clamando vitória, com um sorriso nos lábios.
Em primeiro lugar, os ambientalistas cépticos radicais, que encaram as questões ambientais como uma moda ou uma religião. Há sempre quem esteja disposto a negar as provas científicas, desde que isso sirva para lhe aliviar a consciência mas, encarar um problema discutido no mundo inteiro desde 1964 e sempre presente nos grandes debates sobre o futuro do Planeta, desde 1972, como um “modismo”, é uma forma no mínimo “sui generis” de analisar as questões ambientais.
Também não se trata de uma questão de crença. As questões ambientais não se reduzem ao campo das hipóteses ou da Fé. Não se resolvem com meia dúzia de orações e missas ao domingo!
Diariamente, há exemplos da degradação ambiental, quer a nível da biodiversidade, quer na destruição dos recursos naturais. Todos os dias se extinguem espécies, pondo em risco o equilíbrio ecológico. Um dia, inevitavelmente, será a vez da espécie humana. Levará ainda muitos anos até que isso aconteça? É possível, mas essa forma de pensar e encarar a questão leva-nos ao terreno do outro grande vencedor da cimeira de Copenhaga: o egoísmo.
Só o egoísmo justifica que as pessoas não se preocupem com o futuro dos seus descendentes e foi esse mesmo egoísmo que impediu os líderes mundiais de concretizarem um acordo vinculativo, que assegurasse desde já a continuidade do protocolo de Quioto.
É certo que nada está perdido, porque o protocolo de Quioto está em vigor até 2012 e, já em 2010, no México, os grandes líderes mundiais terão uma nova oportunidade para um acordo.
Mas nem só de acordos, vitórias e derrotas se fez a cimeira de Copenhaga. Dela emergiu, surpreendentemente, a África do Sul, enquanto países como a China e a Índia abandonaram as suas posições rígidas e manifestaram o seu empenho em contribuir para uma solução justa e equitativa. Obama, condicionado pelo Senado, mostrou-se irredutível e foi uma das grandes decepções, a par do Canadá. Enigmático foi o silêncio da Rússia, um dos últimos países a assinar o protocolo de Quioto. Decepcionante foi a posição da UE, incapaz de sustentar e fazer valer perante os restantes parceiros a sua ambiciosa proposta.
Finalmente, esta proposta de Arnold Schwarzenneger– de que pouco se falou por cá, mas foi muito discutida nos bastidores – merece ser encarada com alguma pertinência. Inverter a pirâmide das decisões pode ser um verdadeiro ovo de Colombo.

Carlos: revejo-me totalmente, quando ao balanço de Copenhaga, nas palavras do professor Viriato Soromenho Marques, que gostei de conhecer pessoalmente há poucas semanas. Diz ele que “os resultados são paupérrimos” e a cimeira foi “um enormíssimo fracasso”.
Link disponível: http://www.ionline.pt/conteudo/38455-copenhaga-e normissimo-fracasso-diz-viriato-soromenh o-marques-
Curioso. Eu também, Pedro! No entanto, há quem tenha saído de lá satisfeito. Foi o lado B da notícia que aqui pretendi realçar. Houve quem saísse de lá satisfeito, apesar de conhecer a realidade dos problemas ambientais, podes crer…
Conheci o Viriato Soromenho Marques há mais de 20 anos e também o admiro, por ser uma pessoa muito empenhada,conhecedora e equilibrada na discussão destas questões, que acompanho há décadas. Tenho pena é que a comunicação social portuguesa ( com excepção do Público) só dê grande relevância às discussões em torno do ambiente, quando há cimeiras, ou quando há atentados ambientais em Portugal, normalmente provocados por descargas poluentes. Ou então quando há umas negociatas em volta dos sobreiros…
Não achas que a gritaria e o desejo de protagonismo do Sarkozy prejudicaram a posição europeia?
A proposta da UE era muito ambiciosa mas, como já tem sido demonstrado noutras ocasiões, a falta de força e capacidade negocial é notória. Um dos problema da UE é que não fala a uma só voz, porque os interesses dos seus membros não são consensuais.
Concordo que a posição do Sarkozy poderá ter enfraquecido a posição europeia, mas isso leva-me a outra questão que me aprece pertinente. Na tugalândia, onde o patriotismo acéfalo coarcta o discernimento, há muita gente entusiasmada com o facto de Durão Barrosos ser o presidente da Comissão, mas ninguém parece querer ver que el não manda, nem decide, rigorosamente nada, é apenas um porta-voz dos grandes decisores: Alemanha, França, Inglaterra e Itália.
Isso também foi visível para quem esteve em Copenhaga e acompanhou a cimeira por dentro, para além da sala de imprensa.