Memórias da Guerra Colonial
Cozinha do antigo quartel de Teixeira Pinto
Foto Paulo Sousa
Ainda não falei do Sr. João, um dos membros da caravana. O Sr. João serviu na Guiné, no quartel de Teixeira Pinto, actual Cachungo. Por isso, por ele e pelas suas memórias, esse teria de ser um dos pontos da viagem. E assim foi.
Após a independência o antigo quartel foi transformado na escola primária do Cachungo, o que até seria uma metáfora feliz, não fora o atraso de um ano no pagamento dos salários dos professores ter levado ao encerramento da mesma.
Refeitório do quartel de Teixeira Pinto, actual escola primária do Cachungo
Foto Paulo Sousa
Visitamos o local, e ouvimos as estórias do Sr. João. Levou-nos a ver um tubo metálico enferrujado espetado no chão. Era o furo de água, cuja análise era da sua responsabilidade, e a partir do qual era abastecido o quartel. Mostrou-nos a padaria, os dormitórios, a messe, o bar, e todos os recantos.
Metro após metro, passo após passo, e lá saia disparada mais uma recordação e o relato de mais um episódio. Olhando em toda a volta, para aquele abandono e falta de manutenção, entendemos claramente que, de tudo o que ali se tinha passado, o que se encontra em melhor estado são as memórias que ele dali guarda, dos seus camaradas, das cervejas frescas, das gargalhadas e da sua juventude.
Meteu-se com uns rapazes que por ali andavam e contou-lhes que tinha vivido e sido soldado naquele quartel. Eles encolheram os ombros, riram-se todos e despediram-se com um aperto de mão.
Foto Paulo Sousa
O poilão que fazia sombra ao lado do quartel, e que já era enorme durante a Guerra Colonial, está agora bem maior e igualmente indiferente ao que por ali se passa. É uma árvore notável, um colosso mesmo entre outros colossos que por lá vimos.
O poilão notável
Foto Nuno Rebocho
Outra das paragens que prevíamos fazer era ao cemitério militar de Bissau. A Guiné foi o cenário mais difícil da Guerra do Ultramar e, independentemente das mudanças que ocorreram desde então, cá e lá, havia uma vontade em homenagear os portugueses que ali serviram e cumpriram o que lhes foi exigido. Assim, agendamos com a Embaixada Portuguesa uma visita ao seu talhão militar. E lá fomos, acompanhados pelo o adido militar da embaixada. O que encontramos não foi o que esperávamos, pois as sepulturas daquele talhão são de soldados de campanhas do Sec. XIX e início do Sec. XX e não da Guerra Colonial.
Existe igualmente uma capela da Liga dos Combatentes, mas pelo que entendi ali estarão apenas uma pequena fracção dos militares que não regressaram a casa. Perguntamos se havia algum levantamento sobre os corpos de soldados que tenham sido deixados no campo de batalha e cujos restos mortais não tenham sido recuperados. A resposta não foi muito conclusiva e pela falta de objectividade, entendi a confirmação daquilo sobre o qual já tinha lido. De facto de alguns dos corpos nossos compatriotas não puderam ser recuperados e foram deixados no mato, onde tombaram. Alguns terão sido enterrados à pressa, sem qualquer cerimónia, sem direito a lápide a nada que identifique os restos do que foram. Outros nem isso. Abandonados à sua sorte foram também os milhares de soldados portugueses de origem guineense.
Mais uma vez o Estado Português fez jus às palavras de Padre António Vieira.
“Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

‘….foram deixados no mato, onde tombaram’
Quem fez esta afirmação?
Nunca nenhum combatente foi deixado no mato, tombado. Nunca.
Excepção nos casos dos desaparecidos por afogamento, e outros casos de desaparecidos.
Essa dos “deixados” nem fez sentido por a nossa tropa ser a “estacionada”, como tal não disparava e fugia como acontecia com os da guerrilha.
Os nossos mortos em combate, desastre ou doença eram todos devidamente identificados e vinham para Bissau. Não havia cemitérios nas centenas de tabancas com a nossa tropa. Em Bissau tratava-se do encaminhamento para a metrópole, não me lembro se a custas do estado ou da família, ou do enterramento no cemitério militar.
Já quanto os soldados guineenses, os meus soldados eram todos guineenses, coitados. Não mereciam terem sido abandonados à sua sorte, é a merda da guerra.
O sr. João devia ter ficado muito comovido. Na Guiné houve uma guerra do caraças, quem por lá não passou ou já nem sequer se lhe iria passar, e ainda bem, não faz uma pequena ideia do que foi aquela guerra. É tabu, ou assim parece, a nossa filmografia não se interessar pelas centenas de relatos de acontecimentos na guerra da Guiné, e só assim se dava uma ideia à nossa população do que foram criminosamente obrigados, durante mais de dez anos, todos os jovens do nosso país. Têm os filmes sobre a guerra no Vietname para ver, é a mesma coisa, excluindo as atrocidades causadas à população e as condições armamento/instações
«encaminhamento para a metrópole, não me lembro se a custas do estado ou da família»
Encargos da família, à época, cerca de 11 mil escudos.
José Monteiro
Pelo que li, o repatriamento das baixas sem custos para a família estava garantido apenas aos oficiais.
Não pretendo de todo desvalorizar a sua vivência, o que assistiu ou as memórias que guarda, mas existiram desaparecidos em combate. Googlei esse assunto e passo a transcrever um excerto de um documento da CM Mirandela relativo aos combatentes desse município:
“Mas há outra ferida que as próprias autoridades procuram esconder o mais possível: os dela/uploads/writer_file/document/106/36 59.pdf
desaparecidos. Recentemente, a Grande Reportagem, escrevendo sobre estes “ heróis sem
regresso”, dizia que “ de 1971 a 1973, há no Diário de Notícias nove referências a
desaparecidos de combate”. E nos dez anos anteriores?
Ninguém vai acreditar que não haja números oficiais. Talvez à medida que o tempo passe,
sejam criadas as condições para exorcizar definitivamente o fantasma da guerra, de modo a
que ninguém fique submergido pela capa do silêncio.”
https://www.cm-mirandela.pt/cmmiran
Como disse no texto, entendi as meias respostas do adido militar da embaixada como uma confirmaram do que consta no texto acima.
Respeito o esforço da geração que foi obrigada a pegar em armas. Aos olhos de hoje, esse tempo é muito, e cada vez mais, distante. Cada um dos envolvidos devia fazer um registo (falar para um gravador de um telemóvel é fácil e para esse efeito suficiente) para memória futura. O que for esquecido será como se nunca tivesse ocorrido, e cada ex-soldado que não o faça é um mundo que se perde.
Se não eu fosse sensível a isso, não teríamos preparado a visita junto da embaixada.
Obrigado pelo seu comentário. Amanhã acaba a saga.
Paulo Sousa, não faça arrepiar: só na evacuação de Madina do Boé, Che-Che e Beli morreram mais de 40 soldados afogados na travessia do rio Corubal. Afogados!!!!! coitados, depois de meses a serem obrigados a viver em buracos devido ao ataques diários da guerrilha, toda aquela zona do Boé foi evacuada “estrategicamente” passando a zona de ninguém toda uma vasta área do território da Guiné. Já começava a estratégia de abandono de posições em zonas de difícil controlo.
Muitos dos soldados carregados de arma e munições nunca mais foram encontrados, depois de vários dias de intensas buscas pelos fuzileiros. Foram dados como desaparecidos, não foram abandonados.
Não gosto de falar na Guiné nem vou gravar declarações mas porque Madina do Boé veio à baila, convém explicar que a fronteira norte da Guiné-Bissau era o rio Casamansa (Ziguinchor era território português) até que os franceses impuseram (dictatum) uma troca. A fronteira passou a ser uma linha sem referências naturais traçada em mapa entre os rios Casamansa e Cacheu. Em troca cederam uma área a sul. Conseguiram assim trocar um terreno fértil e já com um entreposto comercial importante por uma área pantanosa, de matas cerradas e sem utilidade económica. Além disso dividiram artificialmente uma população etnicamente diferenciada que era dominante na área e que, naturalmente nunca respeitou a inviolabilidade fronteiriça o que só complicou o quadro da guerra colonial.
A Sul, Sekou Touré, o ditador da Guiné-Conakry, não reconhecia o “negócio” dos colonialistas franceses e reclamava o território que incluía Madina do Boé. Chegou-se ao ponto das provas de promoção dos oficiais de artilharia da Guiné-Conakry serem feitas por ataques de artilharia a Madina do Boé.
Quando Spínola chegou à Guiné em 1968 o quadro era uma ocupação total da província mas toda a capacidade operacional esgotava-se no reabastecimento de quartéis isolados de que Madina era o expoente máximo. Não existia capacidade ofensiva com significado, situação que Spínola corrigiu em 3 meses. Assim o abandono de Madina do Boé não foi uma fuga a qualquer ameaça militar mas uma decisão estratégica que só posso aplaudir.
Nem os 40 – tenho ideia de 47 – mortos e desaparecidos na travessia do Corubal foram consequência de confronto militar mas resultado de se ter virado uma jangada – por motivos que pessoalmente atribuo a culpa por omissão do comandante – e às características do rio, com forte corrente, águas lodosas e margens inacessíveis (excepto no porto de
atravessamento) por tarrafo (arbustos implantados em lodo). A não recuperação de muitos corpos, certamente o mais horrível desse desastre, deve-se também a que o Corubal estava infestado de jacarés.
Certo, Francisco Almeida.
Não expliquei o pormenor do desastre da jangada da travessia do rio Corubal.
Depois fui várias vezes ao local, zona do cais da jangada, montar segurança na colocação de minas, que com a estratégia de abandono de Madina, Cheche e Beli passou a haver mais ataques a aquartelamentos e abandono de tabancas do lado de cá do Corubal.
Mesmo ficando toda aquela área uma zona de ninguém, sem população ou a nossa tropa, Sekou Touré nunca tentou anexar aquele território. A declaração de independência do PAIGC na região, nunca se soube o local certo, foi para marcar internacionalmente a presença/pertença por parte da Guiné-Bissau.
Muito mais triste este relato. Mas a vida tem destas passagens, tristezas que poderiam perfeitamente não ter existido, mortes escusadas. Tudo tão lamentável. E a indiferença de hoje será natural, mas há algo de desabrido e inóspito num presente que não sente o passado como sua pertença. Mas julgo ser assim a natureza das coisas.
A visita do Sr. João ao seu quartel, assim como a que muitos outros combatentes que regressam anos depois aos locais onde serviram, julgo serem como o fechar de um ciclo.
Falar com os locais, sem farda, sem patente e sem ordem do dia, é simplesmente uma conversa entre pessoas. E é na simplicidade de uma conversa banal que se desfaz a lógica de uma guerra que foi atroz para todos os envolvidos.
Lapidar o Padre António Vieira:
“Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”
A propósito, boas crónicas estas. Têm sido sempre bons momentos de leitura.
Obrigado
As guerras de ultramar nunca deviam ter acontecido! Ainda hoje muitos jovens daquele tempo sofrem com uma guerra que não os deixa em paz.
Se cair no esquecimento, é como se nunca tivesse acontecido, e isso é errado.
Deve ser sempre avivada a memória da guerra do ultramar para ficar bem claro que houve uma geração de portugueses que estava contra aquilo que se adivinhava ser um momento errado para abandonar África.
As consequências foram piores do que aquilo que se previa…piores para África e piores para a Europa.
Retornado
Houve uma acumulação de vários erros, que podemos simplificar num único. Em Portugal foram tomadas diversas decisões que colocaram os seus interesses, assim como o das chamadas províncias ultramarinas, do lado errado da história. Toda a dinâmica da época era contrária ao que era defendido por unhas e dentes pelo regime. O ponto de não retorno foi muito anterior a 1974.
Apaguei o comentário palerma que falava do poilão. O pouco que dava para entender alimentava a vergonha alheia de um anónimo.
Não levará a mal a caridade que lhe fiz quando lhe eliminei o comentário.