
«Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ela é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a escutar às portas – e pelo outro a descobrir a América!»
Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes (1900), p. 75
Ed. Livros do Brasil, Lisboa, s/d

A famosa Lisboa, “cidade traduzida em francês do calão”, está na p. 80. A Lisboa (“data atroz” de uma carta) dos “primeiros refluxos da verborreia parlamentar!”, está na p.111. Mas do folhear do meu exemplar, a que este seu postal deu pretexto, fica sobretudo a constatação da “imensa caravana que marcha confusamente para o Nada” e a que talvez reste “dar alguma beleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a morte”. Na p. 92.
Fica essa constatação e a prudente decisão de “adquirir um revólver” e dar, segundo as circunstâncias, “ou pão ou bala”. Consequência lógica disso de “homo homini lupus”. Que sempre o seria (sempre o será) ainda que “viesse outro Cristo!”. Está na p. 94. A mesma página onde, linhas antes – em brevíssimas duas linhas e meia -, se descreve de forma sublime, lapidar, sem uma palavra a mais, a Paz: o ideal de uma biblioteca num final de tarde Outonal (“a chama incerta e doce da lenha no fogão”). Ainda que servindo “para lamentar (…) todas as misérias humanas!”.
E, por sobre tudo isso, há a extraordinária elegia do “inopinatam atque repentinam” com que “Não acaba mais docemente um belo dia de Verão”, logo depois, na p.95. Sereníssima, preciosa descrição de um fim. Tudo a ver, na forma (e em mais do que isso) com certa visita a um Ramalhete irreversivelmente entregue ao Tempo.
E há mais, nessa Correspondência, para mim. E haverá mais e diferente, para outros. E para uma imensa – e quantas vezes disso orgulhosa – maioria, nada.
Grato pelo pretexto de lá voltar, nesta tarde de “deveres” e “proibições” imbecis. Talvez produto de conversa “conselheiral e conselheirífera”. Está na p.127.
Só a crónica em que nos fala do célebre Pacheco (alma gémea do conselheiro Acácio e de Alípio Abranhos) bastaria para louvar esta obra, única na literatura portuguesa.
Ah, “aquele imenso talento!”
E não só as cartas a Fradique.
A outra Correspondência, a amigos,familiares,directores de jornais ,contém a “ironia salvadora” mas também interessantes reflexões sobre o país,o mundo político,a crítica literária.
Ficaram-me, entre outras, as deliciosas polémicas com Pinheiro Chagas, o texto sobre o
Ultimatum,muito politicamente incorrecto.Não sei como não o ameaçaram com bengaladas,talvez por residir no estrangeiro.
Retrato de alguns figurinos pátrios, é intemporal.
Fora do romance, é das obras que mais gosto.
Humor irónico. Fabuloso.
Pacheco, Comendador Pinho, o Quinzinho o Padre,
Outra obra imperdível: “Uma campanha alegre”.