Leituras


Pedro Correia,

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«Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ela é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a escutar às portas – e pelo outro a descobrir a América!»

Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes (1900), p. 75

Ed. Livros do Brasil, Lisboa, s/d

6 comentários em “Leituras”

  1. A famosa Lisboa, “cidade traduzida em francês do calão”, está na p. 80. A Lisboa (“data atroz” de uma carta) dos “primeiros refluxos da verborreia parlamentar!”, está na p.111. Mas do folhear do meu exemplar, a que este seu postal deu pretexto, fica sobretudo a constatação da “imensa caravana que marcha confusamente para o Nada” e a que talvez reste “dar alguma beleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a morte”. Na p. 92.

    Fica essa constatação e a prudente decisão de “adquirir um revólver” e dar, segundo as circunstâncias, “ou pão ou bala”. Consequência lógica disso de “homo homini lupus”. Que sempre o seria (sempre o será) ainda que “viesse outro Cristo!”. Está na p. 94. A mesma página onde, linhas antes – em brevíssimas duas linhas e meia -, se descreve de forma sublime, lapidar, sem uma palavra a mais, a Paz: o ideal de uma biblioteca num final de tarde Outonal (“a chama incerta e doce da lenha no fogão”). Ainda que servindo “para lamentar (…) todas as misérias humanas!”.

    E, por sobre tudo isso, há a extraordinária elegia do “inopinatam atque repentinam” com que “Não acaba mais docemente um belo dia de Verão”, logo depois, na p.95. Sereníssima, preciosa descrição de um fim. Tudo a ver, na forma (e em mais do que isso) com certa visita a um Ramalhete irreversivelmente entregue ao Tempo.

    E há mais, nessa Correspondência, para mim. E haverá mais e diferente, para outros. E para uma imensa – e quantas vezes disso orgulhosa – maioria, nada.

    Grato pelo pretexto de lá voltar, nesta tarde de “deveres” e “proibições” imbecis. Talvez produto de conversa “conselheiral e conselheirífera”. Está na p.127.

    1. Só a crónica em que nos fala do célebre Pacheco (alma gémea do conselheiro Acácio e de Alípio Abranhos) bastaria para louvar esta obra, única na literatura portuguesa.

  2. E não só as cartas a Fradique.
    A outra Correspondência, a amigos,familiares,directores de jornais ,contém a “ironia salvadora” mas também interessantes reflexões sobre o país,o mundo político,a crítica literária.
    Ficaram-me, entre outras, as deliciosas polémicas com Pinheiro Chagas, o texto sobre o
    Ultimatum,muito politicamente incorrecto.Não sei como não o ameaçaram com bengaladas,talvez por residir no estrangeiro.

  3. Retrato de alguns figurinos pátrios, é intemporal.
    Fora do romance, é das obras que mais gosto.
    Humor irónico. Fabuloso.

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