
Por amável convite do Luís Serpa, obreiro da livraria Ler por Aí, em parceria com a Universidade Autónoma de Lisboa e a Oficina da Liberdade, participei na manhã de ontem no primeiro painel dum ciclo de debates por via digital subordinado ao tema “Comunicação Social: Liberdade de Expressão e Responsabilidade Social”.
Este painel integrava também José Manuel Fernandes, Carlos Fernandes e Luís Aguiar-Conraria, com moderação de Isabel Damásio, jornalista e professora da Autónoma.
Eis algumas das questões postas a debate, também com a participação do público que ia acompanhando via Facebook:
– Como assegurar a liberdade de expressão em situações de crise?
– Quais os limites e constrangimentos da liberdade de expressão?
– Como vê a liberdade de expressão durante a crise da Covid-19?
Em síntese, deixei estas reflexões sobre o tema:
- A pandemia reforçou a dependência dos jornalistas das fontes oficiais, limitando – até por constrangimentos físicos motivados pelo confinamento – a obtenção de notícias a partir de vias alternativas. Isto permite que a verdade de um dia se torne a mentira do dia seguinte. A título de exemplo, a garantia dada pela ministra da Presidência que só 12 mil britânicos viriam assistir à final da Liga dos Campeões no Porto onde estariam sempre envolvidos numa “bolha” de adeptos em trânsito entre o aeroporto e o estádio com regresso imediato ao aeroporto. Os últimos dias mostram-nos uma Cidade Invicta já invadida por milhares de forasteiros do Reino Unido a pretexto da realização do jogo, num desmentido vivo das garantias da ministra.
- A mera reprodução do discurso oficial, sem análise crítica, induz o jornalista a desinformar os cidadãos. Não é possível, por exemplo, a máscara “transmitir uma falsa sensação de segurança” (directora-geral da Saúde dixit) e tornar-se obrigatória por ser um imprescindível instrumento de combate à pandemia.
- O mesmo se aplica à reprodução acrítica das opiniões de supostos especialistas em saúde pública e em doenças infecciológicas que – com poucos dias de intervalo – emitem opiniões contrárias às que emitiram anteriormente, falando sempre de cátedra como se fossem autoridades supremas na matéria.
- Os chamados “argumentos de autoridade” devem ser encarados com desconfiança e sujeitos a escrutínio jornalístico. Para haver fronteiras entre factos e propaganda. Durante semanas sucessivas andaram a vender-nos um ilusório “milagre português” como excepção num mundo contaminado pela pandemia. Era uma “verdade” com pés de barro: meses depois, Portugal surgia nas piores estatísticas do planeta em novos contágios e óbitos por milhão de habitantes.
- Há que combater a tendência cada vez mais acentuada para a produção de “jornalismo de pacote”: o que escreve um, escrevem todos os outros por mero efeito mimético.
- Há que criticar sem rodeios aqueles jornalistas que aproveitaram a grave crise sanitária para se travestirem de tele-evangelistas, pregando lições de moral e bons costumes aos cidadãos em vez de difundirem notícias.
- O jornalista tem o dever deontológico de combater a censura. Mas também de contrariar a múltipla corrente de micro-censuras que proliferam por aí, geradas pelas mais diversas tribos de ressentidos e ofendidos. Um exemplo: ninguém fala em vírus chinês para não ferir a delicada sensibilidade de Pequim, mas há contínuas alusões à estirpe inglesa e brasileira ou à variante indiana deste vírus. Tal como continuamos a aludir à gripe espanhola de há um século que nada teve a ver com Espanha.
- Com a pandemia assistimos à proliferação de termos como “negacionismo” ou “negacionista” para rotular todas as fugas à norma e catalogar qualquer voz discordante. O dever deontológico dos jornalistas é combater estas etiquetas que mais não visam do que condicionar a liberdade de expressão equiparando moralmente todos os “dissidentes” àqueles que negam a existência do Holocausto.
- O jornalismo é, infelizmente, uma das profissões menos escrutinadas. Os órgãos de informação que escrutinam ao mais ínfimo pormenor as actividades profissionais de médicos, professores, magistrados, arquitectos, enfermeiros, militares ou polícias esquecem-se de estender esse escrutínio ao exercício da própria profissão, cada vez mais proletarizada e sujeita a toda a espécie de riscos. Que independência editorial subsiste em empresas jornalísticas falidas ou em vias disso, com editores a receberem pouco mais que o salário mínimo e os próprios directores a correrem o risco permanente de despedimento?
- O chamado “jornalismo de cidadania” é um mito, por vezes perigoso quando se cruza com o pior dos populismos. Todo o jornalismo exige a minuciosa investigação de factos, a confirmação desses factos por fontes credíveis, o estabelecimento de contraditório e a audição de todas as partes envolvidas.
- A ética jornalística consiste na permanente procura da verdade com a noção antecipada de que não existem verdades absolutas. O jornalista tem o dever deontológico de contrariar a propaganda, de desmascar falsidades, de combater a mentira. Só assim cumpre realmente a sua função.

Bom dia Pedro Correia.
Apreciei a partilha desse interessante debate.
Reflexões importantes, e que me ajudam às minhas. E ajudam a minimizar as minhas deficiências.
Um dos aspectos “curiosos” dos dias de hoje é, na minha opinião, a falta de educação de muitas pessoas que se julgam importantes porque foram subindo na vida, falta de educação que se manifesta em coisas simples como, por exemplo, não agradecer as manifestações sinceras e educadas de felicidades no novo cargo, ou não responder a comunicações que recebem. Tanto mais interessante quando se conhecem em detalhe como e porquê subiram na vida.
Outro aspecto e este grave, é a censura que se vai fazendo, e vai aumentando.
Pessoalmente já tenho três casos, um e inacreditável, no meu blogue que presumo aconteceu porque não se deram ao trabalho de perceber a intenção de uma dada fotografia, simples, factual, que retratava coisas simples e reais da nossa vida.
Outro caso de censura e simultânea má criação, é o que comigo se passou já, recentemente, e em outro caso há bastante mais tempo, com jornais ditos de referência. Não se deram ao trabalho de comunicar com quem lhes submeteu um texto à consideração. Texto certamente bom, sofrível, ou mau. Mas podiam dizer alguma coisa. Até porque o texto abria portas importantes nas entrelinhas que poderiam ser trazidas à colação por causa de assuntos dos dias de hoje. Enfim.
Saúde e bom fim de semana.
António Cabral
Nessa interessante discussão em Marte alguém faz ideia do conteúdo da “Carta de Direitos Humanos na Era Digital”, uma lei de Censura promulgada a 8 de Maio de 2021?
Ainda não li, como sucedeu certamente com 99% dos portugueses. Mas ouvindo o alarido que por aí vai dir-se-ia que é ao contrário : parece que só 1% não leu. E quem não alinha na mais recente vaga de indignação logo recebe insulto: para já, você só me chama marciano. A seguir logo se vê.
Isto demonstra até que ponto as redes distorcem a realidade.
Dito isto, eu só escrevo sobre o que conheço. E conheço documentos lendo-os – não passando os olhos por títulos ou espreitando a súmula da súmula da súmula que mão amiga em busca de “likes” me faz chegar via FB ou whatsApp.
Muito certeiras estas suas reflexões, Pedro. Destaco uma: “Há que criticar sem rodeios aqueles jornalistas que aproveitaram a grave crise sanitária para se travestirem de tele-evangelistas, pregando lições de moral e bons costumes aos cidadãos em vez de difundirem notícias.”
Este foi um dos aspectos da pandemia que mais me incomodou. Jornalistas que se demitiram totalmente de raciocinar e questionar as autoridades. Entraram na cruzada esquecendo-se que o seu dever era fazer o contraditório. Falharam. Falharam-nos. Mas o importante é sermos, enquanto sociedade, capazes de reflectir sobre os acontecimentos.
De facto, Susana, só nos faltava levarmos com tele-evangelistas no lugar de jornalistas. Nós confinados, com todas as precauções, muitos sem emprego, sem perspectivas de futuro, vendo tantos falir à nossa volta e ainda receber presumidas lições de moral e bons costumes da parte de gente sem qualquer autoridade para o efeito.
Mais papistas que o papa, em muitos casos. Chamando-nos irresponsáveis enquanto nos noticiários internacionais chamavam irresponsáveis aos governantes nunca aos governados.
Dois pesos e duas medidas. Nos mesmos telediários.
Bom.
O jornalismo hoje é um dos grupos que mais reforça e apoia a censura.
Não é só comportamento da profissão sobre a nova lei da censura Lei 27/2021, de 17 de Maio. Poucos protestaram.
Mas também o comportamento social, intimidador do jornalista, como bem referiu o adjectivo “negacionista” empregue por muitos jornalista para criticar alguém que não tenha a opinião dominante, rebaixando essa pessoa ao nível de alguém que nega o Holocausto.
Outro exemplo: quem dizia que havia probabilidade de o vírus ter saído do laboratório era punido pelos jornalistas. Mesmo que cientistas afirmassem que existia essa probabilidade e vários dissessem que indicadores no vírus pareciam indicar essa possibilidade (mais fácil de detectar). Mas Trump dizia por isso a censura promovida por jornalistas actuou.
Hoje tudo mudou. Já é aceitável dizê-lo. Biden precisa ou quer, por isso os jornalistas mudaram todos de opinião ao mesmo tempo…
Hoje tornou-se moda chamar negacionista a quem pensa de modo diferente seja no que for.
Torna-se “dissidente”, defensor do nazismo, doente mental digno de hospício à moda soviética.
Outra banalização é a da palavra censura. Igualmente inaceitável. Como sublinho em resposta a outro leitor, censura é algo muito específico, nada tem a ver com isto.
Se houvesse censura não teríamos net à disposição nem escreveriamos aqui.
A partir do momento em que pessoas serão punidas por exprimirem uma opinião que vá contra a verdade do Governo(ou da cultura dominante publicada) – por exemplo alguém dizer que as máscaras protegem quando a DGS dizia que não – a diferença entre censura anterior ou posterior parece-me pouco relevante.
Bom dia Pedro,
Não sendo jornalista, sou um mero consumidor de notícias dotado de algum senso crítico, não posso deixar de aplaudir o teu contributo para uma reflexão séria sobre tão nobre profissão:
” Todo o jornalismo exige a minuciosa investigação de factos, a confirmação desses factos por fontes credíveis, o estabelecimento de contraditório e a audição de todas as partes envolvidas.”
Gosto muito de ler o que escreves, sobretudo quando recorres à tua costela humorística para desancar comentadores mononeurónicos (será que a palavra existe?).
Carlos Arnaut
Mononeurónicos? Existem, sim. E nem andam muito longe.
Falar de liberdade de expressão num blog que pratica a censura tem o mesmo efeito que um orador de máscara numa televisão sem som.
Há regras mínimas de civilidade e de cordialidade quando se visita casa alheia. Um blogue não é um órgão de comunicação social: é um espaço de convívio privado, por vezes com janelas e portas abertas ao exterior, mas onde quem dita as regras é quem reside, não quem visita.
Aqui você foi sempre bem acolhido, aqui você nunca ficou sem resposta, aqui você viu publicados centenas de comentários de todo o género – inclusive sobre temas em que era total e transparente o nosso desacordo.
Que depois disso apareça de dedinho em riste a queixar-se de ser “censurado” é algo ridículo- e que o arquivo do Delito desmente.
Desvirtua e perverte, aliás, o significado da palavra censura – que é exercida por poderes públicos, servindo-se de instrumentos políticos e administrativos, para silenciar vozes discordantes.
Há censura em regimes tirânicos que proíbem (por exemplo) a difusão da internet. Já houve censura instituída em Portugal. Felizmente esse tempo terminou e a censura está até proibida na Constituição.
Você tem toda a liberdade de criar um blogue e de exprimir lá as opiniões que entende. Foi o que eu fiz em 2009, ao criar este.
Aconselho-o a fazer o mesmo: bastam poucos minutos.
Não lhe reconheço a liberdade de vir aqui insultar-me, muito menos nos termos em que o faz. Ou de tentar negar-me a liberdade editorial de impedir a publicação de insultos.
Este, aqui, foi o último que me fez.
Foi por ter visto publicados centenas de comentários que pensei merecer alguma consideração da sua parte. Enganei-me.
Fiz a primeira observação, mas você preferiu tratar-me como tolo. A linguagem utilizada no comentário era exactamente igual à que você utiliza nas respostas que me dá, nada de ofensivo portanto. Não percebi a não publicação, só isso. Você levou a mal, lamento não pensei que ficasse ofendido por tão pouco.
Peço desculpa por ter dito a verdade.
Enganei-me, pensei que o nome do blog fosse denotativo e não conotativo.
E também peço desculpa por mais alguma coisa que o possa ter ofendido.
Pode crer que não volta a acontecer.
Ainda bem.
O que escreve aqui é muito bonito mas muito exagerado, não parece que o Carlos Correia tenha dito algo assim tão ofensivo. E agora zangue-se lá com o que eu vou dizer: Brincar politicamente com uns e com outros não o permitir. Mostra bem dois pesos e duas medidas.
Não é saudável .
Rui Santos
Carlos Correia?
Quem é o Carlos Correia?
É o Carlos Sousa.
Mil perdões!
Rui Santos
Lendo o seu excelente post, e comungando totalmente o comentário do António Cabral, pergunto ao Pedro Correia como vê a entrada da CNN na comunicação social portuguesa, logo num canal (TVI24) já muito formatado na “Costa News Network”?
É que os critérios de rigor da CNN (verdadeira) não se condignam com o “lambebotismo” dos pivots, jornalistas e sobretudo muitos dos comentadores.
Ainda a propósito da crise na C.S. o que dizer da “falência” do grupo Impresa?
Será que a CGD irá subscrever a maioria das obrigações agora lançadas?
As respostas e a informação credível a que os Portugueses têm direito, tem que ser dada pelos novos OCS’s. O NOVO, o Observador e até o Eco, têm se esforçado oara isso. Que continuem e melhore.
Meu caro, sou incapaz de criticar seja o que for antes de aparecer. As árvores julgam-se pelos frutos não pelo que vamos lendo em correntes de opinião nas redes sociais.
Se há um novo projecto jornalístico, só posso saudá-lo. Depois julgarei em função do produto concreto que propiciar aos portugueses.
Teremos certamente oportunidade de trocar impressões sobre o assunto em tempo oportuno.
Não!
As árvores não se julgam pelos frutos. A árvores que não tem frutos e a frutos que não são comestíveis.
Julgar parece ser o seu pequeno poder de diminuir o outro. Deixe lá as árvores em paz!
De árvores percebo eu. Mais do que você, provavelmente. s-nossas-irmas-arvores-9708784
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a
Elogio o seu texto sobre as árvores ” as nossa irmãs arvores”
“De árvores percebo eu. Mais do que você, provavelmente.”
Talvez, mas duvido!
Mas lá está o seu julgamento, sempre a julgar e a pensar que é superior aos outros.
Numa coisa tenho superioridade total, lamento informá-lo. Como se você andasse no jardim-escola.
Tudo quanto escrevo, vem com o meu nome.
Você refugia-se no anonimato, atitude típica dos cobardes.
Insultar quem não o insultou é sempre revelador do que se é !
Bagão Felix foi meu Professor, Sá Fernandes é uma pessoa que já cumprimentei várias vezes.
Também eu já reclamei por escrito para Câmara de Lisboa, Quercus, junta de freguesia , enfim fiz barulho por abates de árvores em Lisboa. Digo-lhe que fiquei bastante desiludido com a ignorância da junta de freguesia, a inutilidade da Quercus e da indiferença da Câmara municipal de Lisboa e do senhor Sá Fernandes(…)
Não sendo um especialista( também gosto de ser modesto) tenho experiência de árvores em trabalhos de campo.
E mais importante de tudo sei admirar e dar valor a importância de uma árvore!
Sim! Sei plantar, podar e admirar o seu crescimento.(…)
Nunca ofendo nem sou mal educado com um comentário anónimo por isso não dou o meu nome, nem que seja para o incomodar com a sua sensibilidade.
Se a conversa for para falar de tocos cobardes, então muito havia para falar.
O anonimato é atitude que revela cobardia.
Compreensível em ditaduras, como Cuba, Irão, China ou Bielorrússia. Inaceitável em democracia.
“Inaceitável em democracia”
Meu caro Pedro Correia,
Meu tio Avô um estudante de 22 anos foi preso em 1940 pelo o Estado Novo,enviado para Peniche, Aljube com guia de marcha para o Tarrafal, onde esteve com o Edmundo Pedro.
Tenho outro familiar( comendador da ordem da liberdade) antifascista e resistente lutou pela liberdade toda a sua vida, foi preso várias vezes ( até no dia do seu aniversário em casa com a família), na década de 50, 60, 70 extremamente maltratado e torturado…Esteve nas campanhas activas do Norton Matos e do Humberto Delgado, inclusive tendo discursado. Foi homenageado diversas vezes com nomes de ruas e pavilhões desportivos( alguns fundador). Jorge Sampaio(Presidente da república) conheceu o bem e fez questão de o homenagear na sua terra, pois em Lisboa não conseguiu estar presente.(…)
Lembro-me de uma avó( irmã do meu tio avô) dizer que naquele tempo em casa tinha que se falar baixinho, porque as paredes ouviam…
Sou filho de um Alferes miliciano condecorado com a cruz de guerra 1 classe no ultramar assim como o meu padrinho.
Não me ofenda a falar de ditaduras, nem de cobardia. Porque eu conheço aqueles que lutaram e sofreram na pele as diabruras da ditadura. E nunca, nunca reivindicaram louros de qualquer espécie, muito pelo contrário… Simplesmente nunca me contaram nada, nem eu alguma vez tive qualquer privilégio por isso.
Se há algo que eu aprendi foi a respeitar a liberdade.
Tem o direto de me criticar por não assinar ou pelo o que eu escrevo, já de me insultar não!
Inaceitável para mim é chamar-me cobarde ou de ser fascista!!
(Se faz questão)
Pedro Santos
“É que os critérios de rigor da CNN (verdadeira) não se condignam com o “lambebotismo” dos pivots, jornalistas e sobretudo muitos dos comentadores. “
Sarcasmo? porque é bem pior do que se faz cá.
Admito não ler um jornal há tempos. Lia o velho Espesso e o Público, nos tempos de universidade era do Diabo ao Avante. E Bola, Record e Jogo.
Desisti do Público porque para publicidade tenho o telecompras, e não pago por opinião travestida de notícia.
Pela amostra da internet (ainda fui assinante do expresso), a qualidade anda pelo piso 0. Notícias copiadas de agências noticiosas, ou de artigos estrangeiros. E mal traduzidos. Sem investigação, sem profundidade.
O último exemplo a que assisti “pessoalmente” foi de jornalista da sicN que foi fazer uma espécie de frete e depois escrever um texto. Um tipo de happeningue.
Há quem imagine que está mais bem informado se ignorar os jornais e só souber o que se passa picando as redes.
Esquecendo desde logo que as redes picam por sua vez os jornais, às vezes mudando só os títulos e outras nem isso.
Esquecendo também que preferir os boatos que circulam na Net à informação credenciada, produzida por profissionais credenciados, é o mesmo que alguém deixar-se conduzir num avião por um piloto sem brevet ou optar pelo curandeiro em vez de ir ao médico.
Não tenho “redes”.
Há TV, rádio, e jornais em versão digital. Estes últimos não estão muito longe do FB, no que respeita ao clique isco. E no conteúdo….
Na perspectiva de quem consome (pseudo) informação, estou de acordo as reflexões do post. O recurso limitado às fontes oficiais e agências noticiosas resulta além da falta de meios para jornalismo de investigação, da falta de vontade e talento para o fazer. É mais fácil reproduzir as redes sociais, ao mesmo tempo que se diaboliza as ditas para manter mera aparência de seriedade.
Quanto à falta de juízo crítico, o papaguear do discurso oficial ou especializado, a evangelização identitária, a propaganda totalmente de acordo. Houve momentos durante a pandemia que me divertia a conferir se os tempos verbais e as sequências das frases eram as mesmas das ‘autoridades’. E eram.
A falta de escrutínio do jornalismo – e o facto de em muitos casos o jornalismo ter agenda própria não assumida – é crítica que só por corporativismo não se aceita. Mas falta questão essencial: a do ‘reservado a aderentes’.
Há vinte e muitos anos, alguém ligado às concessões de portagens das auto-estradas, após a criação da Via Verde, face ao número de automobilistas que reclamava não perceber por que via devia passar, dizia-me: é impressionante como reclamam e não percebem o ‘reservado a aderentes’. Ora, eu pensava nas pessoas que conheci ao longo da vida e em mim própria, e achava perfeitamente normal, não que reclamassem, mas que tivessem dúvida na faixa a usar, quanto mais não fosse por falta de hábito. Ele que lá trabalhava, apesar de ter a mesma educação e percurso de vida semelhante, achava um absurdo. O que nos separava era a pertença àquela tribo, àquela corporação profissional, àquela visão afunilada.
Esta visão estreita comum a todos (trabalhando há muitos anos na área financeira, a mim custa-me perceber a irresponsabilidade e desorganização mental em termos financeiros de parte dos portugueses e dos governantes), incapaz de ver o todo faz com que cada tribo viva a sua verdade, inacessível ao conjunto.
Isto somado ao compadrio e às trocas de favores – que não assombram apenas políticos, mas também jornalistas, comentadores, agentes culturais e muitas classes profissionais em Portugal – leva a eternização dos erros, das deficiências de sistema, das corrupções.
A questão da independência é fundamental. Se cada um se barricar no seu mundinho com os do seu mundinho de interesses é difícil ver o bem público, a verdade ou seja o que for de benigno.
A nomenclatura da gripe de 1918 tem tudo a ver com o conteúdo do post.