Joaquim Letria: «Dar a camisa é mais importante do que suar a camisola»


Pedro Correia,

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«Não acredito no paraíso. Se existisse, já alguém o teria estragado por completo»

 

Já foi um dos mais populares jornalistas portugueses, tendo conduzido durante anos programas informativos na RTP após ter trabalhado na BBC e na Associated Press. Fundou os semanários O Jornal e Tal & Qual, além da revista Sábado. Ao telefone escutei a sua voz pausada e bem timbrada, inconfundível. Com sentido de humor britânico. O sonho dele? «Viver o mais possível e divertir-me tanto daqui para a frente como me tenho divertido até hoje.»

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Certas finais europeias que o Benfica perdeu. Fui a todas e algumas decepcionaram-me.

Gostaria de viver num hotel?

Já vivi. Para quem está só, é óptimo: a cama feita, o quarto arrumado…

A sua bebida preferida?

Vodka.

Com laranja?

Pura. Geladinha e mais nada.

Que número calça?

Depende. Em regra, 41. Mas algum 40 também me serve.

Que livro anda a ler?

Ser Benfiquista, de Luís Miguel Pereira. Ao mesmo tempo, leio Sábado, de Ian McEwan.

A sua personagem de ficção favorita?

Philip Marlowe, o detective criado por Raymond Chandler. O Humphrey Bogart fazia aquele papel na perfeição.

Gostaria de ter sido detective?

A fronteira entre o bem e o mal é muito ténue. Era capaz de ser detective às terças, quintas e sábados, e de ser investigado às segundas, quartas e sextas. Talvez até fosse mais interessante assim.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

De ser conduzido: não guio. Isto no que diz respeito aos automóveis. No resto, prefiro conduzir. Mas há momentos de preguiça em que é óptimo ser conduzido.

É bom transgredir os limites?

É bom andar nos limites e transgredi-los de vez em quando. Sem avariar a máquina…

Qual é o seu prato favorito?

Bacalhau cozido, cozido à portuguesa… Aprecio comida tradicional portuguesa. Pouca fusão, pouca nouvelle cuisine.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez o cobiçar a mulher do próximo, o que começa a ser perfeitamente inocente.

A sua cor preferida?

Gosto do preto. E do vermelho.

Costuma cantar no duche?

Não. Tenho demasiado respeito por quem canta e gosto demasiado de música para não me ouvir a mim próprio..

E a música da sua vida?

O Bach todo.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

De maneira nenhuma. Por respeito. E porque não é preciso. Mas tenho curiosidade em saber qual era o hino antes da república. Não faço a mínima ideia.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

O Presidente Bush. Para perceber se ele consegue falar e comer ao mesmo tempo.

As aparências iludem?

Por vezes.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

A camisa: é algo que podemos dar a alguém. Dar a camisa é mais importante do que suar a camisola.

Qual é o seu maior sonho?

Viver o mais possível. E divertir-me tanto daqui para a frente como me tenho divertido até hoje.

E o maior pesadelo?

Ficar na dependência de alguém. É a única coisa de que tenho medo.

O que o irrita profundamente?

O mau gosto.

O que faria se fosse milionário?

Podia dar-me ao luxo de viver o mais simplesmente possível. Os milionários que conheço é assim que fazem.

Casamentos gay: de acordo?

Sim, por motivos de ordem administrativa para resolver questões práticas. Em termos morais, não faz sentido. Nem é necessário.

Uma mulher bonita na política?

Talvez Angela Merkel. Há um lado secreto naquele olhar que engana muito. Não deve ter sido por acaso que o chanceler Helmut Kohl a protegeu tanto.

Acredita no paraíso?

Não. Se existisse, já alguém o teria estragado por completo.

Tem um lema?

E pluribus unum.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (8 de Dezembro de 2007)

3 comentários em “Joaquim Letria: «Dar a camisa é mais importante do que suar a camisola»”

  1. Como é que Joaquim Letria pode acreditar no paraíso? Simplesmente não pode!

    Ser do Benfica é mau! E piora tudo com Angela Merkel que em nova na antiga RDA fazia nudismo exibindo as vergonhas.

  2. Saudades do Joaquim Letria “no activo”.
    Um senhor!, diz muito bem Maria Dulce.
    Espero que ele se tenha divertido (e ainda se divirta) como era seu desejo. Um sorriso, uma voz e uma “pena” inesquecíveis.

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