
Se há coisa que me repugna, entre os péssimos hábitos que começam a instalar-se na indústria mediática portuguesa, é a glamorização dos assassinos.
Não há crime mais repugnante e hediondo sem que os protagonistas mereçam todos os holofotes jornalísticos, com ampla revelação dos seus nomes e rostos. Agora tornou-se moda picar fotografias nas redes sociais – e eis, portanto, as imagens de duas mulheres que assassinaram um homem, desmembraram o corpo e andaram a espalhar pedaços do cadáver por todo o Algarve difundidas com poses suaves e requintadas. Imitando actrizes de cinema, imortalizadas em jornais e televisões.
Mulheres, repito. Mas nas notícias recebem tratamento adocicado: chamam-lhes “jovens” enquanto repetem uma vez e outra os nomes, como se fosse gente íntima cá da casa. Algumas notícias emprestam até uma aura romântica à coisa, sublinhando que as criminosas andavam muito apaixonadas. Possuídas pelo fogo que arde sem se ver.
Um youtuber que “espanca namorada até à morte em directo por dinheiro” vê a sua foto estampada nos jornais, com nome associado. Foto de rede social, não da polícia: tem ares de artista em voga, não faltará quem o ache simpático. É “jovem” também, sublinham as notícias. Matar a namorada em directo talvez seja um inócuo pecadilho de juventude. E ela – sabe-se lá – pôs a jeito…
Um dia destes o assassino vai ao “confesso-me”, num programa de telelixo qualquer, e obtém absolvição do respeitável público ali reunido. Também em directo.
E siga o baile: este espectáculo alimenta-se de sessões contínuas.

Desde que me lembro, sempre houve mais fascínio (será a palavra certa?) por assassinos em série ou mediáticos do que pelas suas vítimas. Qualquer um saberá de cor recitar 10 daqueles top gringos, mas duvido que alguém conheça o nome de uma das duas vítimas, ou sequer identificar os agentes da autoridade que os caçaram.
O pormenor das meninas do Algarve (só as fotos que aparecem nos jornais identificam a diferença de tratamento, se fosse um “Cavaco” era uma imagem facínora, as raparigas são mostradas com sorriso jovial) vem de longe, e acaba por ser a outra moeda da sociedade patriarcal. Mulher quando comete crime nunca é por ódio ou selvajaria, isso é reservado a homens. Já nos casos de abuso (se bem que é verdade que essa percepção também vem mudando), quando é homem, é um porco que merece ser castrado, se é mulher, normalmente é porque não conseguiu resistir a belos sentimentos de amor proibido.
Há diversos precedentes históricos, sim. Basta lembrar a célebre parelha Bonnie & Clyde, que até deu filme multipremiado. Mas a tendência vem-se reforçando, e é tudo menos inocente.
As imagens cândidas de assassinas e assassinos retiradas das respectivas redes sociais, substituindo as tradicionais fotos captadas na polícia, atraem mais atenções – e sobretudo muitos cliques nas edições digitais e mais audiência nos telediários.
É a próxima fronteira a ser derrubada: a fronteira do homicídio socialmente reprovável. Quando o homicida é “jovem”, bem-parecido e sai bem na fotografia, é quanto basta para haver circunstâncias atenuantes.
Mais um pouco e descobre-se afinal que a culpa foi das vítimas. Se forem feias e saírem mal no retrato.
Porque é que uma das moças apanhou 25 anos e a outra 4 anos (?)de pena suspensa, uma tem que pagar 270 mil euros(?) e a outra a mais bonitinha 350 euros.(?)
“Porque é que uma das moças apanhou 25 anos e a outra 4 anos (?)” A resposta parece-me simples: para uma provou-se que fez certas coisas e para a outra não. Não havendo provas, não se pode condenar. Não se pode condenar com base no “toda a gente sabe” ou “está-se mesmo o a ver”.
Isso já é uma questão específica do tribunal. Não discuto essa questão.
Quem não se lembra de Lorenna Bobbit ?
Sim ! Aquela mulher que cortou a piroca do seu marido enquanto este inocentemente dormia.
( década de 90 USA )
Zé
Feminista militante anti-extremista. Cortava o extremo pela raiz.
Também o Império Romano enveredou pela loucura, que precedeu a queda.
Rejubilemos irmãos pelo privilégio de viver o ocaso desta sociedade ocidental; aqui fomos trazidos aos ombros de gigantes nossos pais nossos avós, para que possamos concluir num orgasmo de destruição.
Melhores homens e mulheres não virão. Ave Europa, Morituri te Salutant.
Os assassinos sempre estiveram envoltos numa aura de romance, culto, sexualidade e misticismo, senão vejamos a “Família Manson”, Jack o Estripador , o Assassino do Zodíaco , etc.
Escreveram-se livros, realizaram-se filmes , todos baseados em factos reais.
Presentemente a realidade é muito feia e triste. Quando os serviços noticiosos não ” abrem” com uma tragédia qualquer, quanto mais mórbida melhor, não é um dia bom, não conseguem prender a audiência de fio a pavio. É este excesso que fez do crime, do assassínio, da morte violenta, uma coisa banal.
As Thelma e Louise da tugalandia mataram e esquartejaram um tipo. Como era mesmo o nome dele? Pois, era um tipo vulgar e vulgar não é notícia.
O fascínio por quem pratica o crime, por mais hediondo que seja, é inversamente proporcional ao que as vítimas desses crimes suscitam.
Isto decorre de um certo culto do mais forte, de um darwinismo social que cada vez com menos subtileza se vai insinuando no subtexto das mensagens jornalísticas. E se além de ser mais forte tiver “boa imagem”, neste tempo em que só a encadernação conta, tanto melhor.
É certo que o fenómeno já vem de longe. Os Zés do Telhado, os Diogos Alves, os Alves dos Reis sempre exerceram algum fascínio. Mas agora, com as redes sociais, tudo isto se amplifica e multiplica. O homicida mais reles, movido pelo mais desprezível dos motivos, torna-se herói (ou heroína) de um dia. Ou de um mês. Ou de um ano.
Famoso, é quem mata. Anónimo, é quem morre.
Sem dúvida, Pedro. E quanto mais hediondo foro crime, melhor…
Sintetizado na fórmula “quanto pior melhor”.
E como era o nome do bebé que o cão Zico matou?
Lembram-se do argumento que circulou: se o cão matou alguma razão teve.
Foi há oito anos. Escrevi sobre isso aqui: 120709.html 621640.html
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5
A palavra “glamorização” existe? Eu procurei-a no dicionário online Priberam (que até é um dicionário, digamos assim, muito tolerante para com neologismos) e lá diz que não existe.
Não conheço ninguém que seja tão devoto dessa espécie de “dicionário” como você.
O equivalente à loja do chinês em comparação com o restante comércio.
https://www.infopedia.pt/dicionarios/li ngua-portuguesa/glamoriza%C3%A7%C3%A3o
Muito bem, Dulce. E mais isto: ltorio/perguntas/glamorizacao/24293
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consu
Robert Mitchum é apenas um actor!
( ontem deu no canal memória o filme Big Sleep-Philip Marlowe)
Sim, eu sei que é um actor. Ou antes: era, pois já faleceu.
O Big Sleep?!… Vou ali ao lado comprar um livro, até logo.
Chandler, um dos escritores mais sobrevalorizados da história da literatura policial.
“Mulheres, repito”
É preciso ter cuidado com as mulheres: uma enfermeira e uma vigilante/segurança com ar angelical eram afinal o rosto do diabo.
Só mesmo um teso esta seguro nesta vida!
Rui Garrão
Interessa-me pouco aprofundar esse crime em especial. Interessa-me, sim, reflectir nisso como sintoma social, na generalidade, e de uma certa decadência do jornalismo, que anda cada vez mais a reboque do pior das redes sociais.
O culto do sórdido e do mórbido sempre existiu. É recordar como a populaça assistia
às execuções públicas e à tortura dos condenados. Mas de facto esta complacência com os assassinos e o enfeitar do crime impressiona. Posso estar a ser redutora, mas creio que esse embelezamento dos assassinos, para lá da natural tendência de muitos para histórias de faca e alguidar, tem a ver com o culto da violência e do grotesco muito em voga no cinema, nos apreciadores dos Tarantinos e tantos outros. É a elevação do sórdido e do mórbido ao entretenimento social e intelectualmente aceite.
Bem sei que isto contunde com os mais ‘nobres’ valores da liberdade de criação, e que ficção e realidade não se confundem, mas o facto é que a ideia de sofisticação do crime, de intelectualizar a violência contrapõe-se à ideia de moralização de um mundo a preto e branco, entre o bem e o mal, considerado hoje – tempo de relativização de todos os valores – coisa de gente estúpida.
No fundo, a populaça ainda está junto ao cadafalso desejosa de sangue e gritos de dor, a ler as notícias macabras do Correio da Manhã e a escrever e ler policiais manhosos.
Agatha Christie e Arthur Conan Doyle são policiais manhosos ?
Não, não são.
Nada a ver. Pelo contrário. São, já hoje, literatura clássica.
Sim. Tem razão.
Sou apreciador do Tarantino e tantos outros, mas ainda sei distinguir o que é aceitável em ficção e na realidade.
Estou de acordo com a Isabel Paulos quando ela fala de uma espécie de cultor da violência e de jovens seguidores inebriados como por exemplo o Anomimus que caem nesta armadilha disfuncional de expelir xutos e pontapés a toda hora e a todo o instante.
Também sei expelir Heróis do Mar
No fundo, há sempre um mauzão qualquer a corromper a nossa juventude, fosse o Elvis, o Marylin Manson, ou o Tarantino. Ou o Hitchcock, esse cultor do macabro
Tarantinos: ademanes e faquinismos*. *Neologismo cinéfilo
Isso tudo.
Sou coleccionador de neologismos. Agradeço-lhe o contributo para a minha caderneta.
Violência é notícia, ausência de violência não é.
Tenho uma irmã que reside há muito no Líbano e aí viveu os 14 anos de guerra civil. Uma vez houve um confronto especialmente violento numa rua de Beirute que calhou ser bem apanhado por uma equipa de jornalistas da televisão francesa e passou nas televisões do mundo, incluindo Portugal. Quando a minha irmã veio a Portugal de férias, falámos nisso, não percebendo como continuava em Beirute e ela disse-nos que existiam sempre riscos mas que nós só tínhamos conhecimento de combates e que, naquele mesmo dia e hora, ela e muitas outras mulheres, estavam calmamente a fazer compras a dois quarteirões de distância.
A novidade será apenas o “branqueamento” dos assassinos de que me apercebi com alguma surpresa pelo postal, possivelmente porque “desligo” de todas essas notícias. Mas eu sou atípico, bastando dizer que evito adquirir qualquer produto anunciado na televisão.
Nos comentários já foram referidas diversas explicações e apenas acrescento que mesmo o culto do mórbido ou a inevitável empatia com Thelma e Louise, não seria passíveis de generalização se os jornalistas “lato sensu” tivessem mantido uma decência básica.
“decência básica.”
Está armado em lírico ?
Um assassino é um assassino não há aqui decência e o jornalista é apenas um mero divulgador de circunstância que peca por excesso.
Jornalistas, tal como magistrados, sofrem um primeiro viés na formação e hoje as minorias pós-marxista e LBGT estão sobrerepresentadas na CS. É assim de sua natureza desvalorizar os assassinatos que não sejam ou não possam ser atribuídos a crimes de ódio; e, consequentemente, não lhes repugna a relativa desculpabilização desses assassínios, para obtenção de audiências. De resto:
– Um jornalista, sobretudo de televisão, nunca é um MERO divulgador; a sua acção exerce-se também sobre jovens ainda não formados e sobre uma maioria inculta que são naturalmente influenciáveis e assim são SEMPRE agentes de formação da sociedade.
– Também não é uma “circunstância que peca por excesso” mas uma manifestação estrutural de falta de isenção (informação isenta tem de ser equilibrada).
– E claro que falta decência. Decência pode ser definida como conformidade à moral e à ética e, sendo universal a condenação do assassínio, desculpar assassinos não é decente.
Finalmente, sendo “armado em lírico” depreciativo a roçar o ofensivo, insinuá-lo sob anonimato, também não é decente.
Para: Francisco Almeida
Nada de sensibilidades do tipo aí não me toques! Não estou aqui para insultar ninguém apenas rabisquei uma observação que achei pertinente. Concordo consigo em parte quando diz que o jornalista é manhoso e está condicionado por medos que desvalorizam a própria decência da moral ética, resultando na real incapacidade deste de ser isento na informação.
O problema é o excesso, a demagogia das audiências. No fundo é o entendimento da coisa em si fora de si. Alimentar a fome da besta em prol de algo que ultrapassa a miragem desfocada do ser humano. O exagero não pode ser uma forma grosseira de criar uma ilusão óptica de leitura desvirtuada de uma realidade que se transcende para além da ética.
Penso ter sido claro: Não gosto de branqueamentos, nem de teatros despidos de fracas representações. Quem informa deve ter em mente que tudo tem que ter peso conta e medida, para não cair numa banalização errática doentia e pervertida da realidade.
A questão é o que é a realidade ?
Acredito na decência!
Nuno Dias
Gosto muito de ler e até de ver um bom policial, mas isso não me dá sintomas de curiosidade mórbida por assassinos e malvados/as da mesma marca. Essas duas “jovens” devem ter uma mente muito perversa e deformada, suponho que seriam caso de estudo psiquiátrico. Todos somos pessoas é certo, mas tem de haver por lá, passeando-lhes os interiores, um desvio enorme. O que interessa a aparência física nestes casos é um redondo nada. E ajuizar por aí um homicídio tão escabroso parece-me até ofensivo e contrário à humanidade que temos. Não vi as duas moças em questão, mas ouvi a notícia do que fizeram. É selvajaria.
A questão aqui é a glorificação de gente criminosa, capaz de cometer os homicídios mais abjectos, sem uma leitura crítica mínima desses procedimentos.
Totalmente inaceitável.
P. S. – Quanto a policiais, nada a objectar. Sou fã. Ainda hoje comprei um: “O Mistério do Quarto Amarelo”, de Gaston Leroux. Um clássico entre os clássicos.
Essa glamorização somos nós que a alimentamos, e desde crianças.
Na história do capuchinho vermelho toda a gente se indignou por causa do lobo comer a avó, mas ninguém se preocupou em fazer um enterro digno à velha.
Os tempos mudaram, é preciso chamar a atenção, desviar as atenções para poder controlar e manipular.
É só rever as comissões de inquérito do Berardo e de outros indiciados em casos de corrupção, para confirmar que estamos a viver num reality show, em que o criminoso sai sempre ileso e o crime compensa sempre. Seja um crime de sangue ou não.
A sociedade está podre, nós apenas alteramos o cheiro porque para alterar o conteúdo tínhamos de esvaziar a fossa.
Interessante, esse paralelo com a história do capuchinho vermelho. Mas apesar de tudo há uma enorme diferença entre ficção e realidade.
A malta tem fome de notícias e de audiências! Conheço um caso em que a comunicação social está a par dum crime que se vai efectivando dia a dia, mas têm combinado que só noticiarão no fim de consumado, para maiores audiências e mais tiragem de jornais. A seguir à “pandomia”, como diz o sr. Jorge Jesus, vai ser o assunto do resto do ano…
Não vale a pena me pedirem dicas, pois eu também só pago a quem der mais e no final!
É verdade, Jesus diz “pandomia”. Nada de espantar, para alguém que se imortalizou com a expressão “bode respiratório”.
Já estão a entrar em questões do forno interno
Agora vocês os 3 formem um triângulo
A culpa é dos adeptos, que “empulgam” os jogadores.
Andamos andamos e a culpa é do Tarantino. Da falta de noção.
Tarantino = tarado
O Tarantino deixa-te atarantado.
E os resultados… ilia hy-women-love-men-behind-bars-2557286706 ff y-women-fall-in-love-prison-inmates
https://en.wikipedia.org/wiki/Hybristoph
https://medium.com/@chrisandersonwriting/w
https://archive.attn.com/stories/6268/wh
Ao anónimo das 15.45: comentário de teor impublicável, obviamente.
Obviamente que os 3 deviam era formar um quadrado
(errata do comentário feito na página anterior)
Ah, sim. Esse é um clássico “jesuítico”.
Afinal de contas, e depois de ler quase todos os comentarios, comecamos no “abjecto” da apresentacao cor de rosa das criminosas maquiavelicas e acabamos a “morrer de rir da situacao em JJ style”…
A verdadinha “e que cada povo tem o jornalismo que merece” & “cada um de nos vai ler / ouvir ao sitio que quer”, independemente da localizacao geografica no planeta.
Portanto, deixem de culpar a sociedade e se calhar, assim meio num acto de “mea culpa”, era bom que se lembrassem que os media, nos dias que correm, funcionam como a “ola ou a superbock”, vendem sobretudo o que o cliente quer & no formato que gosta.
Se cahar por isso e que a Agatha Christie escreveu excelentes livros e nao foi para o “correio da manha” ou cantou “perfume de mulher”…
O perfume apenas esconde o cheiro da alma!
Aniceto
pois sao as modas…embora a populaçao goste de sangue desde sempre.
Uma vez, acho que num canal brasileiro, o dono do programa pagava crimes, para alimentar o programa .
mas tambem , que alternativas há ?
De um lado criminosos reais, que, diz o Pedro,a imprensa faz fantasticos.
Por outro, temos dois ministros, um cabrita e outro da agricultura, absolverem os crimes de Odemira, argumentando um bem superior, como seja o da natalidade e o de fixar populaçao.
comentario extraordinario, fora do tema
estou neste momento a ouvir o programa que me levou , noutra vez, á casa do Eça.
Isto porque mais recentemente ouvi sobre o Eça, que este, fazendo humor ?, sugeriu Portugal vender a costa oriental de africa
Piada do Eça, que gostava muito de ironias desse género.