No fim não existe fim


Pedro Correia,

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Quadro de William Congdon (1912-1998)

 

«Deus é existirmos e isso não ser tudo.»

Fernando Pessoa

 

Jesus teve apóstolos, todos homens. Mas, destes, nem todos o seguiram da mesma forma. Um traiu-o, outro negou-o, um terceiro duvidou que tivesse regressado das trevas da morte. Já as mulheres que sempre acompanharam o nazareno – tornando-se assim também suas discípulas – não vacilaram na fé. Talvez por isso, são elas as primeiras a observar o sepulcro vazio. Os evangelistas dão-lhes nomes: Maria Magdalena – assim chamada por ser de Magdala -, Maria, mãe de Tiago, Joana e Salomé. É Magdalena – e nenhum dos homens – a primeira pessoa a vê-lo ressuscitado. Ao contrário do que viria a fazer Tomé, ela nem por um instante duvida. À semelhança do que sucedera com Marta, ao recebê-lo em Betânia após velar o corpo do falecido irmão Lázaro: «Creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo», relata João. 

Será Maria de Magdala a anunciar a Boa Nova naquela manhã, diferente de qualquer outra. O Mestre – como Magdalena e Marta lhe chamavam – cumprira a promessa feita pouco antes de voluntariamente se submeter às injúrias, às flagelações e à morte a que os poderes terrenos o haveriam de condenar: «Não vos deixarei órfãos.» Abrindo assim uma luz de esperança que não tornaria a apagar-se na história humana.

Nada voltou a ser igual. E disso dá testemunho São Paulo na sua Carta aos Gálatas: «Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo.» (4, 28) Assim se fundava o mais imperecível de todos os direitos: o direito universal à dignidade, baseado na suprema instância moral. Nenhum de nós é órfão.

Tudo começou, de algum modo, naquele túmulo vazio. Como escreveu Robert Lowell, «no fim não existe fim.»

30 comentários em “No fim não existe fim”

  1. Há por aí um mito relativamente a Madalena e Tomé. Madalena acreditou porque viu, tal como Tomé acreditou quando viu-O. Nada prova que se lhe tivessem contado ela acreditasse.
    O acontecimento extraordinário ocorre durante os 40 dias de aparição de Jesus após a morte. E mais ainda durante o Pentecostes. É a partir deste acontecimento que todos, antes aterrorizados e fechados em uma casa com medo da perseguição, se lançam na maior e mais bela aventura de anunciar a Boa Nova.
    Sinaliza isto que se não fosse importante a aparição para a coragem do impulso do anúncio da Universalidade, a presença de Jesus não teria feito sentido.

    Concluindo, o feminismo cristológico que se pretende é um fait-diver que não comove corações e não promove qualquer sentido de dignidade.

    O único que seguiu Jesus foi o discípulo amigo, quando as mulheres não estiveram pressentes:
    “Então, a companhia de soldados,
    o oficial e os guardas dos judeus
    apoderaram-se de Jesus e manietaram-n’O.
    Levaram-n’O primeiro a Anás,
    por ser sogro de Caifás,
    que era o sumo sacerdote nesse ano.
    Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus:
    «Convém que morra um só homem pelo povo».
    Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus
    com outro discípulo.
    Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote
    e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote,
    enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora.”
    Ver Jo 18, 1 __ 19, 42

    1. Mas Tomé também o viu. No entanto mesmo assim só acreditou quando lhe tocou nas chagas. Não é assim que é contado? 🙂

    2. Na cerimónia do lava-pés Jesus deixa claro a Pedro que se não o fizesse a ele, Pedro, não tomaria parte n´Ele. Significa isto que Pedro não negou Jesus, simplesmente sucumbiu em um momento concreto. Lavar os pés é exactamente refrescar o Homem em suas fraquezas, é o perdão que fortalece. Antes disso, no jardim, aquando da prisão de Jesus, foi Pedro que desembainhou a espada e cortou a orelha direita a Malco. Juntamente com João acompanhou Jesus até à casa do sumo-sacerdote Anás.
      Maria de Magdala foi encarregue de transmitir aos apóstolos que Jesus os precederia na Galileia. Não é portanto algo de relevante no apostolado da Boa-Nova, mas também não retira mérito à discípula.
      Assim, a presença ou ausência das mulheres não nos indica qualquer fenómeno discriminatório, feminista ou de qualquer outra espécie relativamente a uns e a outros. Foi José de Arimateia que falou com Pilatos para descer Jesus da Cruz, foi Nicodemos que levou as libras do unguento e, juntamente com o anterior, colocou as ligaduras (sudário) no corpo de Jesus. Nenhum dos discípulos oficialmente designados como apóstolos intervém nesta parte do processo.
      Portanto, não se infere em nenhum dos textos canónicos e nos apócrifos qualquer relação ou conotação com o fait-diver feminista que hoje se propaga para tentar legitimar um não-sei-quê ou até mesmo levar a fazer um não-sei-quê. As mulheres sempre tiveram lugar no apostolado e mantêm essa prerrogativa, seja na igreja familiar seja na ecclesia abrangente.
      Qualquer leigo é um apóstolo e até mesmo um transmissor dos sacramentos.

      V., você diz ele viu-se ou se viu?

      1. Para usar a inversão como maneira de verificar o tempo verbal…. eu diria…

        se alguém O vê…. quando Tomé O viu…

        “Ele viu-O” parece-me funcionar melhor sem os advérbios

        Quanto ao “ele viu-se” ou “se viu” há-que distinguir aquilo que é o tom ritualístico (porque é daí que vem) e o que seria se a expressão não fosse usada nesse contexto… e aí diria “foi visto”

          1. oh, mas aí é voz reflexiva… Aí pode ser “eu vi-O” com certeza.

            Mas na frase que utilizou era voz passiva, não? E ainda tinha o advérbio de tempo..

          2. Sim. Mas também quando ele viu-O. É correcto, pois o advérbio não muda o sentido.

  2. Gostei de ler este texto e o da ligação que fazes para o texto de Guerra.
    Um preciosismo o nome dos apóstolos é Iago, vem do latim Iacobus.
    Quanto passaram a Santos dá-se a confusão.
    Santo Iago passou a Sant’ Iago e depois a São Tiago, seria como se Santo António tivesse passado a Sant’ António e depois a São Tantónio.

  3. Felizes os que acreditam porque é deles o reino dos céus. Estou convicta que, embora de ordem diversa, a crença suplanta a razão e talvez seja fonte de bom viver.
    Boa Páscoa.

  4. No fim não existe fim e ainda bem porque há pessoas que não olham a meios para atingir os fins. Assim se não houver fins pelo menos temos a certeza que há princípios.

  5. Feliz Páscoa para quem é de Deus! E dias felizes também para quem não é!
    Se Jesus a todos perdoou, pelo que disseram e fizeram, ainda é importante debater-se quem é que fez e/ou disse o Q??

    1. Segundo o meu pai, na aldeia dele, a Páscoa foi sempre mais importante do que o Natal (o que parece óbvio porque não havia prendas, ahah — e na Páscoa havia o folar e umas ofertas dos padrinhos.). E que os jejuns e outros preceitos eram levados mais a sério do que são hoje. Confesso que sou mais sensível ao Natal mas o renascer das coisas na altura da Páscoa parece-me mais importante. É também a altura da última neve na serra, o sinal mais óbvio de que o fim e o princípio podem ser coincidentes.

  6. Sempre me pareceu que o potencial moral (e prático) do Cristianismo se realizou de forma mais consistente nas igrejas Protestantes — e explico porquê: porque os textos da Bíblia e a prática dos sermões actualizam permanentemente os assuntos, ao passo que na variante Católica o texto está embrulhado no léxico e na maneira de dizer dos padres — que não tem nada de ritualístico mas está mais próximo de um jargão corporativo (baseado numa tradução já do séc. XX que tem um tom monástico mas pouca sacralidade. É um problema de tom).

    Espero que ninguém se ofenda com o meu comentário, mas é a sensação que tenho ao comparar as duas coisas.

    Isto para dizer que os textos que o Pedro Correia normalmente oferece nestas alturas costumam ser muito agradáveis e contêm a ligação directa para reflexões profundas e onde a beleza do Cristianismo é evidenciada. O que reforça a importância de partilhar a interpretação.

    1. Você tem toda a razão. A Igreja Católica, em particular em Portugal, possui essas características, mas não é exclusivo dela. O sacerdote ou pastor é mais um guarda do templo e do rito que propriamente um anunciador. E usa agora um discurso dito académico que mais parece um agremiador político que propriamente um dos meios para consolidar a missão de Cristo, que se fundamenta: no anúncio, na denúncia e no acolhimento.

    1. Céus — que banalidade. Andou na escola pública??

      É que existem formas melhores de enunciar a sua descrença. Recordo-me por exemplo de Umberto Eco o qual quando lhe perguntaram se acreditava em Deus ele respondeu: “Eu acredito numa coisa muito maior”. Não quer dizer nada, mas quer:

      Para Eco, uma criatura da Semiótica, o Ser era o limite epistemológico absoluto — não poderia ser Deus porque mesmo Deus estaria contido no Ser. E a partir daí não vale a pena dizer nada porque não se pode dizer nada sobre o não-Ser. O equívoco dos socialismos e de todas as parvoíces terrestres é pensar que o Homem é o topo da sua própria escala mas a linguagem já arquitectou coisas maiores (e melhores) e é por isso que o verbo está no princípio como expressão da máxima amplitude da consciência do ser (o verbo ser). Isto remete para novos tipos de ontologia onde, por exemplo, as coisas externas estão em paralelo com o sujeito, porque também são de certa forma. O verbo aqui modifica-se ligeiramente para admitir que estão enquanto não podemos admitir absolutamente que são (que possuem consciência) embora sejam qualquer coisa para nós.

  7. Caro Pedro:
    Não há “belas” hoje por ser Sexta-feira Santa ?
    Tínha-mos direito pelo menos a uma sereia (Não é carne, é peixe)!

    Um abraço e Boa Páscoa

    Leão do Fundão

    1. Leão do fundão ponha-se na fila das lamentações …
      Hoje é a prova que o Pedro Correia é muçulmano e está a praticar o jejum, resta-nos esperar que o ramadão não seja longo.

      Uma Boa Páscoa para todos!

  8. Belo “post” e comentários qual deles o mais interessante, a seu modo. Ma vejamos: Madalena não acreditou que era Jesus quando o “viu”, de tal modo que pensava ser o jardineiro do lugar onde Jesus estivera sepultado; acreditou quando Jesus a chamou pelo nome, “Maria”, e ela respondeu “Rabbuni” = Mestre, o tratamento pessoal. Quanto a Tomé, ele não acreditou nos companheiros, mas também não “tocou” nas chagas… Quando Jesus o desafia para tal ele diz: “Meu Senhor e meu Deus”, uma profissão de fé que nenhum antes tinha feito. Chamar a Jesus de Nazaré pelo nome de Deus “Kyrios” – Adonai. O único que acreditou “sem ver” foi João, aquando da visita ao sepulcro com Pedro: “Viu” as faixas e o sudário… e acreditou. Pedro comprovou e acreditou no que Madalena tinha dito… mas João acreditou no que Ele tinha anunciado e eles não tinham compreendido então.
    Ou seja, a ressurreição não se “vê” com os olhos… Mais do que “ver para crer” trata-se de um “crer para ver”. É Jesus que se “faz ver” de um modo diferente. Por isso, tudo isto é um pouco complicado. Boa Páscoa a todos.

  9. Boa noite Pedro Correia.
    Uma reflexão sobre a Páscoa que vai emoldurar muito bem ao lado da que escreveu na Páscoa de 2016. Simplesmente notáveis ambas.
    Feliz Páscoa.

    Amadeu Oliveira

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