Jorge Palma: «Gosto de cantar ópera»


Pedro Correia,

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«Gostava muito de beber um copo com o Keith Richards»

 

Foi uma entrevista algo acidentada. Começou por ser difícil entrar em contacto com ele. Enfim, o intérprete de Bairro do Amor disponibilizou-se para responder ao meu inquérito telefónico. Mas a meio da conversa deixou cair o telemóvel e receou tê-lo quebrado. Felizmente foi falso alarme e pudemos prosseguir. Com ele a responder exactamente o mesmo que eu diria perante a mesma pergunta: «Se fosse milionário, comprava um iate.»

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de perder a cabeça.

Gostaria de viver num hotel?

Eu passo a vida em hotéis. Gosto de hotéis. Mas casa é casa.

A sua bebida preferida?

Depende das circunstâncias. Tequila sunrise, por exemplo. Um bom whisky. E adoro cerveja…

Tem alguma pedra no sapato?

Estou atrasado na gravação do meu próximo disco. As canções não me estão a sair à velocidade que eu queria.

A propósito: que número calça?

Calço 40, 41.

Que livro anda a ler?

Vou começar agora a ler o último livro do José Luís Peixoto. Que se chama Livro, precisamente.

A sua personagem de ficção favorita?

O Corto Maltese, personagem fascinante. Pela sua faceta aventureira, misteriosa…

Rir é o melhor remédio?

Pode crer. «Deixa-me rir…»

Lembra-se da última vez em que chorou?

Deve ter sido a ver um filme, já não me lembro qual.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito de conduzir. Muito mesmo.

Não confia quando é outro a guiar?

Prefiro ser eu a conduzir mesmo quando confio na pessoa que vai ao volante. Gosto de estar eu ao comando da máquina.

É bom transgredir os limites?

É muito bom transgredir os limites da falsa moralidade, dos pudores aparentes. Mas nunca no sentido da auto-destruição.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto de cozido à portuguesa, de feijoada. Também gosto de um bom bife. Ou de marisco. E, às vezes, também de comida mais sofisticada.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A preguiça.

Costuma cantar no duche?

Costumo. Para abrir a voz. Gosto de cantar ópera. Ou clássicos da canção, seja de que género for – do Frank Sinatra aos U2.

E a música da sua vida?

Casablanca, As Times Goes By.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não dou muita importância a isso, mas é verdade que existem hinos mais bonitos do que o nosso. A Internacional, por exemplo. O hino inglês também é muito bonito. Mas o melhor é deixarmos o hino português tal como está. Tem muito a ver com o espírito da I República.

Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?

Parece-me bem. No fundo, já estou tão habituado a esta… Mas gosto mais da bandeira inglesa. É mais colorida.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostava muito de beber um copo com o Keith Richards. Também gostaria de jantar com Eduardo Lourenço [falecido em 1 de Dezembro de 2020, com 97 anos], com quem aliás já falei ocasionalmente. Alguns daqueles com quem gostaria de trocar ideias já cá não estão. Um deles era o Bertrand Russell.

As aparências iludem?

A mim não: tenho um olho clínico. Normalmente não me deixo iludir muito pelas aparências. Instintivamente, costumo ter logo a noção de quem é a pessoa por detrás de qualquer disfarce.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca deve perder a paciência, nunca deve perder o controlo, por muito irritado que esteja.

O que é que uma verdadeira senhora nunca faz?

Uma verdadeira senhora não calça sapatos feios. Ou está descalça ou usa sapatos bonitos.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Fato de banho.

Qual é o seu maior sonho?

Viver até aos cem anos, com uma boa cabeça e tudo a funcionar bem.

E o maior pesadelo?

É perder a cabeça.

O que o irrita profundamente?

A hipocrisia.

Qual a melhor forma de relaxar?

Velejar num iate.

O que faria se fosse milionário?

Comprava um iate.

Casamentos gay: de acordo?

Estou. Porque não? Quando as pessoas gostam uma da outra.

Uma mulher bonita?

A Soraia Chaves.

Acredita no paraíso?

Sou agnóstico. Acredito que somos nós que devemos tentar estabelecer pequenos paraísos à nossa volta, onde quer que estejamos. Claro que uma paisagem bonita ajuda muito.

Tem um lema?

«Nunca desistir.»

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (30 de Outubro de 2010)

13 comentários em “Jorge Palma: «Gosto de cantar ópera»”

      1. A “palavra” é-nos fatal, enquanto modo de expressão e de comunicação.
        Na «arte de moldar o ruído» (música) Jorge Palma é melhor.

  1. O Jorge Palma é um ícone! E gostar do Corto Maltese e de As Time Goes By, só reforça o meu parecer. Mas como isto de pareceres tem que se lhe diga, achar a Internacional mais bonita que o nosso hino, não me parece.
    Gostava de estar presente no seu jantar com o Keith Richards!
    Grande entrevista esta, Pedro! Next!

  2. Uma entrevista antiga, Livro, de José Luís Peixoto, é de 2010 e, então, era o último dele. Já vi Jorge Palma brilhar como um sol em espectáculos e também já tive imensa pena e até certo pudor e vergonha por vê-lo em palco. Mas é um cantautor de grande qualidade, na minha opinião.

  3. Para mim é o mais talentoso cantor português. Nem sempre soube conduzir a sua carreira da melhor forma. Mas essa postura faz parte do charme.

  4. Já assisti a grandes concertos de Jorge Palma.
    Já tive pena dele, mãos que não encontravam as teclas, voz que não encontrava o tom.
    Excelente entrevista, Pedro, só faltou um pormenor; 30 de Outubro de 2010 da parte da manhã ou da parte da tarde?

    1. Tive azar, vi-o cair do banco do piano, esquecer letras e murmurar mais que cantar. Teve uma fase realmente má.

      1. Sim, teve uma fase má. Sei disso por experiência própria: uma vez fui entrevistá-lo na casa onde ele então vivia, na rua de S. Bento, em Lisboa. Mas a entrevista não chegou a ser feita por motivos que não especificarei aqui. Foi melhor assim, tenho a certeza.
        Creio que tudo isso ficou para trás. E continuo a admirá-lo como um dos mais genuínos cantautores portugueses. Tem um património musical inestimável.

  5. Para mim continua a ser inesquecível a versão que fez para o genérico do “Vento nos Salgueiros” e a colaboração no refrão da música do “Zé Gato”. Os anos 70… nunca mais haverá nada como os anos 70

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