
A Cila era castiça. Boa pessoa, simples, trabalhadora, alegre e divertida, cantarolava de espanador na mão e tinha sempre adágios na ponta da língua fosse qual fosse a circunstância, alguns deles adaptados por si às ocasiões, como aquele com que nos presenteou numa tarde de descasca, com toda a família sentada à volta da grande alcofa de palha cheia de vagens riscadas de feijão :“Feijãozinho de bagar! De bagar se vai ao longe!!” E nós riamos divertidos e a Cila continuava a falar, a falar, enquanto as suas mãos dobravam e rasgavam as vagens com a rapidez e eficiência que muitos anos de labuta lhe conferiam. Era uma força da natureza e talvez por isso praticasse religiosamente aquela máxima de Lavoisier em que nada se cria , nada se perde e tudo se transforma. Castanhas ressequidas? Põem-se de molho e faz-se puré! De um resto de sopa fez arroz de feijão, porque , dizia, para o sabor basta o cheiro. Era o génio das sobras, muito antes da prática se tornar moda, com algumas transformações no mínimo rocambolescas, tal a sua genialidade.
As nossas sopas de feijão catarino, segundo receita da minha bisavó Júlia , levavam feijão, tomate, cebola, alho, uma folha de louro, sal e azeite. Em dia de sopa era toda a gente lá em casa a ajudar a encher a grande panela. Depois de ter os legumes bem cozinhados, eram passados por um enorme passe-vite de folha herdado da bisavó Júlia – o carrossel – que esteve em serviço até se partir, tendo sido substituído por um outro em inox que não se comparava ao original, quer em tamanho, quer em eficiência. Depois com o advento da varinha mágica, o passe-vite passou a funcionar apenas como crivo.
Pessoalmente, não ponho tanto feijão. Substituo metade (0,250kg) por meia curgete , cem gramas de abóbora e uma cenoura pequena. Não fica tão forte, mas também não fica tão boa.
A Cila adorava aquela sopa e por isso havia sempre uma panelinha guardada para ela. Tanto quanto sabemos aquela sopa, escura e cremosa, comia-a a Cila de mil maneiras, até como molho de bife.
Não há colher de sopa de feijão catarino que possa saborear sem que as lembranças me tragam a voz tagarela, o sorriso e a alegria que sempre nos transmitiu.
Dizer que a Cila era um ponto é a mais pura verdade, mas é um dos grandes pontos que, ponto a ponto, compõem o traçado da linha da minha vida.

A Dulce parece-me muito agarrada às tradições da sua família. É um problema típico das mulheres portuguesas.
Dulce, liberte-se. Há mais feijão para além do catarino. Há o branco, o preto, o canário, o vermelho… E a melhor sopa de feijão, entendo eu, nem sequer é feita com o feijão propriamente dita, mas somente com a água em que ele foi cozido.
Já agora: uma sopa de feijão é sempre melhor no dia seguinte àquele em que foi feita, e não no próprio dia. Ficar umas horas a descansar no frigorífico favorece sempre a sopa de feijão.
Mais às memórias do que às tradições, anónimo, até porque com o passar do tempo, tudo o que era foi deixando de ser. Estou no limiar daquela idade em que recordar é viver.
Concordo que a sopa de feijão é bem melhor horas depois de confeccionada. Está para mim como a petinga, os jaquinzinhos e os pasteis de bacalhau.
Lá vou meter a foice em seara alheia, mas não sei onde ser agarrada às tradições da sua própria família é um problema. Deveríamos ter vergonha de quem somos? Ser agarradas às tradições da família do lado (norueguesa, por exemplo) ou às modinhas de cada tempo?
Antes de ser capaz de abrir o espírito aos outros, ao diferente e desconhecido é preciso estar bem na própria pele. Ainda bem que existem estes postais da Maria Dulce, nos quais não se renega o passado nem quem somos.
É curioso como se pode ver o mundo de perspectivas tão diferentes. Diria que problema típico dos portugueses (e não só das mulheres) é terem vergonha das suas raízes. E quererem esquecê-las ou escondê-las.
Mesmo que as tradições se esbatam as memórias delas perdurarão, Isabel. Sendo as nossas raízes o que nos define em termos de educação, cultura e até personalidade, esconder para quê? Por acaso eu até tenho muito orgulho das voltas e revoltas no caminho da pessoa que chegou a esta velhota que vos escreve.
Lá está. Sinto o mesmo.
Já agora, obrigada por mais esta sopa de feijão, com croutons e tudo. Peixinhos, como dizia em criança.
Bom fim-de-semana.
Bom fim de semana, Isabel. Obrigada!
Se me permite também vou meter a colher na sopa alheia.
Disse tudo o que eu pensei quando li o comentário do anónimo
das 15:05. 🌻
🙂
Obrigada, Kika.
Vejo que somos muitas portuguesas com o problema típico. Um drama. 😉
não sei onde ser agarrada às tradições da sua própria família é um problema
Pode ser múltiplos problemas.
(1) Essas tradições podem estar erradas, por exemplo, ser preconceituosas.
(2) Dificulta a aprendizagem de novos costumes ou novas formas de fazr as coisas.
(3) Dificulta a adaptação ao convívio com outras pessoas.
Só para quem usa antolhos, caro balio.
Balio,
1. Está a fazer confusão entre tradição e preconceito, que são duas coisas distintas. Claro que pode haver preconceito na tradição, tal e qual como há nas modas, no moderno.
2. Não conhecer o passado dificulta muito a aprendizagem do quer que seja, incluindo dos novos costumes. Quem renega as raízes não ‘aprende’ novos costumes, limita-se a aderir à novidade até aparecer outra mais atraente.
3. Há casos para todos os gostos, também os ditos vanguardistas podem ser anti-sociais.
Bem-Haja, Maria Dulce Fernandes,
E, ainda por cima cumpriu a sua promessa de “Paz”!
Post Scriptum: Apenas um conselho: temos que pôr o feijão a demolhar? Quanto tempo?
Á falta de feijão na vagem, ponho de molho 36 horas.
Ok
Obrigado.
Não tem de quê! Boa sopa e BFS!
Amanhã de manhã vou comprar, aqui no mercado do Bairro.
👍👍
Eu sei que as panelas de pressão cozem depressa o feijão, mas compro-o já cozido. Não é a mesma coisa mas é parecido. Perco aquele caldo grosso facto que nem prejudica, prefiro sopas mais diáfanas. E uso todo o tipo de feijão. Vario. O que menos gosto e de que faço parco uso é o feijão frade cujo só aprecio de mistura com lascas de bacalhau assado e ovo cozido. As sopas de grão também não me desagradam. Considero que sopa é sempre e apenas sopa. Mas tem um lugar na minha vida.
Bom fim de semana.
Uso enlatados mas não para sopa. Não é a mesma coisa nem em textura nem em sabor. Sempre que tenho menos tempo, uso latas de feijão branco nas feijoadas, preto a acompanhar churrascos, frade em salada, manteiga nas massadas e arroz, encarnado no chili e guisado com enchidos e ovos escalfados, etc. etc.
Gosto de cozinhar. Se os feijões precisarem de cozer duas horas , pois que seja.
A próxima sopa é de grão com nabiças
Bom fim de semana para si também.
O meu pai era o maior apreciador de sopa de feijão do mundo. Para ele era ‘A Sopa’. Podia comer todos os dias. Mas sem essas modernices da courgette. E com massa. 😉
Por falar em arroz de feijão. Tinha um resto de couves galegas e um resto de feijão. Fiz couves salteadas com feijão. Sobrou. Fiz arroz de couves com feijão. Adoro cozinhar com restos. Nada nasce nem nada morre. Tudo se transforma. 🙂
Adoro legumes salteados. Adoro roupa velha. Chego a fazer de propósito, sem ser para aproveitar sobras. Estive há pouco a arranjar grelos para cozer e depois fazer arroz e saltear como acompanhmento a filetes de peixe espada preto. Tenho saudades de uns belos filetes de peixe galo. Ultimamente os lombos andam muito magrinhos.
Eu francamente gosto mais das sopas grossas ou com entulho, mas aligeiro com os chu chus e as curgetes para não se tornarem pesadas. Mas é no “peso” que está a qualidade e o consolo, como o seu pai bem sabia Susana
Reflexões sobre “A SOPA DA PAZ” de Maria Dulce Fernandes.
1. Antes, já tínhamos referido a capacidade da “Sopa da Paz, de Maria Dulce Fernandes” quebrar o modelo binário, isomorficamente inverso, que condena os Humanos a uma simetria de opostos que alimenta as suas relações agonísticas de confronto e competição.
1.1. Concretamente, ao conseguir forjar uma premissa exterior às duas que Wittgenstein (1921) e K.Gödel) condenaram a Lógica humana, remetendo-nos para o limite do silêncio e da indecidibilidade.
1.2. Uma premissa feita de cheiros e sabores, memórias imateriais e intangíveis, e outras coisas impronunciáveis e não-formalizáveis.
1.3. Ou seja, a “Sopa da Paz, de Maria Dulce Fernandes” constitui a porta da liberdade para escaparmos a esse impasse.
2. Mas há mais.
3. Não sei quantos já trabalharam num laboratório de pesquisa científica, semelhante àqueles que estão a produzir a vacina contra o Covid.
3.1. Se se reparar com atenção e distanciamento, ver-se-á que estão a fazer umas “sopinhas”, que depois metem em pequenos frascos, para misturarmos com “outras sopinhas”. Concretamente aquelas que nos correm nas veias. E dizem disso, que estamos a ser vacinados. Dizem também, que é uma “cura”.
3.2. O modo de fazer a “Sopa da Paz, de Maria Dulce Fernandes” não difere muito do processo de fazer aquelas sopas químicas, onde se misturam os fermiões, neutrões, protões, átomos e moléculas. E o que resulta dela, é a Paz, que também é uma cura.
4. Portanto já temos dois benefícios: i) o da quebra do impasse lógico que condenava a cognição humana a uma eterna oscilação entre dois pólos opostos e opositivos; ii) e a Paz, como a cura para os excessos desse tipo de competição binária (esq/dir; certo/errado, sim/não, virtude/pecado, etc.).
5. Logo, perante esta evidência, somos forçosamente conduzidos a um terceiro benefício.
5.1. Refiro-me ao benefício da ANALOGIA.
5.2. Para não usar as minhas palavras, usarei as de Jean-François Dortier:
(….)
“Todos nós, humanos, pensamos por analogia.
Pensar por analogia é estabelecer comparações entre realidades distantes.
Entre o sol e o amor, com o argumento de que ambos aquecem. Entre comer e ler, porque num caso, um nutre o corpo, no outro, a mente. Entre a Lua e um rosto: não têm um pouco a mesma forma?
Tal como a imaginação, a analogia permaneceu durante muito tempo como um simples processo literário, ou um jogo poético.
Porém, a analogia está a ganhar um novo estatuto.
Descobrimos que o cérebro, em tudo o que faz, usa analogias para pensar. Na ciência: a onda que se espalha na água ao menor choque foi usada por Romain Vitruve para criar a teoria física do som espalhando-se pelo ar. Christiaan Huygens propôs a primeira teoria da luz por analogia com a onda sonora…
A analogia também se encontra em muitas áreas do raciocínio: no arquitecto em busca de formas, ou no engenheiro que projecta uma máquina.
A analogia, longe de ser uma armadilha que faz a mente cair em falsas-semelhanças, constitui um poderoso mecanismo para detectar estruturas, formas e padrões ocultos.
Cada vez mais investigadores consideram que a metáfora e a analogia estão no centro da cognição humana. E são ferramentas poderosas para pensar.
Nas ciências humanas também se torna necessário saber reconhecê-las e dominá-las.
A imaginação e analogia foram durante muito tempo afastadas da filosofia e da ciência. Hoje, encontram um lugar novo. Os pensamentos do poeta e do cientista talvez não estejam, assim, tão distantes. » (J.F. Dortier, janvier 2012, « LA REDECOUVERTE DE L’IMAGINATION », Sciences Humaines, n.º 233 :25).
6. Abençoada “Sopa da Paz, de Maria Dulce Fernandes”!
Uau!
Errata:
K.Gödel (1931)
(….) no arquitecto em busca das formas,