
Ana Vidal: «Não é a primeira nem a centésima vez – e não será certamente a última – que ouço quantificar a área de qualquer coisa em estádios de futebol. Acabo de saber, por um solícito repórter da SIC N, que o novo hospital de Braga terá o tamanho de treze estádios de futebol. Ainda não estou bem familiarizada com esta nova unidade de medida nacional, mas presumo que isto queira dizer “grande”.»
Paulo Gorjão: «Hoje ficámos a saber que Augusto Santos Silva “teve a honra e o orgulho de trabalhar” com Aníbal Cavaco Silva. Mais. Ficámos igualmente a saber que “o Governo sempre teve as melhores relações” com o Presidente da República. Perante tal descrição idílica — o leitor por esta altura já deve estar a escutar o chilrear dos passarinhos e lá ao fundo o som de uma cascata –, confesso que não percebo as preocupações expressas recentemente pelo mesmo Augusto Santos Silva, apontando claramente para um Presidente com quem seguramente não seria um orgulho trabalhar e com quem não se teria as melhores relações. Até a hipocrisia deve ser exercida com limites. Se outra razão não existisse, por motivos de eficácia.»
Rui Rocha: «Manuel Salgado, vereador do urbanismo de Lisboa, fez o mundo saber que o Qatar manifestou “receptividade positiva” à compra de terrenos em Lisboa proposta pela edilidade de que António Costa é Presidente. Menos mal. Imagine-se que a receptividade tinha sido negativa ou, por absurdo, neutra. De uma carga de trabalhos já ninguém nos livrava.»
Teresa Ribeiro: «- Diz que foi morte imediata.
– Antes assim, coitado.
– Desde que soube, ontem à noite, que ele não me sai da cabeça.
– Também. Nem dormi como deve ser.
– Afinal, pelas minhas contas, convivemos diariamente durante mais de dez anos.
– Tinha família?
– Acho que sim, um ou dois filhos.
– Por acaso tinha ideia de que vivia sozinho.
– Pois, acho que sim. Acho que estava separado.
– Coitado.
– Não consigo olhar para aquela secretária vazia.
– Nem eu.»
Eu: «Há poucos dias, Jimmy Carter festejou uma efeméride muito pessoal: tornou-se o segundo ex-presidente dos Estados Unidos com maior longevidade desde que cessou funções na Casa Branca. Foi a 20 de Janeiro de 1981 que o democrata Carter passou o testemunho ao republicano Ronald Reagan, tornando-se naquilo que vários analistas, não sem ironia, o vêm classificando nos anos mais recentes: o melhor ex-presidente norte-americano de sempre – um título de algum modo confirmado pela atribuição, em 2002, do Prémio Nobel da Paz devido às suas acções de cariz humanitário em alguns dos mais atribulados cenários do globo.»

O “comentário” de Teresa Ribeiro será sempre atual, há 10 anos, hoje, sempre. O cinismo a camuflar a alienação e a indiferença. Um diálogo digno de um bom argumento intitulado “Assintomáticos”.