O Donald


José Meireles Graça,

Cansei-me de, durante o mandato Trump, dizer: Olhem para o que faz, não para o que diz. Isto porque ele tinha meia dúzia de ideias certas sobre a economia, a imigração e as relações com o resto do mundo, enquanto os Democratas tinham e têm meia dúzia de erradas sobre os mesmos assuntos.

A tarefa dos trumpistas (como me chamam, com finura, alguns amigos) sempre foi dificultada pelo Donald, cujas eructações no Twitter tendiam, volta e meia, a ser embaraçosas, e pelos seus discursos de improviso, confrangedores, a sua retórica de vendedor de automóveis, que não era, e a sua prodigiosa grosseria de novo-rico, que também não.

Perdeu as eleições. Não é verosímil que, dada a diferença de votos, as chapeladas (que houve, e agravadas pela quantidade de votos não presenciais e uma multiplicidade de sistemas de contagem), e não obstante inúmeras decisões judiciais que não se basearam em recontagens, o resultado pudesse ser diferente.

Nunca é suficientemente dito que o papel dos vencidos é essencial em democracia: porque sem eles não haveria vencedores e porque os vencidos de hoje podem ser, se conservarem o seu pecúlio e souberem aumentá-lo, os vencedores de amanhã.

O saldo do seu mandato é francamente positivo. Não elenco aqui os sucessos: já o fiz noutra maré e, de todo o modo, como todos os mandatos são feitos de sucessos e falhanços, acertos e erros, nunca poderia convencer senão convencidos. O previsível regresso às agendas mundialistas, como o Acordo de Paris, as pazes com a ONU e as suas agências, e a política externa titubeante, em que ditadores mal vistos pela comunicação social, como Putin ou Jong-un, são hostilizados, enquanto outros mais perigosos como Jinping ou os mullahs iranianos, são relativamente poupados, estão de regresso.

Trump poderia guardar o seu capital (teve a segunda maior votação de sempre), e administrá-lo, talvez não para si porque já está velho para novas aventuras, mas para promover outro futuro candidato.

Não fez assim. Na sua estreita cabeça quem perde é um loser, e conceder senão à 25ª hora uma atitude de fracos. A pressa em executar condenados federais nem para apoiantes da pena de morte, como é a maioria dos Americanos, pode ter deixado de parecer aquilo que é: uma vingança raivosa por a sua liderança, cruel e primitiva em matérias penais, estar em risco. E a invasão do Capitólio por uma turba alucinada, que provocou com tweets incendiários e não susteve logo que se desencadeou, deixa uma mancha indelével no seu mandato.

Talvez no meio daquela multidão houvesse provocadores do ANTIFA; não se percebe como as forças policiais no local não reagiram; e, politizadas e abaladas como estão as instituições, não é certo que as investigações venham a apurar o que exactamente se passou. Mas a ideia de que invadir o Capitólio não é diferente das  manifestações da esquerda americana, que destruíram ruas e inúmeros negócios e outros bens, e que contaram com a complacência de uma comunicação social pela maior parte democrata, isto é, de esquerda, é desvalorizar o simbolismo de atacar impunemente a casa da democracia: se nesta uma sessão para apurar o resultado das eleições pode ser suspensa por um motim apalhaçado, a mensagem a retirar é a de que a polícia é uma anedota, os senadores uns cabeças de turco, os tribunais de faz de conta e o Poder o da rua. E até o grotesco ditador da Venezuela se permitiu vir, com um comunicado, traduzir a sua barrigada de riso.  

No início do seu mandato escrevi um artigo em que previa que correria bem. Era o tempo em que se se anunciava a III Guerra Mundial e as sete pragas do Egipto que se abateriam sobre o mundo e a América.

Correu bem. E acabou mal. Donald Trump não soube estar à altura da sua obra.

22 comentários em “O Donald”

  1. Concordo com estes seus pontos de vista excepto com um pequeno detalhe: sim, correu bem, mas está a acabar ainda melhor, como aliás não podia deixar de ser. Repare-se no programa de Beiden e dos democratas, que “venceram”.
    -Os projecto alternativo para os EUA, dos democratas durante 4 anos, foi dizer mal de Trump com acusações -não contra a sua administração- qual delas a mais fantaziosa. Como bem diz era impossível fazer melhor do que o que Trump estava a fazer. Entra-se na campanha eleitoral. As primárias “sobram” para Biden.
    -Nas presidenciais Biden não abriu a boca porque também, nesse campo, não seria capaz de dizer nada sobre um qualquer, seu futuro, projecto.
    -Repare-se com agora, já com a garantia de ir morar para a Casa Branca, só lhe sai da boca anti-trumpismo primário e mal fundamentado.
    -Quem entregou ao recém eleito Obama o seu gabinete tipo “pronto, toma lá, são estes”, repetiu a dose entregando a Biden o”seu”, até o mesmo, gabinete. Interessante.
    -As facções socialistas/comunistas do Partido Democrata, agora preteridas, vão, pelo menos, fazer correr muita tinta e tempo de antena.
    -Claro que tuda esta charada, o Baidismo, não vai durar um semestre, Kamala dixit. Então, depois, a cena será ainda mais picante.
    Assim sendo quem ri por último, ri melhor. QED.

  2. Directo, claro e (muito) corajoso.
    Desde Lampedusa que se sabe que aos leopardos sucedem-se os chacais e se Trump escolheu sair como antítese do príncipe de Salina, já os chacais ficaram com o ambiente propício à sua propagação. Por isso, caro José Meireles Graça, não espere muito mais do que “likes” anónimos e críticas acirradas ao post.
    Da obra de Trump, há um aspecto que particularmente me impressionou. É forte e mesmo inevitável, a ligação dos EUA a Israel, sendo exemplo mais representativo o apoio na guerra do Yom Kippur – que incidentalmente incluiu um verdadeiro ultimato a Portugal para autorizar o uso dos Açores – e nem a sonsa parelha Obama-Hillary se atreveu a inverter essa política, apesar de a terem prejudicado, com os acordos com o Irão. Dado o crescimento geral do radicalismo, seria de prever a necessidade de uma futura intervenção americana para defender Israel. Neste cenário, acho absolutamente notável que Trump, sem ter iniciado nenhuma guerra, só com diplomacia e comércio, tenha conseguido quebrar a unidade islâmica no ódio a Israel, reduzindo e muito o risco de uma guerra. Mas foi Obama, o criador do Estado Islâmico, que foi contemplado com o Nobel da Paz.

      1. Não tenho vocação para professor primário nem gosto de dar pérolas a “alguéns” mas, se estiver interessado, o que muito duvido dado o estilo e o “nick” criado para o efeito leia até a parte final de:
        https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/um-homem-comum-na-casa-branca-12026367?thread=97186815#t97186815
        O artigo cujo link ofereceu, informa – com muita opinião e alguma especulação agregada – quem dirigiu inicialmente o ISIS. Mas, se não fossem esses, teriam sido outros (um dos comandantes máximos do ISIS tinha sido brigadeiro de Saddam Hussein e dessa origem, não faltavam generais capazes, alguns que já se tinham distinguido na guerra Irão-Iraque (1980-1988).
        E, se Obama não tivesse retirado prematuramente as tropas no Iraque e apoiado a “oposição democrática” na Síria, nem esses nem nenhuns outros poderiam ter criado o ISIS com a rapidez e expansão que teve.
        Portanto, sim, a criação do ISIS deve-se à política desastrada de Obama e, especialmente na Síria, da sua ainda mais desastrada secretária de Estado, Hillary Clinton.

        1. Até parece que escrever ali um nome é como apresentar um BI.

          E eu a pensar que isto tinha sido desencadeado pelo gang dos Açores, presidido pelo cherne.

          Se for pela britânica conta mais?

          ISIL has its origins in the Iraq War of 2003–11. Al-Qaeda in Iraq (AQI), its direct precursor, was one of the central actors in a larger Sunni insurgency against the Iraqi government and foreign occupying forces.

          https://www.britannica.com/topic/Islamic-State-in-Iraq-and-the-Levant

          Quem é que era mesmo o presidente americano em 2003?

          Não é que o Obama seja santo algum e que a guerra da Síria não tenha piorado as coisas.

          Mas dizer que o Estado Islâmico foi criado pelo Obama é de uma notória desonestidade ou de se usar umas belas de umas palas.

          1. É flagrante desonestidade intelectual chamar o “cherne” à colação e perguntar quem era o presidente em 2003. No link que deixei fica cristalinamente claro que ambos os Bush erraram, não na guerra mas no que fizeram e não fizeram após as vitórias militares. E nada disso isenta a administração Obama do que se seguiu e permitiu o aparecimento do Estado Islâmico.

            Foi pena não ter interrompido o “copy-paste” sem incluir:
            “… Arabic abbreviation Dāʿish or Daesh, also called Islamic State in Iraq and Syria (ISIS) …”
            Só a união dos sunitas iraquianos e sírios poderia ter produzido o Estado Islâmico com a força que teve. E foi Obama que simultâneamente retirou forças do Iraque – quando a prudência exigia exactamente o contrário – e apoiou o início da rebelião contra Assad, sem ter nem forças próprias nem apoio de países vizinhos com alguma excepção da Turquia,também sunita e que apenas queria um pretexto para poder atacar os curdos.
            Como irresponsabilidade não consigo imaginar pior, e o que se seguiu, com culpas americanas, turcas e israelitas, e cumplicidades europeias, foi algo de politicamente abjecto.

  3. Concordo com tudo o que escreveu.
    A vantagem de Trump na presidência foi rodear-se das pessoas certas. A sua administração tinha pessoas muito competentes.
    O que se está a passar agora é uma vergonha. Trump deixou o narcisismo patológico manchar a sua imagem. É uma pena acabar assim.

  4. Eu, que, ao contrário do JMG, sempre detestei Trump (desde logo, por ser um ser humano repelente), entendo que “invadir o Capitólio não é diferente das manifestações da esquerda americana”. Entender que é uma manifestação no Capitólio que acaba como esta acabou (e importa apurar como é que isso sucedeu) é um inconcebível acto de sedição e um dos momentos mais negros da história dos EUA (e convenhamos que, tendo em conta a pilha de massacres, homicídios e guerras que a história dos EUA acumula, este episódio nem no “top 1.000” tem lugar), que não pode ser comparado com a demolição de casas, lojas e monumentos, e o bloqueio violente de cidades inteiras, como aconteceu por ocasião dos protestos BLM, ou na célebre “batalha de Seattle” de 99, é um desrespeito pelo cidadão comum que eu não partilho. Em todas essas situações se procura intimidar a comunidade pela violência, para obter ganhos políticos, sendo-me indiferente se essa violência é dirigida aos representados ou aos representantes. Assim, a grande diferença entre este último episódio de violência ideológica e os anteriores, é que a direita se envergonha (e bem) do que aconteceu, e a esquerda revê-se neste tipo de vandalismo – enquadra-os na sua narrativa história da “revolta dos oprimidos” – e aproveita-se, cinicamente, do mesmo, para fazer avançar os seus interesses.

  5. Só li até metade. Não tenho a fleuma. E entre a banheira e este texto, que pretende dar banhada, opto claramente pelo banho tradicional. Antifa, boas ideias, tá bem, tá… (quando Trump levou o mandato todo a dividir a comunidade americana). Meu caro, quando se fazem balanços políticos ou gastronómicos tem de pegar em tudo, mexer bem, para não colar, comida ou pensamento, e ver o que sai do tacho. E a de Trump, política e pasto, sabe a bicho e a bispo. E aprecio mais um tipo assumidamente trumpista, do que este género literário, feminino, diria, de equilibrismo manhoso. Boas ficções, meu caro. Bons mergulhos.

  6. O momento vivido nos EUA era inevitável. E mesmo que Trump tivesse vindo a terreiro pedir para que isto não acontecesse, aconteceria de qualquer maneira. E aconteceria porque as investigações sobre as possíveis fraudes não foram competentes, nem rigorosas. A começar pelo factor federal. Foram iniciadas várias investigações locais, em vez de uma investigação federal. Nunca tendo existido um caso como este, percebeu-se que havia um vazio legal. Cada estado tem as suas competências e cada condado outras. Ora isto levou a que se entendesse que uma possível fraude não teria sido planeada a nível nacional e interestadual, mas sim a nível local. E assim se iniciaram investigações amadoras, sem que os órgãos de investigação tivessem os meios técnicos e humanos para as levar a cabo com rigor máximo e contando com a mais valia das agências federais, dotadas de meios técnicos exclusivos. Para além disso, os tribunais e juízes que lidaram com isto, não teriam as competências, nem reconhecida isenção para o fazerem.
    O sistema de magistratura americano é muito característico. A ascensão à magistratura federal não está ao alcance de todos, é necessário um sem número de competências dos mais variados níveis.
    O americano comum, e quando falo em americano comum, falo daquele que não é activista, nem fundamentalista, nem quase psicopata, não ficou esclarecido. Nem de um lado, nem do outro. O americano comum, o nosso colega de trabalho, o vizinho, o que frequenta os nossos churrascos, ou com quem jogamos bascketball ao fim de semana, não ficou convencido com a transparência da eleição. Aceita-a, até prefere o resultado com que terminou, mas irá sempre manter uma sombra de suspeição.
    Isto é o americano comum, num mais extremista, não se poderia esperar outro resultado.
    E sim, de facto existem várias acusações de intromissão na manifestação de ativistas de extrema esquerda. O indivíduo mascarado de indio é um actor, artista, impersonator relativamente conhecido, membro da Antifa. Aliás, a tatuagem que expõe no peito esquerdo liga-o a essa organização.
    Sobre a atitude da polícia do capitólio e da sua suposta inércia, não se pode esquecer que a segurança pública da América vive em 90% dependente de informações, de Inteligência. Ora os serviços de Inteligência não foram esclarecedores sobre as possibilidades de isto acontecer. Mas é o resultado de uma segurança demasiado dependente de informações e cada vez menos de reação, ou de desenrasque, como em bom português. As estratégias são muito dependentes das informações prévias e negligencia-se a reação ao inesperado.
    Por exemplo, em Portugal é o inverso. Veja-se a estratégia de segurança das vacinas. Numa segurança pública onde as informações são pobres ou até inexistentes, as polícias vêem-se obrigadas a exagerar. Seja no efectivo, seja no armamento, seja na logística. Claro que temos de ter um conta o facto de estarem manietados por políticas de proteção de dados excessivas, mas isso são outros quinhentos.
    Por fim, Trump foi Trump. Nunca pensou que chegasse a este ponto, tal como qualquer pessoa. Ainda para mais, como disse acima, quando os serviços de informações não fizeram esta previsão. Quando viu o resultado, veio apelar à calma… tarde demais.

  7. Não entendo o conceito de uma pessoa não saber estar à altura da sua obra. Ou bem que faz a obra, ou bem que não a faz. Se a faz, é impossível não estar à altura da mesma.

  8. A Esquerda não destruiu “só” negócios e propriedade privada.
    Atacou e destruiu monumentos e estátuas propriedade publica.

    Duas vezes pelo menos em que o Partido Democrata recusou condenar a violência politica.
    https://thefederalist.com/2020/07/02/democrats-block-resolution-condemning-mob-violence/
    https://www.breitbart.com/politics/2020/06/25/house-democrats-block-gop-measure-to-condemn-defund-the-police-movement-riots/
    Andrew Cuomo disse que destruir monumentos é uma “healthy expression”
    https://www.washingtontimes.com/news/2020/jun/23/andrew-cuomo-defends-destruction-us-monuments-its-/

    1. E, por ventura, tentaram entrar no capitólio para reverter à força o resultado de uma eleição legítima? Bem me parecia.

  9. Eu estive no Capitólio a defender Trump mas não vi lá J. M. Graça. Os que falam mas não actuam é que tramaram Trump.

  10. “Isto porque ele tinha meia dúzia de ideias certas sobre a economia”

    E porém, nos múltiplos posts sobre o idiota, o autor do post não apontou onde está esse grande sucesso económico. A economia começou a subir com Obama em 2012 e o mesmo rumo continuou com Trump. Nenhuma magia cor de laranja.

    https://pasteboard.co/JITWxYB.png

    Vê quem quer.

    O que sobra? O pulha que Trump verdadeiramente é que o autor do post branqueia com lexívia, quiça daquela que o idiota tinha recomendado para o covid.
    Ideias certas? Muito me conta.

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