
«De que nos serviria a nossa fama de discretos se a moral fosse intacta – de que serve a discrição se não houver nada que deva ser tratado discretamente?»
Heinrich Böll, Bilhar às Nove e Meia (1959), p. 27
Ed. Ulisseia, 2011. Tradução de Vanda Gomes

«De que nos serviria a nossa fama de discretos se a moral fosse intacta – de que serve a discrição se não houver nada que deva ser tratado discretamente?»
Heinrich Böll, Bilhar às Nove e Meia (1959), p. 27
Ed. Ulisseia, 2011. Tradução de Vanda Gomes
A fotografia na capa que é? A igreja Kaiser-Wilhelm-Denkmal em Berlim?
É.
A Fama é Apenas uma “Capa” que Espelha aos Olhos dos Outros uma determinada Imagem de Vida, que Transparece o que Nem Sempre Realmente É. O ser Discreto está Intimamente Ligado aos Efeitos da Fama, mas se a Fama não existe Realmente, embora já Tenha Existido, de que Vale Espelhar uma “Capa” do que já se Foi, ou do que se Pensa ser!?
E ao Certo o que é a Fama, o que é Realmente a Presunção!?
” fama de discretos ” não será um oximoro?
Feliz Natal para si no patamar da escada.
Gostei muito deste livro, por vezes chocante, um dos poucos onde há o reconhecimento de pacifistas germânicos vítimas no seio de uma Alemanha virada para a guerra, muito simbolismo e muito bom.
Boll é pavloviano: remete-nos sempre para o trauma moral intensamente dissecado por Arendt (esta atacou ferozmente o nazismo mas também não poupou as elites judaicas – acusando-as de egoísmo interesseiro e amoral), amargamente vivido por Heidegger e sublimemamente sintetizado por Jaspers no seu conceito de Existencialismo Cristão, e de Camus no seu conceito de Amor à Vida, e de Levinas no seu conceito de Bondade Infinita. Todos somos pecadores – seres frágeis e imperfeitos. Ser discreto é esse reconhecimento.
Heidegger e Sartre foram pensadores geniais. As suas obras principais: O Ser e o Tempo e o Ser e o Nada são magníficos conceitos (ontológicos) racionais, cuja génese é o racionalismo kantiano, mas que divergem excessivamente deste pela menor importância que atribuem à essência. Sartre, ciente dessa lacuna, ainda ensaiou o seu preenchimento com o famoso O Existencialismo é um Humanismo. Jaspers, ao invés, desde o primeiro momento teve a noção ( talvez por ser cristão, mas sobretudo por ser psicólogo) de que o demasiado centramento na existência originava demasiado angústia e sofrimento. O seu conceito do ser-em-situação é a consciência que rejeita o idealismo evolutivo por acção do espírito absoluto hegeliano, mas que rejeita também a razão absoluta, por a considerar uma quimera. Para ele o ser-em-situação é demasiado alienante sem a noção de essência – que se afirma na existência, mas que a transcende fora do espaço-tempo. É o sentido de ética como essência que Jaspers defende; ou da ética como filosofia primeira, como a designa Levinas na sua obra A Bondade Infinita; ou como amor à vida, como Camus sublinha ao longo da sua vasta obra literária.
O excessivo orgulho intelectual foi o que levou (traiu) tanto Heidegger como Sartre às equivocas opções políticas que tão nocivas foram para a humanidade – admitindo tal equívoco já demasiado tarde.
Boll, que nunca aderiu ao nazismo mas foi (compulsivamente) um militar alemão durante a segunda guerra mundial, apercebeu-se profundamente, na vivência concreta da realidade, de como a arrogância da razão manifestada por parte de alguns dos grandes pensadores alemães, invertendo o sentido moral judaico-cristao em favor dum positivismo moral; e dos cidadãos comuns, através do princípio moral da obediência à lei, os levou a todos à banalização do mal, sem culpa. (A responsabilidade individual é o supremo valor do existencialismo, daí resulta que quando a lei não protege as liberdades e a dignidade dos indivíduos, é sua obrigação ética desobedecer-lhe.)
Não está em causa o brilhantismo intelectual, tanto de Heidegger como de Sartre – que é muito. Os seus conceitos inovadores no domínio da ontologia abriram novos caminhos para a interpretação do real, e são incontornáveis – até pelo grande contributo que deram para o desenvolvimento de novas abordagens e terapias no tratamento de doenças mentais. A psicologia, a psiquiatria e a psicanálise devem-lhes muito. Mas, assoberbados pelo seu próprio génio intelectual, olvidaram que a verdade e a razão absolutas são uma quimera, e, por isso, a ética deve preceder a ontologia em todas as acções humanas.
Muito obrigado pela partilha.
Obrigado sou eu, Sampy. É por seres humanos como você que o tempo que dedico ao comentário faz sentido. Afinal, este espaço não é uma sala de aulas!
Cumprimentos fraternos