Na despedida do Jorge Ferreira


Pedro Correia,

A notícia já era esperada, mas nem por isso deixou de me atingir mais fundo. Porque, como dizia Jorge de Sena, nenhuma morte é natural. Fomos feitos para a vida, não para a morte. E se há pessoa que conheci sempre com imenso amor à vida foi o Jorge Ferreira, que hoje morreu, com apenas 48 anos. Idade absurda para morrer, como qualquer outra idade em que existem ainda tantos projectos por concretizar, tantos sonhos por alcançar.

O Jorge estava doente há dois anos, mas sempre enfrentou a doença como travou tantos debates políticos ao longo da sua vida parlamentar, como presidente da bancada do CDS: de frente, com coragem e tenacidade. Com o mesmo desassombro que revelou quando rompeu com o partido em que militava desde a adolescência, em desacordo profundo com Paulo Portas. Com a mesma franqueza e a mesma determinação que utilizava para escrever no seu blogue, Tomar Partido: o último postal foi publicado há apenas dois dias, na quinta-feira.

O Tomar Partido – título de leitura dúplice, que evidenciava o seu amor pela bela cidade de Tomar – era um dos blogues que eu lia com mais frequência, mesmo quando discordava do que lá se escrevia. Nos últimos meses, nas entrelinhas mas sem qualquer sombra de lamechice, o Jorge deixava entrever algumas pistas que nos permitiam decifrar a dor que sentia no penoso combate contra a doença. O blogue era o seu último ponto de contacto permanente com a vida quotidiana, mesmo quando já se encontrava imobilizado numa cama do hospital. Sem este convívio com os confrades de escrita blogosférica, a despedida teria sido ainda mais dolorosa.

Há cerca de dois meses, em linhas demasiado sucintas, escrevi aqui o que pensava dele e da sua escrita. Éramos parceiros de geração, conhecíamo-nos há mais de três décadas, e nunca deixámos que as frequentes divergências de opinião perturbassem uma amizade já tão antiga. É outro companheiro de juventude de quem me despeço, cedo de mais, num dia chuvoso que também parece estar de luto por um amigo que partiu.

 

ADENDA de 22 de Novembro: O último postal do Jorge foi publicado, no próprio dia da sua morte, no blogue Nabantia (agradeço a informação ao Leonel Vicente d’ A Memória Virtual).

28 comentários em “Na despedida do Jorge Ferreira”

  1. Guardo a boa impressão que sempre tive sobre ele, sabedor de vossa proximidade. Ainda há dias lhe respondi qualquer coisa que perdeu importância. Ganhou agora mais importância guardar o que sei dele.

  2. Do estado de ignorância (da situação) transito directamente para o de choque, Pedro. Era um dos meus blogues de leitura diária. E os hábitos são bem uma segunda natureza. Vou sentir muito a falta das suas palavras que é um modo de sentir muito a sua falta.

    1. O blogue é património do Sapo. E, naturalmente, da família dele. Fica como precioso testemunho de uma época: é um retrato quase diário – durante vários anos – de muitos acontecimentos, comentados sempre por um prisma muito pessoal mas onde nunca faltava amplo material informativo.

      1. Acho que o melhor é não interferir no blog (houve quem quisesse coolocar um último post, informativo, mas eu sou contra), e criar-se um espaço im memoriam onde serão agrupados estes Blogs. Penso que é o menos intrusivo e mais respeitador da memória de quem escreveu.

          1. Queria aqui expressar também o meu apoio a essa meritória iniciativa.

            Como refere, o Jorge Ferreira era ‘um dos nossos’, mas não ‘um qualquer’; um homem bom, que – mesmo já numa fase avançada da sua doença – não deixou nunca de se entregar com entusiasmo ao trabalho, à escrita, à blogosfera, nunca esmorecendo.

            Bem haja!

  3. Fui espreitar o Tomar Partido. Há dois dias ele postou sobre contas públicas e orçamentos rectificativos ignorando até ao fim a importância relativa das coisas. Essa tenacidade foi o que mais me comoveu.

  4. Estou desolado. Sabia que o Jorge Ferreira estava doente – disse-mo o Manuel Monteiro, em Lisboa, há mais de um ano -, mas estava longe de pensar que era assim tão grave. Conhecemo-nos desde os tempos em que ambos militámos na JC e, apesar das divergências, criámos uma amizade. Ainda há pouco deixou comentário no meu facebook e a ele devo muito do sucesso d’O Anónimo. Estou sem palavras. Adeus, meu Amigo, e um abraço, estajas onde estiveres.

  5. De Jonasnuts a 21 de Novembro de 2009 às 17:32
    Acho que o melhor é não interferir no blog (houve quem quisesse colocar um último post, informativo, mas eu sou contra), e criar-se um espaço in memoriam onde serão agrupados estes Blogs. …

    Permita-me manifestar o meu completo acordo a esta sua proposta, apesar de não ser (individualmente) um utilizador do serviço sapo. Fiz somente parte do colectivo Novo Rumo.
    Junto o meu ao Vosso pesar pela perda.

  6. Com a devida vénia e considerando esta uma justa homenagem a quem nos habituamos a ler, o 2711 reproduz na integra o texto do Pedro.

  7. Não há muitas palavras. E, seguramente, não há palavras originais.
    Acho excelente a proposta da criação do espaço que honre o legado do blog.
    Um abraço especial, Pedro Correia.

  8. Não estava à espera de um murro no estômago como esse, hoje, caro Pedro Correia.
    O Jorge Ferreira prodigalizou-me provas de amizade que jamais poderei esquecer.
    Um abraço emocionado.

  9. Foi mais um homem de fortes convicções que foi “varrido” pela incerteza da nossa vida. Tive um contacto em 2003, do qual guardo a recordação de uma pessoa como não existem muitas. Não se preocupava com as coisas mesquinhas, mas com o encontrar soluções. Um bem aja.

  10. Estou impressionada com esta triste surpresa, Pedro. Um beijo para ti, que eras amigo próximo.

    E parabéns à Jonas pela ideia e pela sensibilidade. Assim se vai humanizando este mundo virtual, que afinal é feito de gente de carne e osso. Fica o espírito.

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