Eduardo Lourenço


José Meireles Graça,

Morreu Eduardo Lourenço e a comunicação social explodiu em ditirambos: no Público, por antonomásia o jornal do regime, o homem é “o gigante que nos desvendou Pessoa, Portugal e a Europa” e, no I, “o intelectual que decifrou o enigma português”. Marcelo informou que o finado era “figura essencial do Portugal que vivemos” e Costa recordou “o amigo com quem aprendeu muito”; o Conselho de Ministros decretou luto nacional; e quem é quem no mundo da opinião, conhecida ou discreta, profunda ou superficial, desarrincou textos muitíssimo inspirados.

Claro que nunca escreveu nada que fosse muito lido senão por quem leva a sério lá essas coisas de letra redonda que entende mal, ou fizesse escola, ou estabelecesse doutrina, ou apontasse caminhos que não fossem os da mais chã banalidade no pensamento e na acção. Mas tinha uma receita. Como disse um ignoto comentador no Facebook, essa rede dois dias pejada de citações do vulto desaparecido:

E então, a Ordem dos Psicanalistas já veio dar testemunho do seu pesar? Morreu o confrade que se especializou na homeopatia para a pátria no sofá.

Essa era de facto a especialidade, a par de arroubos líricos em torno da imarcescível alma portuguesa e mergulhos na psique da nacionalidade, consoante os dias e as circunstâncias. Quem tiver dúvidas ou pecados a expiar pode conferir neste repositório de citações.

Pobre homem, talvez não merecesse, pela sua simplicidade, que era provavelmente genuína, o prémio que dá a pátria aos seus próceres da cultura quando morrem velhos: o estatuto de génios retroactivos, em vez de diuturnidades.

Não mereceria talvez, também, estas regras desabusadas porque foi um homem bom o que morreu; e na lavoura do pensamento e da escrita são precisos muitos para que, de longe em longe, um se livre da lei da morte.

Descanse em paz e nós até ao próximo génio que o mundo oficial assim declarar.

16 comentários em “Eduardo Lourenço”

  1. ou apontasse caminhos que não fossem os da mais chã banalidade no pensamento e na acção.

    Também acho, confesso..

  2. Com o devido respeito pelo falecido, a euforia frenética que desencadeou entre a nossa nobreza, sempre pronta às idolatrias mais plásticas, faz-me vir à memória uma frase célebre que de momento não recordo o autor.
    “Um povo que precisa de heróis para se salvar não merece ser salvo”.

    1. Depois de Deleuze não se pode pensar em atavismos nem fazer filosofias redondas como se fazia no Estado Novo — que derivam das teses um bocado saloias de Teixeira de Pascoaes, apoiadas numa etnografia que copiava a etnografia alemã. Foi de Pascoaes que Lourenço herdou o tom. Ou até de Pessoa nos seus delírios místicos (ou etílicos, vai dar ao mesmo). O nevoeiro a existir serve de rasura, não de retorno. Já não há estruturas.

      E, caramba — psicologias colectivas e encruzilhadas de “destinos psíquicos”? Que diabo, nem mesmo na bicha do supermercado se deve pensar assim (do género: “calha-me sempre a caixa mais demorada”). Isso não pertence ao real.

  3. Está visto: o gajo era apenas mais um “marxista cultural”… ou até nem isso e «Quem tiver dúvidas ou pecados a expiar pode conferir (no tal) repositório de citações.»!

    O mal dos atrevidos é que num “repositório” de arroz, porque julgam que arroz é arroz, confirmam que é tudo a mesma coisa… e eu até nem tenho a mínima dúvida de que se deliciam com um “risotto” feito com arroz agulha ou basmati: ambos são arroz!

  4. Obrigado pelo post.
    É que às vezes até tenho vergonha de mim mesmo por ser tão estúpido e não perceber a “grandeza” e o “génio” de certas pessoas.
    Valha quem sem ter medo de ser mandado ao leões da “inteligência” levanta a voz para dizer que tal coo a fábula, muitas das vezes “O Rei vai nu”.

  5. O Regime precisa de símbolos para se continuar a legitimar.
    E se não os tem inventa-os. Neste caso transforma um professor respeitável em “Génio”.
    O manifesto exagero na morte de uma pessoa mostra além das manipulações jornalistas a parca criação em Portugal, ele que nem cá vivia.

  6. Não tarda, que adversos de estimação, digam: “Não era mau diabo, coitado”

    A. Lobo Antunes, dizia do nobelizado saramago: “Coitado, coitado…”
    A invejoca, é lixada.

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