Um prémio chorudo aos derrotados


Pedro Correia,

 

 

Sónia Sanfona foi uma deputada socialista que se distinguiu, na última legislatura, a redigir o relatório da comissão de inquérito ao BPN criticado por todos os deputados da oposição que nela participaram. A intenção foi óbvia: fazer um frete ao Governo e à supervisão do Banco de Portugal, que só ela considerou "ter feito o seu dever", distorcendo as conclusões a que chegou a comissão e contribuindo assim para desprestigiar ainda mais a instituição parlamentar. Com este brilhante currículo em São Bento, não admira que tenha sido derrotada, logo a seguir, na eleição para a câmara de Alpiarça, reconquistada pela CDU ao PS. Fez birra com José Sócrates, que não a autorizou a candidatar-se em simultâneo ao Parlamento. A birra acabou por valer a pena: o primeiro-ministro acaba de a recompensar com o cargo de governadora civil de Santarém, distrito onde se insere o município que rejeitou Sanfona para presidente de câmara.

Há anos que o PS promete aos portugueses a extinção da inútil função de governador civil. Como tantas outras promessas socialistas – e o próprio ‘socialismo’ – também esta foi guardada na gaveta. Serve de compensação aos mais fiéis de cada distrito que não caíram nas boas graças do eleitorado. Gente como José Mota, candidato derrotado em Espinho nestas autárquicas após 16 anos à frente do município, e agora recompensado com o título de governador civil de Aveiro – espécie de baronato dos tempos modernos. Ou Isabel Santos, recém-derrotada pelo eterno Valentim Loureiro em Gondomar, o que bastou para a alcandorar a governadora-civil do Porto. Na noite de 11 de Outubro, prometeu fazer "oposição firme" ao major nos paços do concelho: mais uma promessa socialista que ficará pelo caminho.

Miguel Ginestal, derrotado na corrida à câmara de Viseu, onde o social-democrata conquistou mais um mandato ao PS, vê a derrota transformada em vitória por acto administrativo de Lisboa: é o novo governador civil do distrito. Jorge Gomes, que nem à terceira tentativa conseguiu tomar a câmara de Bragança ao PSD, recebe igualmente guia de marcha para o Governo Civil. Descubram quem são os outros. A lista completa dos agraciados pode ser consultada aqui.

Um prémio chorudo aos derrotados com cartão do partido. Pago com o dinheiro de todos nós.

8 comentários em “Um prémio chorudo aos derrotados”

    1. Neste caso, várias coisas estão mal:

      1. A promessa de extinguir os inúteis governos civis, eternamente por cumprir.
      2. A promoção ao Governo Civil de candidatos que não serviram para presidir a câmaras, o que constitui um desrespeito do eleitorado.
      3. A noção de que todo o falhanço em política é recompensado, desde que se pertença ao partido ‘certo’ – isto é, ao partido do Governo.

  1. Pedro:

    O partido sócrates no seu “melhor” desempenho perdes de uma maneira ganhas doutra desde que tenhas o cartão está tudo garantido.
    Caminhamos alegremente para o abismo mas pocos se preocupam. Triste país este e ainda não acabaram as nomeações mais algumas surpresas iremos ter.

  2. Olhando para a lista, aparecem outros nomes de habituais caciques regionais que já por lá passaram (Fernando moniz, de Braga) ou antigos presidentes de câmara reciclados (Pita Guerreiro, de Caminha, Santinho Pacheco, de Gouveia, e Alexandre Chaves, da cisade homónima, mas há mais). É uma prática habitual, já antiga, que o PSD também usou, a de agraciar ex-autarcas com o governo civil pelos seus bons serviços partidários ao longo dos anos e das eleições.
    O cargo de governador-civil já não tem a importência que teve outrora (no Estado Novo contribuiam para a nomeação dos presidentes de câmara) e é hoje quase honorífico. Entre estas reciclagens políticas e um qualquer cavalo de Calígula pouca diferença faz.

    1. E há até quem tenha trocado o Parlamento por um Governo Civil, o que revela uma curiosíssima noção de respeito pelo voto democrático e de prioridades políticas, Daniel. Hei-de voltar ao assunto.

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