Carta de Amor a Moçambique. Um belo, sentido e acertado texto de Paulo Sande sobre a guerra no Cabo Delgado. É bom que alguém com visibilidade pública assim se exprima pois são ainda escassos os pronunciamentos em Portugal sobre algo já tão longo – as agressões armadas decorrem há já três anos! Urge o apoio.
(Fossem as agressões, mesmo que bem menos gravosas, sobre uma qualquer “minoria” consignada como minoria e decerto que a indignação e o falatório luso seriam imensos.)
Adendas: Provável apoio iraniano à guerrilha islamita; dezenas de aldeões decapitados nos últimos dias.

Urge o apoio.
Que tipo de apoio sugere jpt?
O Estado de Moçambique não solicitou, que se saiba, qualquer apoio. E o apoio não pode passar por cima do Estado moçambicano…
Que se saiba, a guerrilha islamita não tem “santuários” fora do país (que só poderiam ser na Tanzânia). Ou seja, trata-se de um problema estritamente interno de Moçambique.
Comentador(a?) Balio muito agradeço o comentário e o interesse que este deixa presumir. Como me interroga sobre o assunto que eu afloro na breve “introdução” ao texto de Paulo Sande que eu aqui proponho como leitura aos interessados, permito-me repetir essa recomendação. Pois nele poderá encontrar resposta à sua inquietação.
Quanto a formas mais alargadas de apoio português (por via estatal, que entendo também passível de ser induzida por pressão pública) recordo-lhe – até porque o(a?) sei visita regular deste blog – a função “categorias” (ditas “tags” no modelo Sapo), na qual a Categoria (tag) “Moçambique” o remeterá para anteriores colocações sobre o país e, assim, também sobre este conflito. Desde logo recordo um até recente postal meu, sobre o PE e a Comissão Europeia, que aventa apoios à sociedade moçambicana neste conflito: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/p aulo-rangel-no-parlamento-europeu-117975 50
Alguns textos sobre esta situação, que podem enquadrar o tipo de apoios necessários – que terão que passar pelo governo moçambicano mas que poderão também servir para uma agilização deste último -, coloquei no meu blog pessoal (sem os ter colocado aqui, para não incomodar os leitores com um assunto que não lhes interessará sobremaneira). Há pouco tempo deixei este que, entre outras coisas, aflora a multiplicidade causal do conflito e que lhe poderá anunciar a incorrecção dessa ideia de que não há “santuários” estrangeiros [https://estan.blogs.sapo.pt/paulo-rang el-e-a-resolucao-do-115277] ou, pelo menos, apoios estrangeiros. Mas mesmo que não os houvesse isso não implicaria que não haveria legitimidade (e urgência) num apoio diplomático, humanitário e militar face à eclosão e perenidade de uma guerrilha terrorista.
Permito-me ainda deixar-lhe ligação para um postal onde indiquei uma lista (incompleta mas vasta) de análises sobre o conflito que deslustram essa ideia da dimensão totalmente endógena dos acontecimentos: https://estan.blogs.sapo.pt/textos-sobr e-o-conflito-no-cabo-delgado-88844
Deixo-me ainda partilhar consigo uma ligação a um texto meu de Julho (que aqui também coloquei) sobre a situação, com preocupações que muito reencontro agora em Paulo Sande: “Nem uma lágrima pelo Cabo Delgado”: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/n em-uma-lagrima-pelo-cabo-delgado-1164962 6
E permito-me ainda sublinhar o primeiro texto sobre isto que aqui deixei, em Janeiro de 2018 (e que liguei acima, na breve introdução). Se trÊs anos depois há ainda dúvidas sobre a necessidade de um apoio e sobre as redes internacionais que sustentam e viabilizam esta guerrilha não sei que mais dizer: t/a-guerra-no-norte-de-mocambique-983399 7
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
O provável apoio iraniano!!!??? E o provável apoio whaabista!!!??? Ahhh esses agora são aliados do estado judaico…
Exactamente.
O chamado estado islâmico é de sunitas, e os iranianos são xiitas.
O assunto não será tão simples assim.
O ISIS cresceu e espalhou-se desta forma, porque optou por colocar de parte esta divisão.
Esse foi o grande trunfo e a jogada mais inteligente de Al Zarqawi, o fundador.
O ISIS nasce do Iraque, um dos poucos países árabes onde sunitas e xiitas coexistiam com relativa tranquilidade.
Zarqawi percebeu que limitar o seu exército a xiitas ou sunitas o tornaria débil. Tanto em número de combatentes, como na resistência que iria encontrar na sua conquista de território.
O objetivo era criar um califado. Se nesse califado caberiam as duas correntes, ou se a admissão de xiitas no seu exército, foi apenas oportunismo, não se sabe.
No entanto, os xiitas que se encontravam já doutrinados no exército do ISIS, por lá permaneceram.
O que se sabe é que com Al Baghdadi as coisas mudaram. E não correram bem para os xiitas, por questões de geolocalização.
Seja como for, dizer-se que o Isis é exclusivamente sunita, não é exato.
O ISIS é de origem salafita e wahabita, isto é, vai buscar o caráter mais ortodoxo das duas correntes.
Salafitas e wahabitas são ambos sunitas. A inclusão de xiitas no exército do Isis foi, suponho que sem excepção expressiva, mobilização coerciva.
No Iraque houve de facto uma coexistência tranquila entre sunitas, xiitas e até 600 mil cristãos porque Saddam Hussein mantinha a paz com um regime ditatorial mas o partido único (que ocupava a administração), o exército (na grande maioria e em todos os alto comandos) e a polícia eram sunitas. Poder-se-ia estabelecer um paralelo com Tito, que manteve a convivência de ortodoxos, católicos, islamitas e outros mas a predominância e a direcção política era de sérvios (ateus comunistas e ortodoxos).
Obrigado pelo reparo. O parágrafo não saiu com clareza. Queria dizer que o ISIS foi beber do fundamentalismo das duas correntes sunitas, que aliás pouca diferença fazem uma da outra, bem como de alguma corrente xiita, apesar de em menor número. Quanto ao possível apoio iraniano aos fundamentalistas em Moçambique, apesar de estranho, não o considero assim tão descabido. Desde há uns anos a esta parte que os iranianos começaram a perceber que as questões religiosas lhes estavam a limitar as manobras nos interesses internacionais. Infelizmente olham para esse conflito de interesses pela perspetiva errada.
Mas o certo é que perceberam que o apoio a determinada organização, mesmo que contrária aos seus valores, lhes pode ser útil no futuro.
Os israelitas, por outro lado, já perceberam isso há vários anos e alertaram o mundo para esse facto, infelizmente a comunidade internacional não lhes deu a devida importância, a começar pelo porta voz do mundo na altura, Barack Obama.
Tal como o califado (depois dos 1ºs 4 califas) era sunita e governou os xiitas em todo o Islão (com excepção da Síria) nada impede os iranianos de apoiar os islamitas de Moçambique podendo contudo ter-se a certeza de que é apenas uma política instrumental. O Irão tem claramente o desígnio de chefiar todo o mundo islâmico o que obviamente também incluirá sunitas e pode assim apoiá-los contra os infiéis.
O único país islâmico do médio oriente e da orla mediterrânica que poderá ultrapassar essa rivalidade insanável entre sunitas e xiitas é a Turquia de Erdogan que, tendo 70% de sunitas tem 20% de alevis (ramo incluído nos xiitas mas que alega diferentes origens) o que já permitiu o apoio turco ao Azerbeijão país que tem a 2ª maior população xiita do mundo, no conflito de Nagorno-Karabakh.
Considerando que a maioria dos alevis reside no Irão, é assustadora a hipótese de um entendimento anti-ocidental entre a Turquia e o Irão e, por isso, criminosamente irresponsável a política democrata americana reafirmada por Biden de reverter o isolamento do Irão, como foi praticado na administração Trump.
Confesso que não tive oportunidade de ler ainda o texto que sugere.
Não sendo um entendido na matéria, esta suscita-me interesse.
Desse modo, antes que cometa o erro de escrever alguma afirmação que não seja verosímil, peço-lhe desde já que a corrija e que me ajude a enriquecer os meus conhecimentos na matéria.
Questiono desde já, se este silêncio português e não só, pois a Europa também deveria ter uma palavra a dizer, tendo em conta os interesses económicos que tem na região, não se deverá ao medo. Medo de que qualquer intervenção lhes caia em cima, sob a forma do terrorismo.
Portugal tem passado ao lado desse flagelo. Quer dizer, tem passado ao lado do papel de vítima, mas bastante utilizado no papel de ponte, ou de via de passagem e de porta de entrada.
Questiono também se o Reino Unido não deveria ter, no mínimo, a mesma responsabilidade que Portugal, no que concerne aos problemas que surgem em Moçambique. Talvez mais, tendo em conta a cada vez maior aproximação de Moçambique aos ingleses e a cada vez maior perda da influência portuguesa no país. Opção do país.
Mas atenção, provavelmente até é uma opção mais que aceitável, pois Portugal não tem feito absolutamente nada para justificar a sua influência em Moçambique. Tal como não o tem feito em lado nenhum. É completamente inócua a ação de Portugal nos PALOP.
Desde 2008 que tenho assistido a uma europa cada vez mais subserviente, medricas, ou como está na moda agora, fofinha.
E quando algum líder europeu resolve dar um murro na mesa e optar por um discurso e uma atitude mais firme, cai-lhe tudo em cima. É um belicista, um intolerante, um agressor.
Toda a gente brinca com a europa, a europa já não faz temer, é demasiado passiva nas intervenções que deveria ter e não tem e continua a ser inofensiva.
Para agravar, é desleal.
Na eventualidade da minha leitura estar errada, tal se deve, como disse antes, ao meu conhecimento superficial sobre o assunto.
Acabo de ler este artigo, bastante informativo sobre as origens e putativas articulações dos movimentos islamistas na África Oriental https://www.hudson.org/research/16471-t he-central-african-jihad-islamism-and-na tion-building-in-mozambique-and-uganda?f bclid=IwAR0er8KTD862l1j44MSN7Vz4plEoJOv3 ZiysX-Z3iwoXmrQSbjk0raBeGxs
Louvo-lhe o interesse e o esforço que revela por esta situação num país que muito lhe diz. E que diz a todos quanto amam África.
Temo desapontá-lo sobre o facto dessa situação manter-se por tempo indefinido. Pelos seguintes aspectos que argumento:
1 As petrolíferas estão em queda com a situação da covid e mantém-se uma incógnita sobre o recomeço e como se dará o início da actividade económica;
2 As questão geoestratégicas estão viradas para o indico, na região da Índia, para o pacífico, para os mares do sul da China e para o mediterrâneo.
Assim, quer a Europa, quer a Rússia, quer os USA quer a China têm outras prioridades.