Um abraço


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Hoje, manhã de domingo, bebo um café, dois mesmo, com amiga que há muito, demasiado, não via, pois ela emigrada. Ainda tão bela, entusiasmante, até balsâmica, como o era aquando nós no liceu e no sempre depois, porventura mesmo mais se me deixar acreditar neste sentir já trôpego. Conversa larga, rápida mas larga. E diz-me que se testou com a competência necessária. E depois foi a casa da mãe, agora octogenária, já viúva: “Mãe, há quanto tempo é que ninguém a abraça?”. “Há mais de seis meses, filha”. E abraçaram-se, como é óbvio que deve ser.

14 comentários em “Um abraço”

  1. Caramba, é a isto que cem bestas chamam “nova normalidade”. E logo um milhão de gargantas de bonecos de ventríloquos desatam a repetir em coro “nova normalidade, nova normalidade…”

    Sem perceberem, pobres imbecis, que tudo isto é anormal.
    Profundamente anormal.
    Dolorosamente anormal.

  2. Boa tarde ,
    Hoje fui a casa dos meus sogros(82 e 75 anos) com a minha mulher e os meus filhos , também os abraçamos .
    Ao que nós chegamos , para uns, este é um acto revolucionário , para outros um homicídio .
    Para a minha família, é o que deve ser e ponto .
    Luis Almeida

  3. Realmente já se começa a sentir aquela de estar afastado, máscara e nada convivência. Começa a fazer confusão ver nas tvs conversas entre pessoas sem máscara e não tanto afastadas
    Até já surgiu uma nova palavra para descrever o cumprimento com o cotovelo:
    abrecelo ou abraçovelo

    1. Desde o início repudiei o cumprimento de cotovelo a que nem sempre conseguia furtar-me. Mas logo me lembrei do cumprimento árabe – levar a mão direita ao coração acompanhando ou não com um ligeiro inclinar da cabeça – a que tenho recorrido com bastante êxito.
      Para mim é como a grande diferença entre monarquia e república: é mais bonito.

  4. É melhor que não pensemos há quanto tempo ninguém nos abraça, podemos não ser tão idosos como a mãe da sua amiga e chegar a conclusões pouco animadoras:). Mas ter de fazer um teste antes de um abraço é, na sua crueza, coisa muito estranha.

    1. Para os meus amigos inventei eu (pode ser que outrem o tenha feito mas se assim aconteceu foi-o paralelamente) a expressão “venham de lá esses vírus”, antecipando os abraços com palmadas nas costas. Acompanhados de beijos másculos, para os meus super-amigos.

    2. Já não estou incluído, mas como será agora aquela do começo duma conversa interessante no miradouro do Adamastor, p.ex., no agarrar as mãos, um encostãozinho, um abraço de cara pró lado e vai-se ao atrativo intuitivo …tiro a máscara…não tiro a máscara. Uf!!
      Sem comparação, nem no tempo das perigosas doenças sexualmente transmissíveis havia tanto preconceituado cuidado.

      1. Suponho que o miradouro do adamastor seja um atractivo e cativo posto de namoros e afins. E, se quer que lhe diga, embora o desconheça, avalio que isso de que fala já pouco acontece. No nosso tempo (no meu), sim. Por bem e por mal, muito mudou desde então e as liberdades de hoje levaram consigo um pouco dessa estranheza deliciosa e embevecida que se via. As liberdades de hoje levaram-na para lugares de maior recato, quiçá, mais desinibido. Mas devem continuar a existir. Penso eu de que:).

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