
Uma das coisas de que mais senti falta durante os longos meses de confinamento foi de ir ao cinema. Bem sei que já abriram há alguns meses, mas até aqui ainda não tinha estreado um filme que me despertasse interesse suficiente para lá voltar. Essa estreia chegou finalmente no final de Agosto, com Tenet, de Christopher Nolan.
A minha relação com a filmografia de Nolan é um tanto ou quanto ambivalente. Não vi (ainda) alguns dos seus êxitos originais, como Memento (2000) ou The Prestige (2006), tendo começado a acompanhá-lo a partir de The Dark Knight (2008), o segundo filme da trilogia de Batman que realizou com a DC Comics (e que inclui o excelente Batman Begins, de 2005, e o terrível The Dark Knight Rises, de 2012). A partir daí fui acompanhando as suas incursões pela ficção científica, com o desapontante Inception (2010) e o excelente, ainda que imperfeito, Interstellar (2014). Reconheço a Nolan mérito suficiente para ficar curioso sempre que regressa ao meu género preferido, e Tenet não me desiludiu. Aliás, vê-lo acabou por se revelar numa experiência surpeendente, não tanto pelo filme em si, mas por uma breve epifania que me proporcionou mais ou menos a meio dos seus cento e cinquenta minutos.
Um dos aspectos que me deixou sempre um pouco de pé atrás em Inception – escrevi na altura sobre isso, numa crítica bem mais positiva do que me lembrava – foi a sua absoluta falta de imaginação. Ter visto o prodigioso Paprika (2006) Satoshi Kon uns dias antes da estreia do filme de Nolan não ajudou, claro – se queremos contar uma história que se passa dentro de sonhos, a animação é a todos os níveis superior à filmagem convencional, e Kon era um verdadeiro mestre. Também não ajudou ter ficado com a sensação de que toda a trama de Inception era secundária – realizador e argumentistas estavam mais focados na matrioska de sonhos que constroem com virtuosismo técnico mas sem grande rasgo imaginativo, e a história que constroem e as personagens que colocam na trama servem apenas de enquadramento, de cenário, a essa espécie de prova de conceito. Já o revi várias vezes na televisão, e a desilusão aumenta um pouco a cada vez.
Nesse sentido, Tenet não é muito diferente. Acima de tudo, Nolan está interessado em explorar as implicações da sua premissa: são encontrados objectos com “entropia invertida”, e que por isso recuam no tempo em relação à realidade como a conhecemos; existe uma vasta e ininteligível conspiração temporal que os heróis do filme terão de tentar travar, numa trama reminiscente das histórias de espiões da Guerra Fria, mas desta vez com o Presente e o Futuro em oposição. E isto alimenta o espectáculo: sequências de combate bem coreografadas, uma montagem a todos os níveis espantosa com balas a recuar dos seus alvos para as armas (quase a fazer lembrar um The Matrix que trocou a câmara lenta pela câmara invertida), um enredo propositadamente difícil de seguir que vai deixando inúmeras pontas soltas, unindo-as numa longa e frenética sequência final que dará aos espectadores mais intrigados vontade de rever o filme para ir ligando os pontos. E, claro um macguffin que não é bem o que parece (isto não é um spoiler – neste tipo de filmes nada é o que parece, e o ponto é mesmo esse).
Mas, como disse no segundo parágrafo, Tenet não me aborreceu – antes me proporcionou uma revelação algo óbvia, tanto sobre o filme que via como sobre o filme que vi há dez anos. De certa forma, a ficção científica de Christopher Nolan é uma espécie de adaptação muito livre e muito informal dos contos de Philip K. Dick. A meio do filme veio-me à memória o conto Paycheck, de 1953 (já adaptado ao cinema num filme miserável com Ben Affleck e Uma Thurman – se os leitores ainda não viram, recomendo que assim continuem), no qual Dick utiliza um conjunto de objectos sem relação aparente entre si para montar um puzzle narrativo, com as peças a encaixarem-se em múltiplas reviravoltas. Regra geral, na ficção curta de Philip K. Dick (e mesmo na longa) não encontramos um grande interesse nas personagens – o foco reside quase exclusivamente na ideia, no conceito intricado que desafia alguma parte da realidade tal como a conhecemos. Isso vale por si só; tudo o resto é cenário, é contexto. Serve para orientar, para ancorar a ideia num momento muito específico, para lhe dar volume e textura, mas não mais do que isso.
Tanto Inception como Tenet são apenas e só isso: ideias, conceitos que Nolan quer exprimir utilizando a linguagem do cinema para dar ao público não um filme mas um puzzle audiovisual. As personagens, por exemplo, são meros adereços, não tendo qualquer outro propósito em si. Em Inception ainda lhes tentou dar (e falhou) algum passado, alguma existência, mas em Tenet nem se esforçou: por exemplo, nunca conhecemos o nome do protagonista interpretado por John Daniel Washington, que a dada altura passa a identificar-se precisamente como… Protagonista (consigo imaginar o momento da escrita do guião em que Nolan terá pensado “que se foda”). Sabemos os nomes das outras personagens, interpretadas por Robert Pattinson, Elizabeth Debicki, Dimple Kapadia, Michael Caine e Kenneth Brannagh, mas, na prática, saber ou não saber os seus nomes vai dar ao mesmo, considerando o que o filme revela sobre cada uma delas. Não são ditos os contornos exactos da conspiração temporal – vão sendo dadas algumas pistas, mas tudo isso é tão inconsequente que pouca utilidade tem. Tudo o que interessa é o puzzle – é a missão impossível para recuperar o macguffin, e é ver as várias peças a rodarem no grande ecrã, encaixando-se entre si, numa espécie de Tetris com espingardas automáticas. Ou, se recuarmos a Inception, ao sonho dentro do sonho dentro do sonho (uma vez mais, com espingardas automáticas).

Em última análise, será talvez essa a diferença fundamental entre Inception e Tenet, e Interstellar – existe neste uma humanidade que simplesmente não existe naqueles. Inception diz-nos que Cobb aceita aquela missão para tentar recuperar os seus dois filhos, mas o espectador nunca vê as crianças, não sabe que pai era Cobb, ou que tipo de relação tinham. Tenet também não nos dá muitas pistas sobre quem é o Protagonista – de onde vem, o que quer, que tipo de pessoa é para além dos traços muito gerais com que é caracterizado (há o possível romance, mas também não sabemos muito sobre Kat; e, sim, existe uma revelação final, mas isso não mais do que outra peça do puzzle – no que ao Protagonista diz respeito, continuamos no escuro). Pelo contrário, Interstellar mostra muito bem qual a relação entre Cooper e Murphy, ou entre Amelia e o Professor Brand – e por isso sabemos muito bem o que está em causa quando percebemos, com as personagens, as consequências do desfasamento temporal (haverá outras críticas que possam ser feitas ao filme – é possível que Nolan, ao tornar as suas personagens mais humanas, tenha escorregado um pouco para o melodrama, e a lógica do final será sem dúvida discutível, mas ao menos as personagens de Matthew McConaughey e Anne Hathaway são tridimensionais, e os actores conseguem fazer alguma coisa com elas). Ali existem de facto consequências – elas são palpáveis, moldam as personagens, forçam-nas a ter de lidar com elas.
Ao contrário do que poderá talvez parecer, isto não é uma crítica algo áspera a Tenet. Pelo contrário: a partir do momento em que o filme me mostrou que devia ser considerado nos seus próprios termos, consegui apreciá-lo muito bem por aquilo que é. E Tenet é um filme de acção espectacular e electrizante, com um enredo ridículo e, convenhamos, irrelevante. Temos balas a recuar no tempo, temos perseguições e tiroteios a decorrer a partir de pontos de vista temporalmente desfasados (a montagem é soberba, e será premiada), e temos um puzzle para ir montando ao longo de duas horas e meia, unindo os pontos para ver enfim aquilo que Nolan nos quer mostrar – e para perceber que aquilo que ele nos queria mostrar era apenas aquilo que mostrou até chegarmos ali. Era o caminho, e não o destino. Não existe em Tenet grande filosofia sobre viagens no tempo (há muito cinema e muita literatura sobre o tema; posso dar sugestões, até mesmo sobre algo tão específico como objectos a recuar no tempo), como não existe grande reflexão sobre a natureza da consequência a partir do momento em que o nexo de causalidade é invertido. Nada. Christopher Nolan, uma vez mais, não está a especular sobre o que quer que seja, nem está a tentar passar qualquer mensagem, não pretende filosofar. Está só a mostrar-nos um puzzle, e a resolvê-lo diante os nossos olhos. E isso é divertidíssimo.
(Saí da sala com curiosidade de rever Inception com novos olhos. Julgo que continuará a desiludir-me, até porque tenho um termo de comparação. Mas talvez o consiga apreciar um pouco mais – não pelo filme assombroso, complexo e repleto de grandes desempenhos que poderia ter sido, mas pelo filme engenhoso, ainda que vazio, que foi.)

Está só a mostrar-nos um puzzle
Exactamente como o palíndrome original de onde tirou o nome e provavelmente a ideia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Sator_Squa re
Há coisas que não são para serem explicadas 🙂 Aliás, relendo as ideias sobre o Inception pergunto-me se não seria bastante mais literal introduzir uma paisagem onírica ou propriedades absurdas no filme (estaríamos mais perto do chavão) em vez de perturbar com saltos e loops intelectuais uma trama linear que repete com mais verosimilhança uma acumulação de realidades.
cumpts
Sempre que falo do “Inception” tenho de recomendar “Paprika”. Não há volta a dar.
Obrigado pelas ligações. Já me deu que ler, e ajuda a perceber algumas referências 🙂
Não vi o Paprika, mas vou procurar. Obg.
Espero que goste! Há algumas pérolas na animação japonesa que vale bem a pena descobrir. A infelizmente curta filmografia de Satoshi Kon (faleceu em 2010 devido a um cancro) merece ser vista.
As opiniões, seja da critica especializada, seja do público em geral sobre Tenet dividem-se, há quem goste bastante e há quem argumente que Nolan se perdeu um pouco dentro deste puzzle que tentou montar. Pessoalmente gostei, mas Inception continua a ser um filme superior comparativamente a Tenet, mas claro que tudo isto vem do gosto de cada um e no final o que conta é se o filme entreteu quem o foi ver.
Devo confessar que também só vivi Memento há muito pouco tempo, é um bom filme, embora lhe recomende que veja The Prestige logo que tenha possibilidade, é brilhante e tanto Christian Bale como Hugh Jackman estão em excelente plano.
A crítica está bastante dividida, de facto. Eu, como disse, gostei do filme.
“Memento” e “The Prestige” serão vistos na próxima vez que os apanhar no cabo (ou quando os encontrar nos serviços de streaming).
O Prestige é brilhante e recomendo (se mais nada pela brilhante aparição de David Bowie. Nunca vi o Memento mas gostava de ver, tenho o TENET na minha to watch List.
Se puder, veja numa sala de cinema. Vale bem a pena.
Não li tudo, apenas a parte até ao “continuar a ler”, já que não me apetece ver spoilers :).
Duas notas: é pena que não tenhas visto os filmes mais antigos. Memento é um belo exercício em virtuosismo. Insomnia, um exercício de controlo. The Prestige será talvez o melhor filme dele, pela forma como foge em parte aos seus temas habituais e devolve um filme de imensas texturas e diferentes níveis de interpretação (e pela forma como adapta brilhantemente o livro original).
Não sei se Inception me terá desapontado. O período final, com as acções na neva, cheiram a uma tentativa de ver se o deixam de facto fazer aquilo que lhe apetece, mas todo o período anterior no filme é fascinante e cria um universo intrigante. O final é desapontante, mas o filme em geral? Não concordo.
Se não tiveres preconceito contra a animação japonesa, vê “Paprika”. Julgo que perceberás onde quero chegar quando digo que o “Inception” me desiludiu.
(e se gostares vê também “Perfect Blue”, do mesmo realizador, para perceberes onde tem andado o Darren Aronofsky a inspirar-se)
Ando há anos a evitar o The Prestige por querer ler o livro do Christopher Priest, mas tenho de me deixar disso. Com a pilha que tenho por ler, não chego lá tão cedo.
Olha que dá para combinar. Nolan fez uma excelente recolha do livro, mantendo aquilo que precisava e deixando outras coisas. O livrotem uma estrutura bastante única e ter visto o filme antes não me retirou prazer. Tirando o período inicial do livro em que esperava por algumas cenas do filme, rapidamente me habituei e me deixei levar por uma paisagem familiar mas nova.
Isso é fazer uma boa adaptação – perceber que nem tudo o que funciona num livro pode ser transposto para o enredo de um filme. Costumo dar o exemplo do “Blade Runner” do Ridley Scott, que adaptou “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do Philip K. Dick. Os argumentistas atiraram borda fora para aí metade do livro (na prática, toda a vertente religiosa/metafísica do livro, a obsessão pelos animais eléctricos, etc) e focaram-se no essencial da trama: andróides ilegais regressaram à Terra e há um polícia que tem de os eliminar. O resultado foi um filme clássico; caso tivessem optado por uma adaptação mais literal, seria um pastelão insuportável.
Verei o filme na próxima oportunidade, sem dúvida.
(e digo isto quando gosto mesmo muito do início do livro, que tem uma das mais memoráveis aberturas da literatura de ficção científica – e que também se perdeu na adaptação)
Tentarei ver o Paprika assim que puder