
Sempre ouvi críticas à falta de civismo dos portugueses. E ao contrário de outras, estas são fáceis de fundamentar. Basta repararmos no lixo que se acumula nos areais das praias, nas bermas de estrada e nos centros urbanos para encontrar abundantes provas de que a acusação tem fundamento. Mas esse défice de cultura cívica observa-se também na condução, seja em estrada, seja no trânsito das cidades e no comportamento das pessoas sempre que surgem situações de stress no espaço público. Em tempo de pandemia, mais uma vez o desrespeito pelos outros tem-se manifestado das mais diversas formas, através de comportamentos que envolvem o risco de contágio.
Ainda a um outro nível, o do envolvimento dos cidadãos em causas comuns, observa-se a mesma deficiência: a participação da sociedade civil na vida democrática é escassa, o que se reflete na qualidade da própria democracia. Temos, pois, um problema. Por isso, se algo sempre faltou nas nossas escolas foi, precisamente, a Educação para a Cidadania, disciplina que tem, entre outros, o importante papel de ensinar a viver melhor em comunidade, a exercer direitos e a cumprir deveres que afinal não são mais que os fundamentos da sociedade democrática.
Quando essa matéria foi finalmente incluída nos programas de ensino pareceu-me uma decisão que só pecava por tardia. Algo que era tão óbvio que nem merecia discussão. Até que os encarregados de educação de uma escola de Famalicão criaram um caso que está a dar que falar e, pasme-se, já teve como consequência um abaixo-assinado: https://observador.pt/2020/09/01/cavaco-passos-e-d-manuel-clemente-defendem-objecao-de-consciencia-de-pais-que-nao-queiram-filhos-nas-aulas-de-educacao-para-a-cidadania/.
Os seus subscritores defendem o direito daqueles pais a censurar uma disciplina em nome da liberdade de escolha. Pergunto-me o que se seguirá. Poderemos amanhã ter pais a proibir os filhos de frequentar as aulas de ciências naturais onde se ensina a teoria evolucionista, por exemplo. Queremos, em nome da liberdade, criar o caos, permitindo que os programas de ensino passem a ser definidos conforme as sensibilidades dos encarregados de educação?
E o que dizer de subscritores deste abaixo-assinado como Passos Coelho e Cavaco Silva, ex-líderes da nossa democracia para quem a educação cívica, pelos vistos, é uma matéria descartável?

Vamos esclarecer esta coisa simples:
A disciplina em questão vai chamar-se “Educação para a Cidadania”?
A ser assim porque não Educação para a Matemática, Educação para a Física ou Educação para o Português?
O titulo mencionado faz suspeitar pretender ser muito dirigido a qualquer corrente da moda.
-Cidadania e Civismo- não chega?
Começo por dizer que não nutro qualquer simpatia por qualquer dos ex-líderes que apontou. Mas já pensou que eles, neste caso podem ter razão?
Nunca gostei das aulas de religião e moral, fui obrigado a assistir, e no fim qual era o objectivo?
Eram dadas as religiões do mundo? éramos preparados para ser moralmente responsáveis?
Não, era única e simplesmente propaganda politica, na altura do estado novo.
Esta educação para a cidadania é dada por quem? Que formação tem o professor para dar esta disciplina?será um dos professores do Mário Nogueira?
A falta de educação cívica que apontou não é uma matéria que se aprenda numa disciplina de educação para a cidadania.
A educação cívica tem a ver com valores, e esses não são transmitidos por professores, são adquiridos ao longo da vida.
Perfeito.
E se os pais, por não terem recebido essa formação, não souberem explicar aos filhos, por exemplo, como funciona a democracia? Duvida que muita gente não sabe, neste país, como funcionam as instituições democráticas e qual o seu papel? Eu não.
Imagine então que tem dois filhos e têm essa disciplina mas com professores diferentes. Um dos professores tem uma ideologia fascista, e o outro uma ideologia comunista.
Qual dos professores vai explicar melhor como funciona a democracia? Ou melhor, saberá algum deles explicar como funciona a democracia?
Ó Teresa há determinadas matérias que para fazerem parte do ensino académico têm de ter carácter facultativo. E isso sim é que é uma prática do funcionamento democratico.
Tudo depende da forma como o programa é construído. Há anos que eu clamava pela criação de uma disciplina assim, pois é muito óbvio que a maior parte dos cidadãos não fazem ideia de como as instituições democráticas funcionam. Quando enfim foi criada, aplaudi. Para tomar parte activa num sistema, é fundamental conhecê-lo. Precisamos de uma sociedade civil mais participativa, não só para apoiar, mas para criticar e pressionar o sistema quando necessário.
Não vejo em que possa isto ser negativo.
Não tem nada de negativo, assim como também nada tem de negativo essas aulas serem facultativas e ficar ao critério dos pais a sua frequência.
Não entendo o motivo da sua pertinácia.
Faz todo o sentido que aprender as regras segundo as quais se organiza o regime em que vivemos seja matéria obrigatória. Repare: até nos Estados Unidos, país de matriz acentuadamente liberal, essa matéria se ensina nas escolas!
Eu não digo que não se aprendam as regras, eu não acredito é que as crianças percebam a diferença entre informação e manipulação, e sendo assim os pais têm de ter a última palavra.
E se os pais forem totalmente incompetentes para transmitir esses conhecimentos, que numa democracia devem estar acessíveis a todos?
Manipulação também se pode fazer noutras disciplinas, como História e Filosofia. E aí como é, também se pede autorização aos pais para as incluir no currículo dos filhos?
Ainda bem que falou nos Estados Unidos como um exemplo a seguir no ensino da cidadania. Pena é os cidadãos de cor depois de receberem a educação para a cidadania, só ficam a perceber como as instituições democráticas funcionam depois de serem discriminados racialmente.
Mesmo assim é o que acontece. Imagine se não existisse essa pedagogia nas escolas…
Aulas de cidadania é um eufemismo para enfiar merdas de esquerda na cabeça dos miúdos. E fique descansada porque mais depressa saem de lá a cantar A Internacional e a chamar fascistas aos pais durante o jantar do que ficam com medo das teorias de Darwin e começam a ir à missa. Acho muito bem que os pais possam optar em não querer os seus filhos nessas madrassas anti-ocidentais, pró-islâmicas e pró-pretos.
Perfeitamente.
Sem dúvida, a melhor resposta até agora e muito difícil de bater.
A minha filha começou essa disciplina há 2 anos e se aquilo é educação para a cidadania, então a definição de cidadania tem de ser alterada.
Aquilo não passa de propaganda, que incute nas crianças uma série de ideias em voga e que mais deplorável do que tudo, não admite o contraditório, não admite a opção de escolha, não admite que se olhe por outro prisma.
A cidadania deveria ser também respeitar o outro, respeitar as suas ideias, mesmo que diferentes das nossas.
Mas esta disciplina não é nada disso. Pois quem não segue a bitola do argumento já definido, arrisca-se a estragar a média. Por muito bem fundamentada que a sua opinião esteja.
Como está, acho muito bem que deva ser opcional, pois sei por experiência própria o que é ter de desconstruir a formatação a que estes miúdos estão sujeitos.
Esta disciplina deveria dar-lhes os instrumentos para se formarem e para formarem as suas opiniões… as bases… mas o que dão é uma lavagem ao cérebro a estas crianças.
Quantos mais anos terão de passar sobre a dissolução do bloco soviético e a queda do muro de Berlim para que pessoas como o V deixem de apontar o comunismo como a grande ameaça que paira no mundo?
Eu espero sempre que sejam poucos: quando o esquerdismo acabar, eu páro.
Não te de acabar. Nem pensar. Se acabasse não era possível fazer o contrabalanço. Mas obrigar toda a gente a ser esquerda é que não pode ser. E é precisamente isto que esta disciplina faz. Formata a criança. Coloca-a já nos carris. Impede-a de fazer o seu livre arbítrio e de se encaixar, mais tarde, no lugar que acha melhor para si. Não é educação. É propaganda.
Sexualidade, direitos humanos e igualdade de género são temas que tratam de questões éticas. Há muita gente da direita liberal que apoia a introdução destes temas e gente da esquerda conservadora que se incomoda com isso.Portanto não é linear que isto seja uma questão direita/ esquerda. Além disso, se formos a ver, tudo se pode classificar de ideológico. Até de questões que a nossa civilização ultrapassou e que hoje são consideradas crimes, como a escravatura, pode dizer-se que têm uma base ideológica.
Yuri Bezmenov, ex-operacional da KGB e já falecido, é alguém de que poucos terão ouvido falar, o que parece ser o seu caso.
Nos anos 80 do século passado, refugiado no Canadá, deu uma série de entrevistas e conferências a propósito da operação de inseminação de ideias levada a cabo pela ex-URSS e de que ele foi um dos protagonistas.
Já nessa altura considerava que a primeira fase da operação, designada por desmoralização, tinha sido concluída nos EUA e em boa parte dos países ocidentais. Uma desmoralização cujo objectivo final era a ausência de destrinça entre o bem e o mal, a completa confusão e subversão de valores.
Os detalhes dessa operação de inseminação de ideias nas suas várias fases levaram-no a prever os protestos violentos que ocorrem actualmente nos EUA e que tenderão a estender-se a todo o mundo ocidental.
As ideias são como as sementes. O agricultor pode até já ter morrido, mas as sementes continuam a germinar.
“They are programmed to think and react to certain stimuli in a certain pattern [alluding to Pavlov]. You can not change their mind even if you expose them to authentic information. Even if you prove that white is white and black is black, you still can not change the basic perception and the logic of behavior.” (Y. Bezmenov)
Ooooo!! Eles vêm aí!
Errado: “eles” já cá estão e a generalidade das pessoas só se vai aperceber disso, de acordo com Bezmenov, depois do seu rosto ter sido esmagado por uma bota.
Que o digam os familiares dos mortos em consequência da violência “pacífica” dos protestos “maioritariamente pacíficos” que grassam em algumas cidades dos EUA, todas elas pacificamente governadas por partidários do tal partido cuja prática constitui prova de que Bezmenov, há cerca de 40 anos, sabia do que falava.
A “educação cívica” é de cariz ideológico. Do género de ideologia que pergunta “Queremos, em nome da liberdade, criar o caos?” – mas só quando está no poder. Quando não está, então o caos é criativo, defende-se “o direito à indignação” e há praias debaixo das pedras da calçada. O género de “gente cívica” que não tem pejo nenhum em entupir o estado com os seus filhos, pais, irmãos (de família e de seita), cônjuges e afins, e de usar o dinheiro de todos para as suas “causas”, por definição “justas” e “progressistas”. PS: agradeço, ainda assim, o seu post, porque me deu a hipótese de assinar por baixo das pessoas que refere.
Não tem de quê.
Penso que o que não queremos é que os programas de ensino sejam definidos pelas sensibilidades ideológicas de quem está no poder. Ora segundo a constituição: “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”
Será que a constituição estará a ser respeitada nas nossas escolas? Até a resposta a esta pergunta será subjectiva e portanto sujeita a interpretações.
Misturar o que está em causa com o não deitar lixo para o chão é que me parece desonesto.
Bem questionado.
Caro Vasco: Falar de igualdade de género, que é obviamente, um dos pontos do programa desta disciplina que mais incomoda certas sensibilidades, não é uma questão filosófica, nem política, nem estética, nem religiosa. E em rigor não deve também ser considerada uma questão ideológica. Trata-se realmente de uma questão de direitos humanos.
Comecei no lixo, em jeito de espiral, para chegar a pontos mais importantes. Questão de estilo.
O estilo também serve um propósito tal como a perspectiva numa fotografia, não é inocente.
Sou todo a favor dos direitos humanos e tenho um filho a ter esta disciplina e a trabalhar sobre isso.
Começando num princípio base, a igualdade entre sexos, pode-se ir parar a muitos discussões diferentes. Não sei se o que é transmitido às crianças é objectivo e livre de convicções sociais e políticas que não serão universais. Se a igualdade de género incomoda certas sensibilidades não se estará a ir para além do que seria uma visão objectiva e não ideológica da questão?.
Não adianta ficar a discutir no vazio, mas talvez as certezas absolutas de uns choquem com as certezas absolutas de outros. No final quem terá realmente razão?
A igualdade de género é consagrada pela constituição. Se ainda incomoda certas sensibilidades então o problema será dessas sensibilidades. As leis derivam de escolhas.
De dois ditadores,esperava o quê? Só enganam quem se deixa enganar!
Vendo quem assina o documento,tenho todas as razões para desconfiar da torpeza desta empreitada.
Passos Coelho,o mentiroso-mór que ganhou eleições proclamando que não faria cortes nem mexeria nos impostos.
Clemente, o cardeal que passa bem sem feriados religiosos,desde que anunciado pelo mentiroso-mór. Descarto desabafos penosos desse homem cujo reino não devia ser deste Mundo.
Do Cavaco,Pide encartado,está tudo dito.
Se esta tropa vos merece confiança,votai neles!
Engraçado que começa o seu comentário a queixar-se do “mentiroso-mor” e depois barafusta por causa de uma mentura descarada “a do “pide encartado”). Só valem emntiras se forem ditas pela outra parte, é?
Deixem o Passos Coelho em paz, se alguma coisa tinha a pagar está mais que pago.
Existe outro prisma de observação respeitável, que considera ter sido Passos roubado por esticão.
Legislar semelhantes “programas de ensino” diz muito sobre que Assembleia da República por ali vai subsistindo.
Defender semelhante legislação diz sobretudo muito mais sobre o autor do texto.
Colocar uma foto com Passos Coelho a liderar Cavaco Silva para ilustrar o texto é um curioso caso patológico, certamente algum ódio de estimação.
Caso patológico talvez seja execrar o ensino de temas como “direitos humanos, desenvolvimento sustentável, segurança rodoviária, bem-estar animal e voluntariado”.
Passe bem.
Será que vão obrigar os alunos muçulmanos ou alunos ciganos a frequentar aulas de identidade de género? Quero ver.
Seria uma excelente ideia.
Finalmente! Pensava que só a Esquerda tem direito a Objecção de Consciência ? Que Privilégio…
Educação para a Cidadania é uma disciplina de Religião e Moral Neo-Marxista.
.
Quando os Conservadores dominavam o estado tinham a Religião e Moral agora que a Esquerda domina o estado quer a sua Religião e Moral.
lucklucky
Bom tiro.
Lucklucky: Para sim, quem e o quê não é marxista ou neo-marxista? Se calhar nem a senhora de Fátima lhe escapa!
correcção: para si
No caso em questão os pais podiam optar por os miúdos não frequentarem “Educação Visual”.
A disciplina de “educação para a cidadania” (ou merdas de esquerda como alguém lhe chamou) não é opcional é obrigatória.
A escola serve para instruir, a família serve para educar.
Cidadania aprende-se em casa ou não, Teresa? Precisamos que o Sócrates ou o Costa nos ensinem (ou melhor ensinem os nossos filhos) a ser bons cidadãos?
Não, não é seguro que a cidadania se aprenda em casa. Basta olhar em volta, como comecei por referir no texto. Em viagem são detalhes como a boa preservação do meio ambiente que revelam aos forasteiros qual o nível de desenvolvimento do país a que chegaram, por exemplo.
Concordo consigo em tudo , Teresa. De civismo e cidadania nas nossas crianças e jovens, tem-se visto muito pouco e muito mau.
Depende das crianças e dos jovens. Em última análise depende dos pais, dos avós e do contexto (é preciso uma aldeia para educar uma criança).
Os pais não podem (na minha opinião) deixar que a escola/o estado os substitua no papel de educar.
Uma criança que atira um papel ou um pau de gelado para o chão a culpa não é da escola nem do estado é dos pais, é da educação que receberam em casa.
Outra coisa é a instrução, o aeiou, 2+2=4, esse sim, é o papel da escola.
Post Scriptum: Maria Dulce, tenho lido com proveito e muitos sorrisos as conversas que tem com a neta, não está à espera que seja a escola/o estado a ensiná-la que os papéis não se atiram para o chão, pois não?
Viva Pedro. A boa prática dos direitos e deveres dos indivíduos em sociedade não tem a ver com papeis ou paus de gelado . Isso não é cidadania é higiene, limpeza , também ecologia e não, claro que não pode nem deve ser a escola a ensinar o básico que são os princípios fundamentais da Educação e que se aprendem em casa. Na escola devem sim aprender a usar esses mesmos princípios básicos fundamentais para saber interagir com o mundo, ou seja viver em sociedade. Famílias funcionais não podem recear que a Educação para a Cidadania ajude a criar pequenos monstros de Frankenstein, não faz qualquer sentido.
Obrigada por ser assíduo nas nossas “conversas”. Boa semana
É gritante, Dulce. Só não vê quem não quer.
No meu caso tenho desculpa, como só vejo do olho direito (a foto prova-o) tenho tendência a embirrar com aqueles que têm uma visão do mundo moldada pela extrema esquerda, pela ânsia de proibir, de limitar, de impedir a escolha, resumindo, de impedir a liberdade.
Os pais que não conseguem, não podem ou não querem educar os filhos em casa acho óptimo que os obriguem a frequentar as aulas de educação para a cidadania.
Os pais que conseguem, podem e querem educar os filhos em casa acho óptimo que possam optar pela não frequência das aulas referidas.
No caso específico, como os dois miúdos têm muitas actividades extra-curriculares, podiam não frequentar as aulas de Educação Visual, as de Educação para a Cidadania é que não.
Faz algum sentido?
Educação Visual é, na minha opinião, claro, uma disciplina estruturante, recordo com saudade o muito que aprendi e o novo olhar sobre o concreto/o real que essas aulas me proporcionaram.
Aquilo que estamos a falar é a diferença entre liberdade (conceito de direita) e igualdade (conceito de esquerda) entre as pessoas que prezam a liberdade de escolha e a meritocracia e os que preferem a igualdade na mediocridade.
“Aquilo que estamos a falar é a diferença entre liberdade (conceito de direita) e igualdade (conceito de esquerda) entre as pessoas que prezam a liberdade de escolha e a meritocracia e os que preferem a igualdade na mediocridade.”
Para mim, é bem pior do que isso.
No plano das ideias, a Liberdade é um princípio, aquilo que nada antecede, aquilo de que nada depende, enquanto a igualdade nunca é mais do que um valor. Enquanto a liberdade é intemporal, a igualdade pode ocorrer num momento para logo desaparecer no momento seguinte; as mais das vezes é uma concepção virtual idealizada, sem realização possível na vida humana.
E a igualdade na mediocridade não é realizável.
Em cultura militar – que por vezes tem alguma utilidade em análise de sociedades – costumava perguntar-se aos neófitos qual a velocidade de um pelotão, e a resposta, quase nunca encontrada, era de uma simplicidade elementar: a velocidade do elemento mais lento do pelotão. Claro que se poderiam deixar alguns para trás, mas então já não era um pelotão.
No mero plano racional, a igualdade só se pode estabelecer pelo mais baixo padrão. Ou, alternativamente, recorrendo à eugenia para elevar o padrão mínimo. Aconteceu em sociedades primitivas, aconteceu com Hitler, aconteceu nos EUA no séc. XX.
Sempre no plano racional, pode demonstrar-se que uma imposição de igualdade começa sempre por uma privação de liberdade para alguns e acaba sempre pela morte de muitos mais. No plano das ideias, de todos.
A extinção total, apenas não acontece porque, à medida que a igualdade se desenvolve, vão sendo destruídas as instituições – aquilo que eleva o povo a nação – e, mais tarde ou mais cedo, um pequeno grupo apodera-se da sociedade já sem capacidade de defesa. Na Rússia foram os bolcheviques, em França os militares de Bonaparte.
Há formas de igualitarismo “soft” sendo uma das que está mais em voga, a imposição de quotas. Estas têm sempre como resultado o abaixamento do nível geral e a insatisfação dos melhores que, ou se desinteressam ou se excluem (mudam de actividade ou emigram) o que por sua vez gera novo abaixamento do nível geral, num processo que pode começar como uma pequena gravidez indetectável mas com desenvolvimento tão inexorável como aquela.
Se alguém tem dúvidas, sugiro que observem o que está a vir a público sobre o Líbano, onde o sistema de quotas não impediu uma guerra de 14 anos, uma ocupação estrangeira de mais de 20 e a actual implosão do sistema político, judicial e administrativo, com exclusão, por enquanto, da polícia e do exército.
P.S. – Infelizmente já nem me surpreende que duas grafonolas em feed-back se imaginem a chegar à verdade que “só não vê quem não quer”.
Grande lição, obrigado!
Caro Pedro Olivbeira:
Engraçado: quando a direita fala da esquerda é sempre à “extrema esquerda” que se refere. Como se a esquerda democrática não existisse. Mas compreende-se. É sempre mais fácil argumentar no pressuposto que se tem pela frente um “comuna”, com uma visão colectivista da sociedade. Só que a avaliar pelos resultados eleitorais obtidos ano após ano, durante o regime democrático, esses são a minoria. Depois do PREC nunca mais foram representados pelos partidos do poder. Por isso acho extraordinária esta fobia pelos “conceitos de esquerda”.
Eu, como todos os que se identificam com a esquerda democrática, também gosto do conceito de liberdade, pois não sou fã de ditaduras. E considero a meritocracia um meio justo de ascensão social. Mas a liberdade de que a direita gosta é a que abre caminho ao darwinismo social. A lei da selva. Não é, de facto, um modelo de civilização em que me reveja. A natureza humana é o que é, por isso são necessárias regras para viver melhor em sociedade. E as regras têm sempre um efeito: coarctam a liberdade individual em nome de valores, ou se quiser, do bem-estar colectivo.
E o que ensina a disciplina de Educação para a Cidadania? A ser um bom cidadão? E o que é ser um bom cidadão? Uma boa pessoa? E o que é uma boa pessoa? É a que cumpre os ditames do Governo? Qualquer Governo?
Como as coisas estão, ensinem mas é culinária e primeiros-socorros, higiene pessoal e uns pozinhos de bricolagem.
Boa!
Culinária para as meninas e bricolagem para os meninos, como no tempo da outra senhora, não é?
Não, não é.
Você vem para aqui com sete pedras na mão, porque acha que uma disciplina que nunca fez falta é agora indispensável, sem considerar como ela é facilmente politizável, doutrinária, e quase indistinguível do respeitinho (a outros valores) no tempo da outra senhora. Os valores de cidadania aprendem-se em família e em comunidade, não se impingem como um rolo compressor, por um Estado inimigo do indivíduo.
Culinária, Primeiros-Socorros, Higiene Pessoal, Bricolagem. Para meninas e meninos. Porque não é preciso chamar um electricista para mudar um fusível num reóstato. Porque um corte não se trata como uma queimadura. Porque o perfume não substitui um banho. E porque fazer uma boa sopa não é difícil.
Agora diga-me, sabe mudar uma fechadura? Retirar um transformador dum circuito? Substituír uma torneira? Costurar uma ilhós num cortinado? Mudar a bóia num autoclismo? A minha filha sabe. A maioria das avarias domésticas resolve-se com um alicate e uma chave-de-fendas.
Se prestar atenção, verá que não faltam idiotas de todas as idades que nem sabem cozer um ovo. E para quê, há a Uber Eats, não é?
Quanto a CPR, sei porque a minha mãe era enfermeira. Toda a gente devia saber.
Portanto, e antes do mais, ensinem os miúdos a ser autónomos. Nem todos terão criados para lhes fazer a papinha.
E finalmente, no tempo da outra senhora havia Trabalhos Manuais, e sim, os meninos aprendiam a fazer bolos e as meninas a soldar.
“Os seus subscritores defendem o direito daqueles pais a censurar uma disciplina em nome da liberdade de escolha.”
Logo me tinha parecido que iniciar considerações sobre civismo, que não oferecem matéria para controvérsia, e depois arrematar com considerações sobre cidadania, era uma metodologia suspeita, para dizer o mínimo.
Depois procurei o abaixo-assinado que desconhecia e lá encontrei:
1 – é “imperativo que as políticas públicas de educação em Portugal respeitem sempre escrupulosamente, neste caso e em todos os demais casos análogos, a prioridade do direito e do dever de as mães e pais escolherem ‘o género de educação a dar aos seus filhos’, como diz, expressamente por estas palavras, a Declaração Universal dos Direitos Humanos“.
2 – é ainda citada a Constituição da República Portuguesa, mais concretamente o artigo 43, referente à relação entre o Estado e a Educação: “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”.
3 – não querem que os filhos frequentem as aulas de Educação para a Cidadania e Desenvolvimento (ECD) — disciplina em que se discutem temas dos direitos humanos, igualdade de género, sexualidade ou mercado de trabalho.
Senti-me logo tentado a concluir que foi descuidada ou desonesta mas, atentando ao ultimo parágrafo em que sugere para os citados que o civismo é descartável quando eles apenas se opuseram a questões incluídas na cidadania (não quero dizer que o sejam ou devessem ser) é ilógico ou desonesto.
Falar no assunto A e no assunto B e porque terceiros se incluem em B, concluir que se incluem em A, chama-se uma falácia; e em qualquer caso não é bonito. Se foi consciente é abjecto.
Em pleno século XXI falar de sexualidade nas escolas ainda provoca histeria, falar de igualdade de direitos ainda convoca o horror e ensinar o que são direitos humanos ainda é motivo de discussão. Isso, para mim, é que é abjecto.
Expuz com clareza um vício de raciocínio, mas não se explicou nem se desculpou.
Ficou claro – não apenas do meu comentário mas de vários outros – que o que pretendiam o subscritores, era o exercício do direito internacional e constitucional dos pais, de recusarem a “formação” estatal, mas nem contestou o direito nem aceitou a recusa; ao invés fez acusações intempestivas de histeria, horror e discussão.
Parabéns. Conseguiu um excelente suicídio de carácter.
P.S. – Já tive duas oportunidades de referir neste blog o conúbio maçónico-esquerdista que domina o ministério da Educação. Pelos vistos também tem projecções externas.
P.S.2 – No intróito da sua propaganda doutrinária, escreveu “… a Educação para a Cidadania, disciplina que tem, entre outros, o importante papel de ensinar a viver melhor em comunidade, a exercer direitos …” mas quando pais tentam exercer direitos, já é histeria, horror e discussão.
O que me ocorre como comentário, é: sectarismo, incoerência e défice ético.
O abaixo-assinado parte da conceção objetivamente errada de que a educação das crianças é, e pode ser, um exclusivo dos pais.
Na verdade, a educação de uma criança faz-se de múltiplas influências: a do pai, a da mãe, a dos avós, a dos irmãos, a dos colegas, a da escola, a dos professores individuais, etc.
É errado e, de facto, impossível, os pais pretenderem ter o monopólio da educação dos seus filhos.
Os pais têm que entender que a disciplina de Educação Cívica é apenas uma, de entre múltiplas, influência educacional que os seus filhos sofrerão.
Finalmente apareceu alguém com eles no sítio para denunciar a pouca vergonha de uma “disciplina” escandalosamente ideológica e tendenciosa. Pelos comentários já lidos já vejo bem o sentido de democracia e de liberdade de quem as diz defender… Educação para a cidadania, sim! Propaganda ideológica de gente mais estreita e tacanha do que os que pretende atacar, não. Já agora, para alguns, entre promessas e realidade que diferença vai entre Passos e Costa? Ou será que não vão ao supermercado?…
Qual é o espanto de que haja uma disciplina ideológica? O nosso Estado tem valores. Esses valores devem ser transmitidos às crianças e jovens.
O Estado assinou a Convenção dos Direitos do Homem, logo, os valores inscritos nessa Convenção são valores do Estado. O Estado tem uma Constituição que proíbe a discriminação racial, logo, o anti-racismo é um valor do Estado. O Estado decreta a igualdade legal entre mulheres e homens, logo, essa igualdade é um valor do Estado. O Estado proíbe que se venda carne de cão nos talhos, e essa proibição deriva de um valor do Estado.
O Estado português tem valores, tem uma ideologia, e é normal que ensine esses valores às crianças e jovens.
Não é desejável nem aceitável, nem sequer possível, que as crianças sejam educadas apenas e exclusivamente pelo pai e pela mãe. As crianças podem e devem ser (e são sempre) submetidas a múltiplas influências.
Curiosamente essa mesma Convenção que o Estado assinou prevê que “O Estado, no exercício das funções que tem de assumir no campo da educação e do ensino, respeitará o direito dos pais a assegurar aquela educação e ensino consoante as suas convicções religiosas e filosóficas.”
Pesquisei na internet e, curiosamente, não consegui encontrar o texto completo do abaixo-assinado (e os seus subscritores). Alguém me sabe dizer onde ele está?
Pessoalmente, preferia que houvesse menos disciplinas obrigatórias (Português, Matemática e Filosofia (arte de pensar, debate, etc e não como é dada actualmente) como base para todos os curriculum) e mais opcionais, logo a partir do 5º/7º um pouco à semelhança do sistema alemão (embora aí sejam categorizados pelas notas de final do 1º ciclo e não haja grande liberdade de escolha), no entanto considero que uma cadeira similar à do sistema japonês “Economia de Casa” seria a meu ver bem implementada, onde se aprenderia como cuidar de uma casa (cozinhar, limpar, pequenas reparações, etc), responsabilidades do cidadão (como pagar impostos, preencher declaração do IRS, saber interpretar a lei, etc) seria uma mais valia no sistema português.
No entanto, no que concerne a esta disciplina no que me é dado a perceber esta cadeira apresenta um conteúdo que é altamente ideológico e portanto não cumpre a constituição, logo mais cedo ou mais tarde esta disputa em particular irá ser vencida pelos jovens e pais.