Um caco contador de histórias


Cristina Torrão,

O Jornal Católico do bispado alemão de Hildesheim tem, na sua última página, uma pequena secção reservada aos leitores intitulada “Isto é-me sagrado” (em alemão: Das ist mir heilig). O leitor envia uma fotografia de um objecto, ou de uma imagem, que lhe seja sagrado/a e explica a razão. Em muitos casos, trata-se de idosos que, em crianças ou jovens, se viram envolvidos no êxodo dos refugiados alemães. Antes da 2ª Guerra Mundial, a Alemanha possuía territórios no Leste: a Prússia Ocidental e Oriental, hoje pertencentes à Polónia e à Rússia. Nos últimos meses do conflito, com o avanço do exército soviético, os alemães que aí viviam, pelo menos, os que sobreviveram aos soldados russos, tiveram de fugir, deixando todos os seus bens para trás. Tratava-se quase exclusivamente de mulheres, velhos e menores de dezasseis anos, já que praticamente todos os homens em idade militar tinham sido alistados. Assim se juntaram milhares de refugiados, obrigados a marchas desgastantes de milhares de quilómetros, no Inverno rigoroso de 1945. Escusado será dizer que muitos não sobreviveram e havia menores a viajar sozinhos, não só órfãos, também alguns se viam separados das mães e avós, na confusão que se gerou. Sobreviventes dessa época aproveitam esta oportunidade que o jornal lhes dá para falarem de pequenos crucifixos, ou figuras de santos, que acreditam tê-los ajudado nesses tempos difíceis.

Na semana passada, porém, surgiu algo diferente. Gostei de um leitor de Berlim que mostrou uma relíquia oferecida por um monge budista. E gostei mais ainda de verificar que o jornal católico não teve problema nenhum em publicar o pequeno texto. A história vale bem a pena e mostra que, salvaguardando as diferenças, todos ganhamos ao aceitarmos lições de outras confissões religiosas. Em vez de nos concentrarmos no que nos separa, é bem melhor aproveitar o que nos une. Aqui vai o que Holger Doetsch, de Berlim, escreveu (tradução minha):

Caco do Camboja.jpg

«Em 2013, fundei, com amigos, uma instituição de apoio a crianças, no Camboja. Numa das minhas visitas, descobri um mosteiro no meio de um bosque, a oito quilómetros de Siem Reap. Apenas quatro monges budistas lá viviam. Um deles levou-me a um salão, cujo interior tinha sido destruído pelo fogo. Explicou-me, então, que, em 1977, mais de quarenta monges tinham sido ali queimados vivos pelo Khmer Vermelho. Em seguida, abaixou-se, apanhou este caco do chão e deu-mo, dizendo: “Sempre que se apanhe a queixar-se disto ou daquilo, olhe para este caco. Verá como os seus problemas se relativizam”».

24 comentários em “Um caco contador de histórias”

  1. Não fiquei assim tão surpreendido, pelo simples facto de o hediondo crime ter sido perpetrado por comunistas dos Khmer Vermelhos. E todos sabemos que os religiosos não morrem de amores pelos comunistas.
    Mas não deixa de ser digno de referência.

    1. Mas se fosse um jornal muçulmano tinha publicado a história de como os Khmer Vermelhos obtiveram uma grande vitória contra os cães infiéis — felizmente chacinados ali pela acção corajosa dos combatentes — e a foto era um troféu magnífico e não um memento mori.

        1. No sec. XX surgiram vários estados comunistas muçulmanos. Que deram origem ao denominado socialismo islâmico. Iemen e Argélia são exemplos. O Iemen é actualmente a casa dos maiores fundamentalistas islâmicos do mundo.
          Arafat e Abdel Nasser sempre tiveram ideologias de extrema esquerda e eram próximos dos soviéticos, não apenas por questões de estratégia logística, mas também por questões de ideologia política.
          Apesar de alguma contestação, alguns historiadores defendem que o próprio Estado Islâmico é de ideologia comunista.

        2. Não há diferença praticamente nenhuma entre essas duas ideologias. A filosofia é a mesma (o pensamento único) e as imposições que isso acarreta na prática para as formas de estar em sociedade também são idênticas (a sindicância do pensamento único). E note bem, também, como os regimes comunistas e islâmicos no norte de África e até na África central foram durante muitos anos o conveyer belt desses proselitismos, apoiados pelo dinheiro do tráfico de droga proveniente da Coreia do Norte (agora substituído pela Venezuela) — e o financiamento de grupo terroristas e separatistas um pouco por toda parte.

          Tanta gente a ver tevês e a deixar-se entranhar por todas as patranhas dos jornalistas — ficaram cegos para as evidências mais simples.

          1. Confesso que não queria ir tão longe, porque sinceramente, não estava com paciência para iniciar um debate de idéias com pessoas que não têm capacidade para discutir aquilo que não lhes convém.
            Mas depois da extensão à minha análise feita pelo V. vejo-me obrigado a continuar. Por isso, se nos atacarem, atacam aos dois.
            Se formos a estudar o terrorismo no sec.XX, vemos que as bases, os métodos e os objetivos se encontram quase sempre associados a regimes comunistas. Só mais tarde se alargam aos fundamentalistas islâmicos. No entanto, pouco ou nada muda, no que concerne ao objectivo final.
            Agora venham lá os ataques dos ofendidos.

          2. É conhecida a simpatia e as relações perigosas entre os partidos comunistas e regimes como o de Khaddafi com a ETA o IRA — e é conhecido que o regime Líbio estava apoiado em tráficos de diversas qualidades.

            Se investigarem um bocadinho até encontram relações de várias organizações-fachada do PCP (são mesmo muitas) com o regime Líbio, para onde havia viagens nos anos 90. Era de tal maneira que até vários intelectuais portugueses no início iludidos pela honestidade dessas “ONGs” que promoviam valores cívicos como a Paz e outras tretas de esquerda mais tarde se afastaram delas com alguma violência verbal. (Aliás, o ser de “esquerda” é agora um conceito que aponta para outras direcções mas mantém a simpatia muda ou declarada pelo avanço da islamização uma vez que o primeiro objectivo é a destruição do ocidente democrático e liberal — e tudo ajuda nessa primeira linha de combate, desde o AO, os plataformistas do Porto no governo, o Louçã no Conselho de Estado até ao Black Lives Matter. Vem tudo do mesmo lado e vai tudo na mesma direcção.)

  2. ‘…com o avanço do exército vermelho…’
    Que medo não deveriam ter esses alemães, pudera, sabiam o que os militares, ss e outra tropa nazi fez a milhares de russos na operação ‘barbarossa’.

    1. O medo era maior nas mulheres alemãs, aliás sofreram com as constantes humilhações e milhares de violações por parte dos russos.

      1. Pois, as tropas alemãs e os ss até levavam chocolates para as raparigas russas.
        Agora, os malvados dos russos e ainda por cima comunistas só queriam pinocar.

    2. A operação barbarossa falhou. Já os russos conseguiram fazer mal a um muito maior número de russos, do que os nazis. Por incrível que pareça.

  3. A defesa do universalismo por católicos não me surpreende nada. E a lição dos monges budistas é inspiradora.
    Era uma ideia a rubrica do jornal citado ser replicada por terras lusas.

  4. O mal é sempre relativo, quase sempre há um mal maior.
    O que não torna o mal menor menos importante.

    Fazem-me sempre impressão aquelas pessoas que quando alguém lhes diz “está a pisar-me” respondem “o que é isso comparado com ser atropelado?”.

    1. Relativizar nem sempre é boa ideia, é verdade.
      Mas, por vezes, exageramos com os nossos “problemazinhos”.

      Essa do pisar e do ser atropelado nunca tinha ouvido. É realmente de mau gosto. E o relativizar, embora possa ser útil, nunca deve servir para desculpabilizar.

  5. Inicia o seu texto:
    “O Jornal Católico do bispado alemão de Hildesheim tem, …”

    É igual, mas preferiria a palavra ‘diocese’:

    “O Jornal Católico da diocese alemã de Hildesheim tem, …”

    Gostei muito de o ler.

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