Há quem viva dentro de uma bolha


Paulo Sousa,

Perante os números que desmentem os cartazes que há uns meses mandaram fazer às crianças, nem tudo está a correr bem, nem a caminho disso.

A correlação entre os novos casos de covid na região de Lisboa e os transportes públicos superlotados apareceu há mais de um mês nas noticias através dos empregados da Sonae da Azambuja. Depois disso voltei a ouvi falar da lotação dos comboios de linha de Sintra através de uma publicação de um familiar no Facebook. Entretanto já entendemos que o actual problema do (des)controlo da pandemia no nosso país resulta exactamente do facto de existirem pessoas que não se podem dar ao luxo de estar confinadas em casa, porque assim arriscar-se-iam a morrer não pela doença mas pela cura.

Quem tem a sorte, ou o mérito, de na actual situação poder trabalhar a partir de casa, consegue assim o melhor dos dois mundos, uma vez que continua a produzir riqueza e a manter a economia em movimento, e ao mesmo tempo resguarda-se de ser infectado nos transportes e nos espaços públicos.

Mas claro que existem sempre aqueles que vivem num mundo pequenino e cuja visão não vai além do seu próprio umbigo.

Não chegassem todos os privilégios que têm em relação a quem trabalha no privado, os Sindicatos da função pública vem agora exigir mais dinheiro pelo privilégio de poder trabalhar a partir de casa.

O governo se estivesse de facto a negociar com eles deveria terminar com o tele-trabalho e assim contar com eles no seu posto de trabalho à hora habitual. Mas o que está é apenas a tentar garantir o seu voto nas próximas eleições. O interesse do país é um detalhe.

22 comentários em “Há quem viva dentro de uma bolha”

  1. Quando os livros deGeorge Orwell são um manuais de instruções não se espere a verdade.

    Segundo a DGS, os jornalistas e boa parte dos políticos o vírus não ataca quando há manifestações de esquerda, também não ataca transportes públicos.

    Hoje já não é “anti.patriotico” nem “aproveitamento” criticar a DGS e o Ministério da Saúde…

    Porquê? porque a critica foi feita pelo PS.
    Nesta “democracia” temos as criticas toleradas apenas quando são feitas pelo poder.

    lucklucky, o kulak

    1. Nesse caso que refere não se trata de simples críticas à governação mas sim, e como aqui bem disse o nosso colega jpt, uma tomada de posição na luta interna do PS pelo poder pós-Costa.

  2. “Mas o que está é apenas a tentar garantir o seu voto nas próximas eleições.
    O interesse do país é um detalhe.”
    Tinha que ser PM.
    No momento xis para não continuar a sobrevivência como cadáver politico.

      1. Referia-me a António Costa, o que na verdade não tinha ficado nada claro.
        No momento em que percebeu que tendo derrubado Seguro por este ter ganho por poucochinho, quando as perdeu entregou-se nas mão do PCP e do BE no visível e único intuito de resgatar o próprio cadáver politico prestes a descer à cova.
        Obrigado pela atenção.

        1. Não por o apoiar, mas acho que António Costa não é um cadáver político ainda quente. Ele comporta-se em conformidade com o que o rodeia, seja orgãos de soberania, o próprio PS, oposição, imprensa etc, e todos o consideram habilidoso e suficiente.
          A surpresa que interrompeu esta percepção foi a tentativa de tirar o tapete pelo seu delfim Medina. Se dentro do PS há mal-estar para com Costa isso pode também significar que a realidade face à pandemia pode ser bem pior do que o que nos andam a mostrar. Veremos.

  3. É verdade que as (algumas, claro) pessoas em teletrabalho acabam por fazer mais horas. Em alguns casos, aí dependendo das chefias, o controlo é maior (conheço casos em que eram obrigados a reunir às 09:00, mesmo sem nada para discutir).
    Mas a mais-valia não se resume à poupança nos transportes. Adiante.
    Na minha opinião, em situação normal, o teletrabalho devia ser um “direito”, e não uma obrigação, até porque nem todos têm condições para tal.
    Trocar isto por mais dinheiro, é mais uma estupidez na linha de tantas outras.

    PS: o horário de trabalho continua a ser em Portugal uma condição essencial na relação entre empresa e trabalhador, quando o foco devia estar na produtividade.

    1. É sempre possível acrescentar bom senso às prácticas actuais, mas os senhores que vivem na bolha e que exigem ainda mais dinheiro pelos privilégios que já têm, não entendem que quando vão ao supermercado pessoa que os atende, juntamente com quem colocou os produtos na prateleira, com o camionista que os transportou e com o agricultor que os produziu, todos eles não o podem trabalhar à distância nem ficar em casa. Esses são cidadãos de segunda, que assumem os riscos que correm por necessidade e pelo sentido de dever. Só se podem reformar quando forem mais velhos que os que sempre exigem mais e mais. Se adoeceram não usufruem da ADSE e têm de ir para o sistema público que demora para atender 243 dias a um doente muito prioritário de cardiologia.
      E o governo não lhes explica isto.

      1. Para si é um privilégio não ter horário fixo, pagar de seu bolso a despesa com as instalações, (computador, eletricidade, papel para impressão, etc) ter de ter uma casa com espaço para trabalhar e pagar esse espaço.

        É que nem toda a gente tem uma zona de trabalho em casa, vencimento que permita comprar e atualizar um computador, rede de internet de alta velocidade. Ao contrário do que a nossa direita pensa a maior parte dos funcionários públicos são mal pagos.

        Uma post digno de Maria Antonieta. “
        “Porque é que estes estúpidos se queixam que não têm pão? Comam bolos”

        1. Para mim é um privilégio no sec XXI ter emprego para a vida, é um privilégio ter aumentos enquanto o país está a entrar na maior crise das últimas décadas, assim como poder reformar-se mais cedo do que os demais, ter uma remuneração superior ao privado (diz que os FP são mal pagos e eu não sei qual a sua referência de comparação, mas é um facto que os trabalhadores do privado recebem menos do que os diz serem mal pagos), é um privilégio ter um horário de trabalho de 35 horas semanais, e é um privilégio ter um horário de trabalho tout court, pois nos anos de vacas magras no privado despedem-se pessoas, não se fazem cortes nos benefícios.
          Veja as horas que trabalham os donos dos cafés e do pequeno comércio, que não podem ir de férias em família para manter a porta aberta.
          E é também um privilégio ter um sistema de saúde próprio enquanto o SNS fica para a ralé.
          E será que aspiram a que lhe aumentem a habitação para terem uma secretária só para trabalhar, porque a outra fica apenas para tratar de assuntos pessoais?
          Existe um mundo desconhecido fora do dia-a-dia de quem acha que o dinheiro está sempre garantido no dia certo na conta bancária.

          1. Tem de atualizar-se
            O emprego para a vida já era. A maior parte dos servidores do Estado estão com vínculos precários. O número de funcionários públicos tem vido a diminuir, ou há um plano de extermínio ou os cargos foram extintos e alguém foi para a rua.

            Os salários e as progressões de carreira estão praticamente congelados desde 2009. Recentemente o governo fingiu que ia descongelar as carreiras mas arrepiou caminho rapidamente onde isso custava dinheiro.

            As comparações com a iniciativa privada são cómicas. Se existe imensa exploração e há trabalhadores que são tratados como cães, para si a solução é tratar todos como cães, para promover a igualdade.

            Fico sabendo que defende horários ilimitados, sem férias e liberdade absoluta para despedimentos, quer no público quer no privado. A situação dos funcionários públicos para si é um ultraje.

            Calculo que adotando estas medidas virão os amanhãs que cantam.

            A ADSE neste momento dá lucro. Claro que nenhum seguro privado é capaz de fazer o mesmo para o setor privado, porque o que as companhias querem é muito lucro e nenhuns riscos. Correr riscos e focar-se no utilizador não é coisa que cheire aos capitalistas, pelo menos quando se podem pendurar no Estado.

            “E será que aspiram a que lhe aumentem a habitação para terem uma secretária só para trabalhar, porque a outra fica apenas para tratar de assuntos pessoais?”
            É mesmo a Maria Antonieta.

          2. Segundo os dados da plataforma Prodata esta é a evolução dos nr total de funcionários públicos:

            2014 656.376
            2015 659.103
            2016 664.126
            2017 669.279
            2018 683.469
            Os números de 2019 ainda não estão disponíveis

            Talvez o que diz seja verdade dentro da bolha onde habita, mas estes números da Prodata incluem a realidade que ultrapassa a sua vivência.

            Sabia que no período de maior extensão do império português o total dos servidores públicos, como agora se diz, e que incluía marinheiros, soldados, clérigos e comerciantes nunca foram de mais de 6000?

            Depois de ter mostrado como pensa e o seu conhecimento da realidade, usar a muito criativa referência da Maria Antonieta é, vindo de si, um tremendo elogio.
            Fico-lhe grato.

  4. Aparte o interesse nacional, ficaria até desiludido se os funcionários públicos, com faca e queijo na mão, não pedissem mais. Aliás, o papel dos sindicatos é justamente pedir mais – exceptuando horas de trabalho.
    No limite, o objectivo dos sindicatos é que o trabalhador receba cada vez mais, trabalhando cada vez menos, até o trabalhador só se apresentar ao serviço para receber o ordenado. E quando chegar o dia, irão para a rua exigir transferência bancária.

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