No mês passado, mal apareceram, comi cerejas. Nunca ao borralho porque nesta altura do ano não acendo a lareira e a tradição já não é o que era, ainda que houvesse vários dias em que o aquecimento global se absteve de mostrar a sua hedionda cabeça, renúncia excessivamente vulgar aqui para os meus lados.
Atochei-me de cerejas, dias a fio, mas dou-me conta de que faltou a ração anual de análises argutas sobre o Maio de 68, substituídas pela pandemia da histeria covidiana.
E foi pena. Que todos os anos redescubro com gosto quão diferente ficou o planeta depois daquele mês prometeico, a deslumbrante personalidade das estrelas que lideraram o movimento, em particular Cohn-Bendit, a aflição de De Gaulle, e a sombra imensa que a França, talvez pela última vez, projectou no mundo à boleia dos interessantes moços universitários que procuravam a praia debaixo dos paralelepípedos que arrancavam para atirar à polícia fascista (coisa que, incidentalmente, me confirmou na ideia de que o alcatrão, apesar de mais benéfico para as suspensões automóveis, tem conotações reaccionárias que têm passado desapercebidas à doutrina).
Isto lembro. Profundidades agudas bem queria recordar, mas são submergidas pelos meus preconceitos de alma simples: aquele rapazio azougado não tinha conhecido a guerra nem privações, os paizinhos que os sustentavam viviam um clima económico de progresso ininterrupto desde o pós-guerra e não viam com bons olhos que se afagasse o lombo dos meninos com vergastadas, e a esquerda em peso pendurou-se no movimento, dando-lhe uma força que não havia nenhum motivo real para ter.
Mas ficou a marca registada do disparate: os jovens, em particular se universitários, são depositários de alguma forma de lucidez que escasseia aos pais, a propriedade e a ordem pública são danos colaterais necessários do direito à manifestação, e a generosidade e a pureza imarcescível das intenções estão sempre do lado dos manifestantes, e o egoísmo, os interesses das classes possidentes e o fascismo do lado das autoridades.
Para complicar as coisas, os jovens na Primavera de Praga, pela mesma altura, e os americanos por causa da guerra do Vietname, antes e depois de 1968, os de Tiananmen onze anos mais tarde e os de Hong-Kong hoje, estiveram (discutivelmente talvez no caso do Vietname, assunto que não vou resolver aqui, por falta de vagar) e estão do lado certo da História.
Isto é uma complicação porque torna impossível, sem qualificações, arrumar a miudagem no caixote da desordem merecedora de repressão. De modo que conviria precisar que todas as manifestações são legítimas em regimes ditatoriais, mesmo que para reivindicar disparates, ou protestar contra fantasmas, mas deixam de o ser, em regimes de democracia representativa com os atributos clássicos, se implicarem a prática de crimes, isto é, a prática de actos que, se levados a cabo por um cidadão isolado, assim seriam considerados pela lei penal.
Deixemos de lado, de momento, a formação das polícias, o controle de manifestações, o casamento entre o direito à manifestação e outros direitos (como o de livre circulação, p. ex.). E olhemos para o caso das maluqueiras das pichagens das estátuas e das reivindicações, que ainda cá não chegaram mas chegarão, de remoção de estátuas de colonialistas, racistas, machistas, esclavagistas e outros istas sortidos.
Aquela canalhada do Maio de 68, de que falava acima, está hoje no poder: a maior parte é socialista ou social-democrata, e guarda dos ardores da juventude a saudosa memória de quando tinham testosterona a mais (eles; a hormona equivalente delas não me lembro de momento qual era) e calculismo a menos; muitos nunca chegaram a interromper a forte corrente de ar que lhes circulava no meio das orelhas e estão hoje, entre nós, no Bloco e no PCP; e todos, ou quase, hesitam na conveniência de cascar em desordeiros, sob pretexto de que têm acne, coitadinhos.
Fazem mal. Porque danificar estátuas, ou outra propriedade, pública ou privada, não é um caso de opinião porque é de polícia. Assim esta investigue, como lhe compete, e os tribunais castiguem, sem atenuantes se forem maiores de idade, sem agravantes mesmo que sejam precisos exemplos.
E quanto à remoção de estátuas, ou pinturas, ou outro testemunho qualquer que ofenda a delicada sensibilidade de ofendidos diversos? Quem, para existir, sinta um irresistível apelo a que se acertem contas com uma História que geralmente conhece mal, e uma incontrolável aversão a mortos cuja biografia é incapaz de interpretar à luz do tempo deles, o que tem a fazer é ou dedicar-se ao estudo ou aderir a um partido político que lhe patrocine os ódios de estimação. No primeiro caso, pode ir estudar para a madraça do professor Boaventura e, no segundo, engrossar as fileiras do Bloco, do Livre ou doutra agremiação destinada a arrebanhar chanfrados. No PCP não me parece, que aquela gente é mais para o derrube do capitalismo, e menos para acolher frescuras.
Ai e tal, diz o Daniel (que quer, o grande magano, ser lido na íntegra e eu bem gostava se estivesse disposto a dar um cêntimo para o Pravda do regime) que “as estátuas não são sagradas, a democracia sim”. Bem visto, Daniel: uma pessoa que ache toda esta querela em torno das estátuas grotesca; e que se recuse a aceitar que a arruaça é uma forma legítima de obrigar à inclusão no debate democrático de questões que praticamente nenhum democrata jamais sentiu necessidade de que lá estivessem – não respeita a democracia, que é “sagrada”.
Ahem, eu do sagrado desconfio, que sou agnóstico; e dá-se o caso de achar que a democracia nos convém a nós, mas não a toda a gente, em toda a parte, em todo o tempo. Mas, com os conhecimentos que tenho dos procedimentos, esclareço: a remoção de estátuas não está na ordem do dia; a repressão a maluqueiras às quais se quer conferir respeitabilidade, sim.

A destruição das estátuas é meta, um símbolo para mostrar poder e quem manda.
Só vai parar quando alguém responder e destruir os símbolos dos que o fazem.
lucklucky
Também podemos pichar o NB ?
WW
Ora aí está.
É um retrato tipo isto:
Vamos lá deixar crescer o cabelo, fazer umas rastas para demonstrar a nossa admiração pelo Bob, a barba é para esquecer, a bela da banhoca, também, só se for no rio e nada de sabonetes, porque somos contra as cenas artificiais, excepto o iphone que o papá ofereceu no natal, essa horrível época de consumismo.
A indumentária terá de ser obrigatoriamente 3 tamanhos acima e de preferência preta, castanha, ou verde escura, tipo tropa, essa bárbara associação de malfeitores ao serviço dos opressores.
Claro que se a t-shirt for da Benetton e os calções Panama Jack, dadas pela avó no natal, essa horrível época consumista, óptimo… o que interessa é ter uma nódoa bem à vista, depois daquele jantar no Macdonalds, essa destrutiva máquina capitalista, que explora o proletariado e mata as vaquinhas, mas a nódoa está lá.
Obviamente não pode faltar a bela da marijuana no bolso, que oferece um abrir da mente e ajuda a financiar os verdadeiros lutadores contra a opressão, lá na Colômbia e no México. Regimes que são autênticos vassalos do diabo na terra, os States.
Por falar em States, oxalá a viagem de finalistas do colégio seja para Miami.
Entretanto, começa setembro e o ingresso na faculdade privada, lá na capital.
Que sítio horrendo, a capital do outrora Império explorador das ex-colónias.
O papá encontrou um apartamento engraçado, a 700 euros por mês. Mas isso é ajudar o senhorio a continuar a sua senda da obtenção de lucro.
Por isso, vamos mas é juntar-nos em comunidade, avançar sobre um imóvel inabitado qualquer da capital e tomar aquilo como nosso.
Assim fumamos a nossa maconha, temos enriquecedoras conversas e fazemos umas festas.
No entanto, continuamos a receber do papá os 700 euros, pensando ele que serão destinados ao aluguer. Não senhor, a erva está cara. Usar esse dinheiro para ajudar o desfavorecido, que anda a pedir à porta da faculdade até podia ser, mas depois fumavamos o quê?
Estudar não será um problema, isto está de tal maneira que é com uma perna às costas, dão um canudo a um gajo ao fim de 2 ou 3 anos de curso, ainda por cima estes cursos essenciais para a sociedade. No meio de 10.090 cursos superiores, sim, dez mil e noventa cursos superiores em Portugal, ninguém nota.
Ainda para mais é preciso dinheiro para as manifestações, cartazes e afins. É muita fixe, beber uns copos, fumar uns charros e depois tapar a cara, não vá o papá e a mamã reconhecer-nos na televisão. Depois ficam aborrecidos e não me dão o Mini Cooper que me prometeram no natal, essa horrível época de excessos consumistas. Ainda por cima o papá vai comprar o carro em nome da empresa e assim as multas de excesso de velocidade daqueles nazis vestidos de azul e de boné branco, vão parar ao escritório, onde trabalham os escravos do século XXI do papá.
Hoje à noite vamos pintar umas estátuas, depois de acabarmos a garrafa de vodka que roubamos ontem no Continente. Não faz mal porque aquilo é uma organização capitalista e que explora o trabalhador.
Ainda pensamos em ir pintar as paredes da esquadra, do Novo Banco, do quartel da tropa, mas ainda nos apanham. Ao menos nas estátuas não está lá ninguém e seguimos escondidos.
Bem, agora vou ter de ir tomar banho para ir à missa com a avó, senão ela fica chateada e não me dá os 500 euros no natal (esse lamentável hino ao consumismo), que me prometeu quando entrei na faculdade.
Ass. Che
Se ninguém os levar a sério isso passa, aliás ninguém os leva a sério.
O que não passa e pesa cada vez mais são as facturas dos bancos falidos e o País endividado até ao osso.
WW
É sintomático que a pintura de uma estátua mereça tantos comentários e que o facto de aparecerem frases racistas escritas em várias escolas e em centros de refugiados não parece incomodar ninguém.
Mas umas foram feitas pelas brigadas vermelhas e as outras foram brincadeiras de rapazotes.
Estragar a estátua é crime, achar que não se deve celebrar o Padre António Vieira não é exatamente um crime. Já pintar paredes é crime e o racismo também é.
Experimente virar a sua indignação para quem defende que se ataquem pessoas que estão vivas e talvez seja mais útil.
Tudo isto é como tudo o resto. Quando alguém comete um crime, os média exploram-no até à exaustão e invariavelmente o protagonismo recai no criminoso. Raras são as excepções. Enquanto for notícia, o criminoso é a estrela do momento. Deixem de lhe dar os tais minutos de fama em tempo de antena, que passado pouco tempo já ninguém se lembra dele, exactamente porque não tem, nunca teve, nem nunca terá a importância que se lhe atribuiu.
Há-de chegar o tempo em que os “livros” deixarão de ser julgados pela capa, mas sim pelo seu conteúdo.
Boa semana para todos.
Já os romanos tinham o hábito de decapitar os bustos e substituir as cabeças pelas do novo imperador.
Não sei se queriam apagar o passado, ou era simplesmente uma medida para poupar dinheiro.
Como ouvi, não choca mandar abaixo os símbolos do passado e colocar no seu lugar símbolos com os quais as pessoas sintam afecto.
Para já, proponho cortar a cabeça ao Marquês, e colocar em seu lugar a do Centeno.
todas as manifestações são legítimas em regimes ditatoriais, mesmo que para reivindicar disparates, ou protestar contra fantasmas, mas deixam de o ser, em regimes de democracia representativa
Quando e em quê é que um regime é ditatorial, ou de democracia representativa, é muito debatível.
Esta diferenciação entre regimes ditatoriais e regimes democráticos parece-me extremamente questionável. Tanto mais que, como eu disse acima, a democracia não é uma coisa absoluta – é uma coisa relativa. Não há regimes ditatoriais e regimes democráticos – há regimes que são mais democráticos e menos ditatoriais que outros.
a remoção de estátuas não está na ordem do dia; a repressão a maluqueiras às quais se quer conferir respeitabilidade, sim
Eu pensava que o José Meireles Graça fosse, mais ou menos, um liberal. Afinal estou a ver que, em certas matérias, deixa-se dominar pelo coração, oblitera a razão, e torna-se mais amigo da repressão do que da liberdade.