
1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande “As Vinhas da Ira”; uma extraordinária Bette Davis em “Dark Victory”, um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E … Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que “my name is John Ford and I make westerns” e John Wayne nasceu.
Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes “vestidos à indio”. Todos aqueles que agoram berram o racismo do “E tudo o vento levou” nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da “construção da nação” americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual.
Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas “racistas”, “colonos”, “brancos”? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam “contagiados”, como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma “contextualização” não será mais do que isso – ou, pelo menos, os “filtristas” não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêem como “moral” do filme.
Nisto há muita gente que protesta com a anunciada “contextualização”, como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há …. “prefácios”, contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são “posfácios”. E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.
Mas não se feitas da moralismos viciosos, de “filismos” que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o “west” (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.
Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a “Tintin”, de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o “Tintin no Congo”. O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem – e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.
Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus “prefácios”. Não as ver. Não “clicar” nelas. Exactamente como fazemos com os livros – e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no “tripadvisor” que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor, não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso – sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.

O que está a dar são revisionismos.
O branco e o índio colaboravam.
A mulher da idade média manejava armas e ia à guerra (com umas artes marciais pelo meio).
Os grandes heróis da antiguidade defendiam a igualdade de raças.
Os grandes heróis da antiguidade defendiam a igualdade de raças.
Correcto. Houve uns, poucos, que defendiam a igualdade dos Homens.
Epicteto, Bartolomeu de Las Casas, Lourenço da Silva de Mendonça, entre outros, poucos, como escassos são os heróis
Chato e repetitivo : EUA,explosão ou implosão?
Quando desistiu de ser WASP , a “América” iniciou a derrocada que a levará a ser uma espécie de Brasil a norte do Rio Grande – com aplausos de Pequim e Moscovo , onde a “realpolitik” continua a ser o que sempre foi…
E como o “edge” financeiro/tecnológico ( para não falar no determinante, o militar ) americano é coisa do passado…
JSP
Cá por casa existe um livro de anedotas. É uma compilação séria, enorme, e está dividida em capítulos – religião, sexo, política, advogados, condutores, etc.
Esse livro já não deve estar à venda, e se estiver deve ser por pouco tempo, não há muitas anedotas politicamente correctas. Ora uma geração incapaz de se rir de si mesma é perigosa. Esta geração é perigosa, porque se leva muito a sério, porque é nova, e porque é ignorante. O ignorante é perigoso, porque tem certezas. E uma das certezas comuns aos ignorantes é julgarem que não o são. E são facilmente manipuláveis, e são manipulados, por gente muito inteligente.
Todas estas manifestações, contra o racismo, contra o machismo, contra a poluição, aproveitam causas nobres, e transformam-nas em actos de violência e desestabilização da ordem pública. Dantes era fácil apontar os culpados – invariavelmente os EUA ou a URSS. Hoje há outros poderes, não necessariamente países. Quem pensaria há uma curta década que um jovem como Zuckerberg tivesse nas mãos poder para influenciar eleições? Os mais informados ouviram falar de Hearst, Murdoch, Rockefeller. Duvido que sejam nomes reconhecíveis por estes marionetes que partem montras e pintam estátuas, pensando que são parte de algo novo. Fariam bem em estudar História, em vez de a apagar. Talvez percebessem as tristíssimas figuras que fazem. Porque tudo isto beneficia alguém e prejudica alguém. E estes activistas burros acabarão com a cara perpetuamente esmagada pela bota, como escreveu Orwell – que qualquer dia será tão proibido como as anedotas.
Gostei do seu comentário ,penso que mais cedo ou mais tarde, vamos ter muitas surpresas.
Este tipo de segregação cultural será partilhado pela população no seu todo?
Ou é mais uma “vibe” da moda que vai desaparecer rapidamente?
Aqui há tempos, aquando do movimento Mee Too, alguém pensou que seria bom a proibição de filmes de Woody Allen ou Roman Polanski, e na verdade conseguiram prejudicar a divulgação e a continuação da actividade do seu génio.
Provavelmente vão começar a derrubar estátuas dos nossos Reis, alguns deles responsáveis por massacres, outros pela escravatura, ainda outros pelo confisco de bens dos indígenas. Ainda se vai descobrir que “dar Novos Mundos ao Mundo” custou vidas, injustiças, segregações, genocídio e ocupações violentas.
Ou então, derrube-se do seu pedestal o Marquês de Pombal, segregador dos Jesuítas, ou excomungue-se o Rei D.Manuel, responsável pela conversão forçada de judeus e em cujo reinado ocorreu o massacre de Lisboa de 1506.
Aqueles que derrubam as estátuas devem ter vestida uma t-shirt com a inscrição “Je Suis Charlie”.
Se não tivesse havido “colonialismo” (e isto NÃO É uma defesa do mesmo):
– a esperança média de vida no resto do planeta situar-se-ia ainda entre os 20 e os 30 anos;
– não teriam medicina nem serviços de saúde pata mitigar a doença;
– continuariam -todos- governados por sobas, caciques, ditadores diversos;
– em porções das Américas, como outros locais, continuariam a praticar sacrificios humanos (os tais de arrancar o coração aos vivos no topo de pirâmides) – ou outros;
– em porções da Ásia, Oceania, e Africa, continuaria a haver canibalismo;
– já nem falo dos contributos para outras (todas ?) ciências na base do progresso humano e qualidade de vida…
– onde nasceram todas ou quase todas as ideias humanisticas ou políticas ?
– quanto à escravatura, continuaria a praticar-se – e sem necessidade dos europeus – em África,, Américas, Àsia, Extremo Oriente – como já antes existia… e em alguns locais, ainda hoje…
Sou primeiro português, depois europeu, caucasiano, e tenho orgulho nos melhores e nos piores momentos da nossa história, feita de sangue suor e lágrimas, santos e bandidos, fé, amores e ódios, enganos, sacrificios e abnegação, vida e morte, tudo isso faz a nossa identidade, dos nossos avós, que querem destruir por revisionismo, para satisfação das suas narrativas ideológicas, divisionistas. Não peço desculpas por outros tempos, outras pessoas, outros contextos, outras morais que fizeram cada contexto histórico, pois que não está no nosso direito pronunciar revisão ou julgamento à luz de qualquer (sub)cultura de moralidade contemporânea.
muito bem , na otica do jpt : sao demagogos e candidos.
Se tiver sorte, conseguirei ler quem rotule o jpt. Mas, facilitava se o proprio jpt o afirmasse.
É jogador, apanha bolas, arbitro , patrao do clube ?
Afinal, que ideais distinguem o jpt desses mariolas e que tais ?
Já teci anteriormente alguns comentários neste blogue a propósito de Marcuse e da filosofia hoje reinante no mundo ocidental. Por exemplo aqui https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ma rx-hegel-kant-e-nietzsche-11554040#comen tarios .
Em meu entender, aquilo se passa hoje, desde a censura à destruição de património da Humanidade, tem a sua génese em muito do que Marcuse escreveu, nomeadamente no que diz respeito à teoria da tolerância repressiva e à ditadura das minorias.
Neste contexto, deixo uma reflexão mais aprofundada sobre alguns aspectos da filosofia marcusiana que a realidade não se cansa de nos mostrar.
«Marcuse is responsible for the key idea that underlies the suppression of free speech on campus in Western countries where up to half the population now attends university. This idea has mutated and now takes many forms, from boycotts and online bullying to exclusion in the name of “intersectionality”. Marcuse, though, called his idea “repressive tolerance”.
This was title of an essay published in 1965 which argued that, in the prevailing conditions of “one-dimensional society”, tolerance only benefits the powerful. He denied that tolerance should be “indiscriminate”, because its function would then be “repressive”. (One of Marcuse’s innovations was to import the vocabulary of Freudian psychology into radical political discourse.) Instead, “liberating tolerance” would discriminate, i.e. be intolerant of “the party of hate”.
(…)
Indeed, Marcuse was quite frank in his dismissal of the middle and working classes as hopelessly indoctrinated by consumerism. By contrast, he saw students and ethnic minorities, plus “the unemployed and the unemployable”, as the new proletariat. They would be united under the leadership of intellectuals like himself. (…).
In One-Dimensional Man, his magnum opus which inspired the student revolutionaries of 1968, Marcuse offered an ambiguous vision. As he admitted, he vacillated between the pessimistic view that “the total administrative state” could contain any subversive challenge, and the utopian hope that “forces and tendencies exist which may break this containment and explode the society”. There was a chance — and only a chance — that this “catastrophe of liberation” would unite “the most advanced consciousness of humanity, and its most exploited force”. Marcuse foreshadowed modern identity politics, including the alliance of the Left and the Islamists.
What is most striking about Marcuse is the ferocity with which he rejected a society — the United States — that had not only given him refuge from the Nazis, but all the privileges of membership of its academic elite. What to other intellectuals was perhaps the most enviable lifestyle of any time or place, seemed to Marcuse “one-dimensional”. True, his academic career coincided with the Cold War; but Marcuse had escaped both world wars. His hostility was exclusively directed against his adoptive home, against the very people that had saved Europe from his native land. Indeed he saw “the continued empire of civilisation itself” as the new barbarism. His “critical theory of society”, an outlook that he has bequeathed to the entire tribe of the politically correct, offers no hope: “holding no promise and showing no success, it remains negative”. The true Marcusean rejects Western civilisation, but has nothing to propose instead. This is the attitude that now widely prevails on campus across the West. (…)»
https://standpointmag.co.uk/issues/decem ber-2018-january-2019/overrated-december-j anuary-2018-daniel-johnson-herbert-marcu se/
O maior problema é mesmo que existem pessoas a usar uma situação para aumentar o apoio a algo, aproveitando a total estupidez dos jovens (e menos jovens) que se deixam enganar por estas ondas.
Em 1997, surgiu um movimento cívico para defender o fim da utilização dos “profissionais liberais”. Grupos de estudantes universitários criticavam a manutenção dos recibos verdes a serem usados durante 12 meses consecutivos, para evitar pagar férias, natal e subsídio de refeição. Em 1998, uma associação de estudantes de uma universidade do Porto, registou a marca “geração rasca”. Outra, de Braga, registou “geração à rasca”. Abriu-se uma guerra entre associações de estudantes, até que se descobriu que eram 2 empresários, ligados ao PSD, que estavam a financiar a “empresa”, para anunciarem que iriam contratar os milhares de funcionários, que já usavam desde 1990, a recibo verde, passando a contrato. Entretanto, os grupos desapareceram… até 2009, quando surgiram os “trabalhados precários”. Novamente apoiados por pessoas que se mantiveram nas sombras, até que um grupo de jovens, da Universidade Católica de Lisboa e da Universidade Nova de Lisboa, registaram a marca “trabalhadores precários”, começando a vender camisolas e outros itens. Com a pergunta de onde tinham obtido dinheiro e apoio jurídico, descobriu-se a existência de uma empresa, ligada a um empresário, da região de Vila Real, que teria “emprestado” 130000 euros ao grupo de estudantes… em troca de ficar com a marca “trabalhadores precários” e gerir o marketing e receitas, do empreendedorismo. Nesse momento, os grupos foram desfeitos, reclamando do aproveitamento da situação.
Neste caso, está a acontecer o mesmo e há muitos a operar nas sombras, aproveitando a estupificação colectiva para fazer valer os seus objectivos.
Curiosamente, estamos num tempo que bastaria uma simples investigação, muito curta, para notar quem mais ganha com estas coisas e porque é que determinadas pessoas aparecem a defender isto e aquilo, poucos segundos depois de acontecer (como foi o caso do vandalismo contra a estátua do Padre António Vieira), antes das autoridades serem informadas. Será mesmo coincidência que um jovem líder partidário exigiu a limpeza da estátua, na madrugada do dia em que aconteceu o vandalismo, quando ainda nem os órgãos de comunicação tinham informação sobre tal ocorrência?
Noite de insónia.
Venho para o sofá, ligo a televisão à procura de um qualquer filme. Encalho no Bem-Hur, quando ele visita a mãe e a irmã no Vele dos Leprosos. Passei pelas brasas e acordo quando se disputa a corrida de quadrigas de cavalos, na minha ignorância cinematográfica considero ser um dos maiores momentos da arte, e volto a adormecer.
Ao acordar esta manhã, ao relembrar o acontecido não consegui evitar ligar estas duas situações do filme com a ctualidade, A pandemia da lepra de antigamente com a covid 19 de hoje, e o facto dos cavalos ganhadores, do Hur, serem brancos e os do perdedor, Messala, serem pretos.
Por acaso, este fim-de-semana supri duas graves lacunas da minha cinefilia: “The French Connection” e “A Man for All Seasons”. Vi-os em casa, mas em condições análogas ao cinema (de há uns anos, dado que ninguém comeu, bebeu ou espreitou o telemóvel). Juntos têm uma dúzia de (merecidos) Óscares, todavia, ambos devem estar a um passo do “index”. O primeiro tem como protagonista um polícia branco, brutal e racista, com tiradas memoráveis, como “You dumb guinea, never trust a nigger” ou “welcome to spictown”. Não destoa, no contexto de ruína física e moral em que o filme decorre, mas quer quer saber disso? O protagonista do segundo é ainda mais chocante, ao defender que mesmo ao Diabo deve ser dado o benefício da Lei, e que privar Satã de um julgamento justo, pior do que um crime, é um erro: “And when the last law was down, and the Devil turned ‘round on you, where would you hide, the laws all being flat? This country is planted thick with laws, from coast to coast, Man’s laws, not God’s! And if you cut them down, do you really think you could stand upright in the winds that would blow then? Yes, I’d give the Devil benefit of law, for my own safety’s sake!” Um perfeito reaccionário este, nos dias das fatwas com # – a banir urgentemente para protecção da juventude.