Assim medra a novilíngua


Pedro Correia,

 

O novo normal que nos espera

Recuperação da economia: o “novo normal”

O novo normal nos hotéis e unidades de enoturismo

O novo normal em educação

A pandemia e o “novo normal” da distopia

 

Vivemos no reino dos eufemismos. Passamos o tempo a inventar expressões para não ferir susceptibilidades alheias. A cada passo que se dá, em cada calhau onde se tropeça, logo surge alguém aos berros, reivindicando reparação pública. 

De repente, a linguagem comum encheu-se de interditos. Patrulhas ideológicas fiscalizam a todo o momento o que dizemos, condicionando a comunicação verbal, lançando anátemas sobre inúmeros vocábulos de uso corrente e assumindo-se como poder fáctico, enquanto polícia do pensamento. 

Assim nasce e medra a novilíngua – cheia de contorcionismos semânticos, cada vez mais desligada da realidade. O mais recente é também o mais ridículo: “novo normal”. Dois adjectivos que alguns pretendem elevar a substantivo. Para ocultar o significado, que é de teor oposto. 

A moda pegou – e eis que esta aberração lexical já vai sendo papagueada de boca em boca, até por jornalistas credenciados na condução de telediários. Numa espécie de mote destes tempos de linguagem fofinha e neutra, politicamente correcta: se a realidade perturba, logo se inventa um suave antónimo para a designar. 

O que em nada altera os factos, na sua evidência iniludível. Anormal. Bastam sete letras.

42 comentários em “Assim medra a novilíngua”

  1. A normalidade é um estado de espírito.
    (nunca me habituei a dizer “colaborador” em vez de trabalhador ou empregado. E estive desempregado algum tempo, mas nunca entre empregos, ou em busca de novo desafio profissional)
    Importante manter a malta calma.

    Entretanto, pelo que vou vendo, é uma questão de tempo até a Greta se irritar a sério com esta coisa do regresso do uso dos plásticos descartáveis.

  2. Frutos da escola pública — uma madrassa que só gera esquerdismo imbecil e millennials ignorantes que acreditam que “Lenine queria ajudar os agricultores” e que antes do 25 de Abril “quem dizia alguma coisa na rua era preso”. Tudo isto redigido na ortografia dos subúrbios, claro.

  3. Boa tarde Pedro Correia
    Que esteja tudo bem consigo e com os seus.
    Atrevo-me a presumir que concordará estarmos numa “normalidade nova muito democrática”.
    António Cabral

    1. Muito democrática não será. A escolha será entre uma “nova democracia” ou uma “nova ditadura mascarada”

  4. O novo normal!!!

    Aberração televisiva é cada vez mais surpreendente, e cultiva alegremente
    palermóides e anormalóides.

    Que saudades dos dois canais de TV em que a programação era para gente dita normal, hoje, faz-me impressão a CMTV e as descrições dos seus repórteres que repetem , repetem a mesma coisa durante meia hora como se fôssemos o “novo normal” da estupidez.

    Haja Paciência!!!

    Pedro Nunes

  5. Não é o pior exemplo de novilingua. Anormal é pesado demais, queira-se ou não a conotação é negativa. Há uns poucos meses não seria normal ver tudo de máscara no supermercado. Agora é. Tornou-se normal. Suponho que quando apareceram os primeiros automóveis muitos tenham considerado anormal. Deu no que deu.

    1. Tudo é anormal.
      Quando mais de 60% das famílias já estão com rendimentos reduzidos, no curto prazo de dois meses, isso é anormal.
      Quando 1/4 dos trabalhadores que ganhavam o salário mínimo perderam qualquer fonte de rendimento, isso é anormal.
      Quando 1,3 milhões de assalariados entraram em regime de ‘lay-off’ (com pelo menos 1/3 de rendimento mensal cortado), isso é anormal.

      A estas anormalidades, as luminárias políticas e mediáticas chamam “novo normal”.

  6. 100% de acordo.

    Começa logo na incapacidade de se lidar e aceitar a única certeza que temos na vida: a morte. A minha geração, salvo em famílias tradicionais, já não lidou com a morte na infância. Às crianças estava não só vedada a visão de um ente querido morto como a explicação natural da coisa. Começa aí o reino da fantasia que é alargado cada vez até mais tarde, poupando adultos de encararem a realidade. Muita psicologia e pouco bom senso.

    O disparate é tão galopante que neste mundo da ilusão não pode haver doença, dor ou morte. Ou mesmo contrariedade. O mundo das fadas acha que tudo pode ser indolor e perfeito. Daí a necessidade de a todo o momento se arranjar eufemismos, por um lado, e culpados, por outro. E de castigar os vilões que contradizem o artificial conto de fadas do pensamento único.

    1. As notícias, por estes dias, vão-se transformando em odes à bolha. A sucessivas bolhas, todas inodoras, todas indolores, todas fofinhas, todas com flores e arco-íris. Trocando o mundo real pelo mundo ideal.

      Há até um director de informação que já deu instruções expressas aos seus jornalistas para não lhe trazerem “notícias negativas” porque as pessoas “já estão fartas” disso.

      1. E os domadores do circo que nos presidem e governam vão agitando a vara ou o chicote para nos domesticar: agora deixa a rua, agora fica em casa e não sais, agora esquece os velhos, agora lava as mãos, agora põe a máscara, agora sai, agora lembra que existem velhos, agora faz compras. Agora dá a patinha e vai às urnas.

      2. Quando ao director de informação presumo que se refira a quem já julgou óptimo precipitar a falência de um Banco, mas acha péssimo que a Ana Leal assuste as pessoas com denúncias sobre falhas no combate à epidemia ou às negociatas angolanas (percebo que seja uma tentação, não consigo ver/ouvir uma reportagem dela por mais de 30 segundos).

        A parte que mais gostei foi ‘Não basta termos a nossa verdade, se isso fragiliza ainda mais uma sociedade já frágil e desorientada perante o desconhecido.’ Até me revejo a dizer uma coisa destas numa situação limite, mas um jornalista? Isto não faz soar as campainhas todas? Já se assume assim à descarada que se quer orientar e condicionar a audiência imbecil e incapaz de julgar por si.

  7. Boa parte do noticiário foi passado com o regresso das creches.
    Com toda a gente a vender o quão divertido é pôr e tirar máscara, e lavar as mãos a cada toque inapropriado (em objectos).
    Parece que é proibido dizer que isto tudo, mesmo que seja necessário (nem vou por aí), é uma valente m**da!!

    (ontem foi um vídeo de uns cromos que inventaram uma porcaria plástica para uma avó abraçar os netos. Tudo emocionado. Eu fui o único a pensar, e nem sequer abri a boca para não ser acusado de ser insensível, mas que coisa deprimente. Não tanto a solução em si, mas o facto de haver gente realmente feliz com aquilo)

  8. É espantosa a facilidade como certas mentes papagueiam a seu bel-prazer o que lhes dá na real gana. E mais espantosa se torna quando sabemos que há quem os escute e aprove.
    É impressionante a não racionalidade suficiente, ou mínima, para não deduzir que a designação de novo normal é uma imposição de aceitação do conceito de normalidade se metamorfosear num dúbio conceito.
    A aceitá-lo, o significado de normalidade deixa de ter sentido.
    Ou, o que será verdadeiramente tenebroso, é a dúvida terrificante se as acções até agora praticadas nas nossas vidas que considerávamos normais, o seriam verdadeiramente ou fomos uns anormais do caraças.

  9. Por outro lado. Inquéritos recentes levados a cabo junto à população, parte significativa mostra grande aderência ao “novo normal”.
    Não só aderência como ainda acreditação profunda, como ficou bem explícito nas palavras de Bruno de Carvalho, quando instado a pronunciar-se.
    – Vergonha! abençoados os repositores da verdade linguística nacional. Gabavam-se esses dois, andrades e lampiões, de dividirem entre ambos os campeonatos. Que era normal, diziam os parvalhões. Mas vejam agora com a nova normalidade para que lado se inclinou a glória.

  10. Boa tarde,
    esqueçam lá isso , daqui a um mês a OMS vem dizer que se enganou e afinal o vírus nem existiu .
    Caro Pedro Correia peço a sua permissão para o link abaixo .
    https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/afinal-o-coronavirus-pode-nao-se-transmitir-atraves-de-objetos-e-superficies-afirma-oms?

    Abraco ,
    Luis Almeida

    1. Estes Cientistas andam todos ao papel, a brincar com coisas sérias até parece que não existem quase 5 milhões de infectados e 316 mil mortos.

      Isto é mesmo a lampião, culpam morcegos, pangolim……mas não fecham o mercado de venda de animais vivos ,provavelmente o bode expiatório dos laboratórios próximos.

      Isto vale tudo em nome da economia ….

      Zé Palito

  11. Por falar em novo normal — houve um “Pico CGTP” de novos casos entre 6 e 8 de Maio (de uma média de 200 novos casos por dia para cerca de 500 novos casos durante esses três dias). Há maneira de saber quantos desses casos ocorreram em Lisboa e em gente que esteve na Alameda no 1º de Maio? Era giro saber quantos desses escravos da liberdade apanharam c’o novo normal e quantos espalharam a boa nova.

  12. Toda e qualquer anormalidade que venha “de fora” tem a adesão imediata, entusiástica até, dos salcedes da paróquia ( do “destanciamento social”, à “gentrificação” ” nova normalidade”, etc.), com barra livre televisiva e na imprensa escrita.
    Abortos , filhos do Aborto Ortográfico e daquilo que passa por ” educação escolar” neste local mal frequentado que já foi Pais.

    JSP

  13. Se transformar aquilo que escreveste num raro fecho de abóbada que ainda resiste na abside do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e que remete para o ‘livro dos livros’ (não existe ainda, que saiba, uma interpretação conclusiva/melhor, é ir e ver 🙂 ) percebe-se melhor o que escreveste: o paradoxo.

    Com sete ou oito letrinhas…

  14. Chega, quase a ser enternecedora (comovedora?) esta agora “normal” (aqui no DO) transcendental choraminguice dos (seus) politicamente incorrectos (& vários “compagnons de route”, numa amálgama onde se descobrem proto-fascistas, liberais, democratas-cristãos – que até nem são nenhuma dessas coisas, democratas ou até cristãos – para além dos nossos tradicionais colonialistas-saudosistas evidentemente até fora do seu tempo! Uma mensagem-surpresa para eles: Angola tornou-se independente em Novembro de 1975… 45 anos depois ainda não conseguistes compreender essa simples realidade?) que insistem em se reinventarem, que nem supostas auto-surpreendentes fénixes, em discursos verdadeiramente até mais velhos do que aqueles onde eles – pelos vistos – se descobrem a “passar” «o tempo a inventar expressões para não ferir susceptibilidades alheias»… já que, «A cada passo que se dá, em cada calhau onde se tropeça, (descobrem que) logo surge alguém aos berros, reivindicando reparação pública»… e claro, este blogue não deixa de até ser um perfeito exemplo disso! Sim, aqui, qualquer “post” colocado não só passa a ser uma dessas vítimas das tais «Patrulhas ideológicas» que (choraminga o PC) «fiscalizam a todo o momento o que dizemos, condicionando a comunicação verbal, lançando anátemas sobre inúmeros vocábulos de uso corrente e assumindo-se como poder fáctico, enquanto polícia do pensamento», como todos os bacocos que aqui inserem comentários a confirmar que são uma espécie perseguida e em vias de extinção, por parte das «Patrulhas ideológicas» do politicamente correcto, que aqui na Terra, Lua e Marte, os querem exterminar!
    Bom, mas do que é que “choraminga” este (apenas mais um novo) nosso candidato a “Galileu” perante a tal suposta censura de uma “nova inquisição” do politicamente correcto: a de que «Assim nasce e medra a novilíngua – cheia de contorcionismos semânticos, cada vez mais desligada da realidade. O mais recente é também o mais ridículo do “novo normal”: «Dois adjectivos que alguns pretendem elevar a substantivo. Para ocultar o significado, que é de teor oposto.»
    Reacção inicial: Uau! Tudo isso?
    Sejamos sinceros: “novilíngua”, para além do que o PC até se julgue com direito a uso exclusivo é, hoje, apenas um vocábulo tipo, o que ele até resolveu descrever, a propósito da sua “preocupação” com o “novo normal: «Dois adjectivos que alguns pretendem elevar a substantivo. Para ocultar o significado, que é de teor oposto.» Pode dizer tudo, invariavelmente até diz nada… ou seja, ser apenas uma manobra de diversão!
    “novilíngua”, na verdade, é apenas um vocábulo mencionado na obra literária “1984”, do George Orwell, esse alguém que até apenas era um esquerdista… mas que muitos politicamente incorrectos gostam de o mostrar como mais um dos seus… enfim, nada de novo: Cristo, no discurso de muitos deles até se tornou num defensor da sua ideologia politicamente incorrecta: ah, se o Jerónimo de Sousa (ou Francisco Louçã) até resolvesse(m) se amancebar com a filha da sua ex-mulher! Woody Allen seria uma vítima! Vadre retro satana! Nunca apenas mais um perfeito exemplo da promiscuidade das elites intelectuais esquerdistas… caso o “metoo” até nem tivesse assumido o seu natural papel de o denunciar.

      1. Caro “V.”, use-a à vontade! É que, para qualquer efeito, essa expressão até apenas tem mais de 6 séculos… e, se neste blogue, até nem lhe fica mal fazer de conta que só a descobriu ontem, menos lhe fica mal que de tudo “Do resto”, como confessou humildemente, não pescou caracol do meu anterior”post”! Este até é um blogue onde a vasta maioria dos seus frequentadores até se descobrem surpreendendidos por simplesmente existirem e, por isso, lá está, para lhe ser sincero, a “mensagem” até nem era dirigida a si: Vc., caro “V.”, é apenas um daqueles (muitos que, por aqui) continua sentado (sei eu lá onde) com uma maldita de uma cana de pesca entre as mãos, a ver se os caracóis que lhe passam à frente do seu nariz, a uma velocidade estonteante, até acabam por morder o raio do anzol onde (sabe-se lá porque razão mais evidente) V. decidiu empalar uma minhoca viva…
        Uma pergunta indiscreta: acredita, sinceramente, que o contorcionismo da agonia da minhoca empalada no anzol até vai acabar por atrair a atenção dos caracóis? Ou seja, que os caracóis são atraídos por minhocas contorcendo-se de dor pelo destino que lhes foi reservado? Ou apenas na lengalenga de que «Assim nasce e medra a novilíngua – cheia de contorcionismos semânticos, cada vez mais desligada da realidade. O mais recente é também o mais ridículo do “novo normal”: «Dois adjectivos que alguns pretendem elevar a substantivo. Para ocultar o significado, que é de teor oposto»?
        É o António Costa o “big brother”?

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