A cortina


José Meireles Graça,

O Covid19 apanhou o mundo de surpresa. Não fosse a sua facilidade e velocidade de contágio, incógnito muitas vezes porque assintomáticos têm a capacidade de o transmitir; e o seu tratamento requerer equipamentos, e pessoal para os operar, que os vários sistemas de saúde não têm disponíveis nas quantidades necessárias: as medidas de isolamento social e congelamento de actividades económicas nunca teriam ganho as proporções radicais que têm tido.

Imaginemos que havia ventiladores ao pontapé, e abundante pessoal com formação para os operar? Afinal de contas, equipamentos caros é o que não falta nos hospitais, públicos e privados: maquinetas de TAC e de ressonância magnética, por exemplo, muito mais caras que um ventilador, que custa cerca de 13.000 euros (sem IVA, porque é recuperável). Treze mil euros? O equipamento de um consultório de dentista custa muito mais do que isso.

Em matéria de Covid, números são praticamente o que cada um quiser e, fosse eu economista ou matemático, punha aqui uma data deles para ilustrar o meu preconceito. Mas como não tenho vagar para andar a escabichar preciosidades, resumo do seguinte modo, baseado sobretudo no laboratório sobre águas do Diamond Princess e números pescados aqui e ali: 80% da população é naturalmente imune (no tal barco foi menos, vá lá saber-se porquê); dos 20% infectados, até 1,9% podem morrer, até 15% requerem internamento e até 5% atingem um estado crítico.

Dou de barato as condições ideais que existiam dentro do barco para a propagação do vírus e as idades dos passageiros, e ignoro a extensão, rigor e eficácia da segregação que lá terá estado em vigor. Traduzidos estes números para Portugal, temos: os infectados poderiam chegar a 2 milhões, os mortos a 38.000, e os internados a 300.000, dos quais requereriam ventilação 100.000, isto na hipótese absurda de todos os internados o deverem ser ao mesmo tempo e não haver entretanto recuperados.

100.000 ventiladores a 13.000 euros são 1.300 milhões de euros. E mesmo tendo em conta que faltam as camas e o pessoal, e que umas e outro consomem recursos e tempo, não parece que estejamos a falar de números que sequer se aproximem da hecatombe que a paralisação da economia vai arrastar, e que estimativas conservadoras, senão tímidas, traduzem em 10 mil milhões (5% do PIB, grosso modo).

É por estas e outras que gostaria de ouvir falar menos de medidas draconianas de isolamento social e limitações da actividade económica, e mais de reforço de meios; e que presto crescente atenção às raras vozes que, por as sociedades estarem a sobre-reagir sob a pressão do pânico, lembram que a depressão económica também traz o seu cortejo de vítimas, pelo que seria talvez avisado maneirar.

Ouvimos todos os dias a desastrada ministra da Saúde, a quem saiu uma fava que não sabe cozinhar; uma directora-geral da saúde vovozinha esforçada e maternal, ambas a querer explicar o que entendem mal e a convencer a opinião pública que o que quer que as autoridades decidam é pelo melhor, segundo a melhor ciência disponível.

A ciência que há está envolta em polémica: virologistas, epidemiologistas, médicos comuns, matemáticos não se entendem. Os menos inclinados ao drama, aliás, não têm grande audiência porque as pessoas querem acreditar que o sacrifício redime e a lucidez não. E menos ainda cotejam o custo das medidas profilácticas que aconselham com o respectivo custo económico, o que aliás não sabem nem têm de saber.

Sucede que a decisão política, essa, tem de ponderar tudo. Não vamos reclamar no fim pelo tempo que levou a criar medicamentos ou vacina, nem pelas tolices que o médico A e o cientista B andaram a debitar, porque o saber científico progride pela tentativa, a discussão e o erro – não há outra maneira; mas vamos crucificar retrospectivamente quem se enganou nas escolhas.

Esta gente que nos pastoreia terá a lucidez de ver para lá do que diz a comunicação social, e do que pensa a opinião pública, essa velha rameira volúvel? E, por trás da cortina das medidas necessárias para tranquilidade pública, e para não entupirmos um aparelho de saúde sub-equipado, está-se a mexer (com o mesmo dinamismo com que inventa proibições) para que aqueles de nós que vão cair ao hospital não corram o risco de morrer de falta de ar, mesmo tendo chegado a hora de esticar o pernil?

38 comentários em “A cortina”

  1. É pena não haver ventiladores a pontapé. Até haver ventiladores, tratamento, vacina, algo tem de ser feito. Não dispomos de múltiplas realidades, não podemos ver como seria com várias respostas. Discutir o se, e se, e se, significa, na práctica, não fazer nada – o que aliás foi a política de muitos países até a realidade chegar. E na realidade todos temos, todos os dias, de tomar decisões sem ter a certeza se são as melhores. É um exercício estéril, contemplar o “se”.

  2. Nestas matérias onde se mistura vida e dignidade convém não andar à pesca de números.

    Dos 50 aos 80 anos a taxa de mortalidade, total , por Covid-19, é de 28%, sensivelmente.

    Em Portugal, a traços muito largos, serão mais de 3 milhões de pessoas com idades compreendidas naquele intervalo etário.

    Quanto à falta de investimento na Saúde, presumo que tenha sido por obrigação da tão santificada Economia. A tal “ciência”, que através de regras inventadas, justifica, justificou, a morte, objectiva e concreta, de milhões de pessoas. A fome mata mais que a bala.

    As previsões epidemiológicas actuais são baseadas em medidas profiláticas. Mudando as últimas, perdem sentido as primeiras.

    O conhecimento científico é objectivo. A sua interpretação, não. Daí a necessidade de prestarmos atenção aos Especialistas e Instituições mais creditadas, e não a quem gosta de mantas, sobre o pernil, e cortinas de olhados.

    1. “Nestas matérias onde se mistura vida e dignidade convém não andar à pesca de números.”

      Então 5 ou 10 vidas é igual ao litro?

      Vê, como quem se quer mostrar sem pecado “capitalista” facilmente cai no pecado “comunista”?

      lucklucky

  3. “80% da população é naturalmente imune”

    Fontes, por favor.

    Naturalmente imune significa que, 80%da população não ficaria infectada, o que é um absurdo (infectada não é sinónimo de doente ; seropositivo não significa ter a doença, mas, sim, estar infectado)

    1. “80% da população é naturalmente imune”

      Veja lá se saca dali alguma coisa, caro Vorph.
      Não é por nada, mas estou vivamente interessado em saber.

      Feliz Páscoa e votos de que, se por menor favorecimento Divino ou científico, – à escolha de cada um, – não for um feliz contemplado da natural imunidade, que escape na mesma sem danos indesejáveis.
      Um Abraço.

    2. Imune à doença que o vírus induz, não ao vírus em si, como imaginei fosse óbvio. De resto, por um excesso de precaução, escrevi que no barco tinham sido menos de 20% os infectados porque a percentagem exacta é disputada, mas 20% é o número que este senhor, em https://www.jpost.com/HEALTH-SCIENCE/Israeli-nobel-laureate-Coronavirus-spread-is-slowing-621145 , que não é exactamente um amador, indica (“Those are extremely comfortable conditions for the virus and still, only 20% were infected”.)

      1. Imunidade natural significa imunidade intrínseca de um organismo a um microrganismo. Deve substituir imunidade natural por imunidade adquirida, não se sabendo, ainda a duração desta (6 meses como na gripe?).

        Prefiro estudos epidemiológicos baseados em modelos e amostragens mais representativas da “realidade”.

        Claro que o “spreading is going to slow”, como em qualquer epidemia/pandemia. Faz parte da curso natural de qualquer doença “natural/infecto-contagiosa”

  4. Bom dia , há um ditado antigo que diz que temos de enterrar os mortos e cuidar dos vivos , hoje não nos deixam enterrar os mortos com dignidade nem cuidar dos vivos .
    Luis Almeida

  5. “5% atingem um estado crítico”

    Isso traduz o quê, exactamente?

    Incapacidade permanente, com necessidade de cuidados médicos continuados? Implica ficar numa cama, auxiliado com uma botija de oxigénio? Implica o cônjuge se dedicar totalmente ao apoio de quem fica em “estado crítico”?

  6. [eu] gostaria de ouvir falar menos de medidas draconianas de isolamento social e limitações da actividade económica, e mais de reforço de meios [de saúde]

    Mas o José Meireles Graça já terá reparado que Portugal (tal como muitos outros países) está a tentar a todo o custo fazer isso, isto é, reforçar os meios de saúde, e não está, genericamente, a ter muito sucesso. Em grande parte, porque Portugal não está a conseguir, com a velocidade desejável, adquirir mais ventiladores, já para não falar do álcool e das máscaras que faltam em todas as farmácias.

    Ou seja, aquilo que o José Meireles Graça pede já está a ser feito, mas com escasso sucesso – e não é somente Portugal que está a ter escasso sucesso, outros países também.

  7. José, no que é o tema principal de seu texto falta o rigor científico para determinar a mensagem que pretende passar. A polémica e e/ou contradições entre pessoas, nesta matéria, não traduz e nunca traduziu uma verdade, mas a dúvida.

    Porém é verdade que existe uma paranóia que surge de um sector de puristas que dizendo-se ateus, mas possuidores da verdade, criam um dogma em torno do bicho. Creio que estes estão à espera do elixir da vida que os projectará para além da eternidade. Vem isto a propósito para demonstrar como se criam elementos de substituição, deidades e deísmos, para propagar uma crença que se centraliza.

    No entanto para contrariar os coitadinhos e as coitadices, existem números que desmontam as teses:
    dos 100% de idosos, incluindo os com patologias várias, menos de 10% perdem a vida nas mãos deste vírus;
    Existe sim uma capacidade do organismo de desenvolver anticorpos que contrariem o bicho, mesmo sem qualquer intervenção médica e, depois de contrariado o bicho, sem possibilidade de o propagar. Porque este perdeu seu capacidade;
    Existem, sim, camas. Nos hotéis, que poderão ser utilizados para se instalarem ventiladores e aí tratar os doentes que necessitem cuidados.

    Também é mentira que isto mude, porque a natureza humana não se muda pela acção de devastação de um bicho. O que vai mudar são os processos como usaremos esta mesma natureza. Assim, os profetas da desgraça estão aí para ocupar tempo e fingir que tudo muda, pretendendo mudar e moldar a seu prazer os acontecimentos; pois eles mesmos demonstram que não mudam e simplesmente se contradizem, pelo medo e cobardia. Também vemos isto por aqui e nos mais diversos comentários.

    Eu não acredito que o mal venha dos que “nos pastoreiam”, mas dos que são pastoreados. E são muitos, mesmo quando afirmam que assim não permitem e nunca permitirão. Desabafos de quem não se ocupa e muito se pré-ocupa.

    E não, ninguém deve ser crucificado pela ignorância. Os únicos crucificados que conheço são aqueles que o foram por muito saber.

    1. O que é um idoso? Quantos são? 10.000, 1.000.000, 2.000.000?

      DEATH RATE

      80+ years old

      14.8%

      70-79 years old

      8.0%

      60-69 years old

      3.6%

      50-59 years old

      1.3%

      “Existe sim uma capacidade do organismo de desenvolver anticorpos que contrariem o bicho, mesmo sem qualquer intervenção médica e, depois de contrariado o bicho, sem possibilidade de o propagar. Porque este perdeu seu capacidade”

      Asneira. Por essa linha de raciocínio poderíamos relativizar sempre qualquer doença, infeção, etc….desde a SIDA, Ébola, passando por um abcesso dentário, ou uma pneumonia bacteriana (garanto-lhe que antes da descoberta e uso de antibióticos – ex: antes de 1930 – muitos se curavam sem antibióticos e muito menos sem intervenção divina).

      O bicho perde a capacidade de se propagar até a imunidade adquirida deixar de existir.

      Isto sim é uma desgraça e quem usa o sofrimento para fazer libelos ou manifestos políticos deveria ser empalado (não me refiro a ninguém em particular, atenção!!!)

      https://www.youtube.com/watch?v=EK7QbQhqddY

      1. Meu caro Vorph,

        é simples o que eu disse, e repito. E o que disse é verdadeiro. Quem quiser interprete à sua maneira. Mais claro que isso não posso ser.

    2. José Meireles, só para acrescentar que todos os equipamentos e acessórios para o combate a este vírus deixaram de ter IVA cobrado, mesmo os que vêm de países extracomunitários.

  8. uma directora-geral da saúde vovozinha esforçada e maternal

    Não me parece muito adequado fazer comentários sobre o aspeto físico nem sobre a idade da senhora.

    De resto, nas suas posições políticas ela não me parece nada vovozinha nem nada maternal. Pelo contrário, ela parece-me uma ditadora que se esforça continuamente por mostrarque a epidemia vai durar sempre muito mais tempo e que portanto é preciso limitar ainda durante muito mais tempo a nossa liberdade.

  9. A visão dos empresários chineses -num País politicamente organizado em capitalismo de Estado- é invejável.
    Como é que eles sabiam que tinham que se tinham que dedicar, empreender, na criação de aquelas gitgantescas fábricas de ventiladores, com tanta antecedência?.
    E fábricas de máscaras de cirurgias. E testes para mais um corona vírus vindo da China. E o que mais adiante se verá. Invejável argúcia empresarial.

    1. Eu diria mais que é incapacidade dos outros! Até o Trump disse que não podiam estar tão dependentes da China. E cá em Portugal,vão descobrindo e adaptando várias indústrias. Acho muito bem. Com a ganância da mão de obra ao preço da chuva, ninguém produzia nada. É tudo “Made in China”. Violá…

  10. A comunidade de Madrid, com 7M de habitantes já vai em 5 mil mortos. Se imaginarmos que estão agora a passar o pico, não é de estranhar que morram mais 5 mil. A Lombardia, com 10M de habitantes, teve já 7 mil mortos e está longe de dar o caso por encerrado. Isto com quarentenas muito mais restritivas que a nossa.

    Mas bora lá assumir que podíamos simplesmente comprar 10 mil ventiladores (aos 13k€ normais!), esquecer que alguns dos que Espanha comprou ficaram retidos quando o avião parou para reabastecer na Turquia (que só os libertava depois quando não fossem necessários na Turquia, e que dias depois supostamente decidiu libertá-los sabe-se lá em troca de que favor diplomático), que Israel meteu a Mossad há meses a comprar ventiladores e essas cenas. E vamos assumir que qualquer bicho careta opera 10 mil novos ventiladores de modelos que nunca viu (sei por testemunho de enfermeiros intensivistas que não é assim).

    No fim disto, tínhamos 4000 mortos, menos de metade que regiões com a mesma população que a nossa, mais ricas e mais bem preparadas que nós, e que fizeram quarentenas. Porque sim.

    Ouça, com o devido respeito, se os médicos da Lombardia nos dizem que isto não é brincadeira, que se não queremos ficar como eles ou pior temos que fazer alguma coisa, se calhar é acreditar. Ou então não nos queixarmos da desumanidade e falta de empatia dos holandeses cujos velhinhos assinam papéis de não ressuscitação e vão morrer a casa.

    As escolhas são essas, não são fingir que somos os melhores do mundo a comprar ventiladores. Nesse mundo cão (como se isso bastasse) ganhava o Trump mandando GM e Ford produzí-los em massa, e desviar importações de outros países pagando o que for preciso para rasgar os contratos já assinados.

    1. Não fui conferir os seus números, mas está a falar num caso de 0,07% e no outro de 0,1% sobre o total da população. No exemplo que dei no texto a percentagem de mortos implícita sobre o total de habitantes seria de 0,38% (100×0,2×0,019), ou seja, cerca de quatro vezes essa que apresenta como aterradora, sem todavia a comparar com surtos anteriores de outras infecções víricas como a gripe. Esta é mais assustadora por causa do contágio por assintomáticos, que desperta um reflexo natural de medo, por parecer ter uma predilecção por infectar os pulmões de forma aguda e discriminar negativamente os velhos, implicando, na falta de equipamentos, mortes particularmente horríveis e escolhas perturbadoras para os profissionais, e por se propagar com facilidade e rapidez. As suas comparações com outros países que têm quarentenas do mesmo tipo não provam nada sobre o mérito das políticas – nunca o facto de, para se lidar com um problema, uma maioria de países adoptar uma mesma abordagem implicou indiscutivelmente que essa abordagem fosse a melhor. De resto, se ler com atenção descobrirá que, mais do que rebater as medidas da quarentena, o que manifesto é o desejo de haver quem sopese as coisas e inclua na equação os danos à economia, que podem com facilidade, se quem governa se deixar governar por pânicos pilotados por uma comunicação social ávida de excitações e uma opinião pública infantilizada, vir a causar também mortos e consideráveis desgraças protraídas no tempo. Finalmente, na verdade todas as semanas aprendemos mais alguma coisa sobre o vírus; e todos os dias a esmagadora pressão da opinião pública cede um bocadinho – quando houver um número suficiente de pessoas que não têm emprego, nem recursos, e das quais se espera que fiquem em casa com o louvável propósito de morrerem de fome, o entusiasmo popular com o auto-confinamento esfumar-se-á por si.

      1. Por isso, para si é assim. Conta-se a percentagem dos mortos, se for aceitável, que se lixe, vamos lá tomar café.

        No exemplo que deu no texto falou de 3800 mortos em 10.3 milhões de habitantes. A Lombardia tem os mesmos 10 milhões e já vai em 7 mil, menos de 10 mil não terá. Quer corrigir as suas percentagens, ou acha que está tudo bem?

        As quarentenas não são parecidas. Em Espanha e Itália não se pode sair à rua com crianças ou em grupos de mais de 2 pessoas, os restaurantes não podem fazer entregas, e genericamente toda a produção não essencial está fechada. Mas adiante.

        Aquilo que está a defender está rapidamente a tornar-se indefensável, sabe porquê? Porque os estúpidos dos contra-exemplos teimam em desaparecer. Primeiro foi o Reino Unido, depois os Estados Unidos, a Suécia será algures esta semana com uma taxa de mortalidade 5 ou mais vezes superior aos seus vizinhos, até o Japão declara estado de emergência amanhã. Todos sofrem de falta de visão que o José tem.

        Novamente, com o devido respeito, eu já disse isto neste blogue há umas semanas. Querem defender que a economia tem estar aberta, muito bem. Agora não é fingir que isso não é problema porque lamentavelmente morrem umas pessoas e ninguém nota. Essas pessoas morrem nos hospitais, a consumir recursos escassos, com os trabalhadores a esmifrarem-se para lhes dar os cuidados esperados dum país de primeiro mundo. Pessoalmente, acho absurdo países como a Índia tomarem o mesmo tipo de medidas. Mas ou assumimos que as pessoas que apanham isto são para ser isoladas, deixadas morrer se for o caso, e queimadas sem funeral para não contaminarem ninguém, ou não escapamos à disrupção.

        É supremamente ingrato olhar para Madrid, onde além da quarentena se montam hospitais de campanha com milhares de camas (centenas de cuidados intensivos), onde o esforço para comprar ventiladores é tão alto como em qualquer outra parte, e no fim tem pessoal da frente infectado aos milhares, e uma morgue numa pista de gelo, e pensar “que de lixe a quarentena, rápido e feio é melhor que isto.”

        1. Caro Nuno, posso sugerir que vá ao euromomo, e compare esses picos de mortalidade com os de Janeiro de 2017 (penso que o de 2014 já não está tão imediatamente acessível).
          É que os números cita para Itália, que naturalmente têm uma maior expressão na Lombardia, onde há uma população envelhecida e com pulmões fragilizados por décadas de má qualidade do ar, são menores que os dos surtos fortes de gripe, em que os hospitais também colapsam.
          Peço-lhe por favor que não use o estafado argumento dos caixões porque o que se viu sobre os caixões resulta de se ter concentrado as pessoas em hospitais de referência e das regras instituídas por causa de uma doença, complicada, com certeza, para os grupos de risco, mas cujos efeitos na mortalidade não ultrapassam os dos picos fortes de gripe.
          Portugal não teve nenhum surto forte de covid, como wuhan, Lombardia, Madrid ou Nova Iorque, portanto fique tranquilo que até à primeira semana de Maio, quando a epidemia tiver acalmado em toda a Europa e Estados Unidos, a mortalidade em Portugal dificilmente terá chegado sequer a metade da média anual da gripe.

          1. Henrique, pode ser assim na Lombardia, mas não na Escócia:
            https://www.youtube.com/watch?v=ejlbCmRJMW4

            Mas uma coisa também é real, a França entrou já em colapso económico. E esta é a grande mudança para a Europa que há uns dias aqui afirmei ser a grande causa de mudanças na UE. Resta compreender agora se é para solidificar a Europa ou, devido a uma reacção da população, parti-la de vez.

            É este o primeiro e derradeiro desafio que a Alemanha e outros países a norte terão de enfrentar. A polónia é dos americanos; o UK é de si mesmo e dos seus membros da Commonwealth; a América pertence-se e o Japão acabou de anunciar a injecção de USD 1 Trillion.

          2. Não percebi o que não era assim na Escócia. A epidemia é igual em todo o lado (a sua intensidade varia com uma data de factores externos) e como todas as epidemias pulmonares, cresce duas semanas, tem um pico, e desaparece em duas semanas

          3. ” onde há uma população envelhecida e com pulmões fragilizados por décadas de má qualidade do ar”

            O caso dos internados com necessidade de cuidados intensivos, no exemplo que dei, situa-se ao nível dos 50 anos para baixo.
            Parece que o bicho troca as voltas de região para região.

          4. Santa paciência. Isto não se discute com médicos intensivistas a descrever o que é uma sala de cuidados intensivos onde foram concentrados todos os doentes que, de outra forma, estariam espalhados em vários sítios.
            Não me diga que é a primeira vez que há pessoas abaixo dos 50 anos com dificuldades respiratórias por causa de uma pneumonia.
            O número de casos nessas circunstâncias é completamente marginal

          5. Discute-se, sim, também com esses médicos, pois é através deles que recebemos os dados que nos permitem estabelecer estatísticas.
            Mas não é esse o ponto da situação. O ponto é desmistificar os escalões etários onde o bicho provoca as “suas brincadeiras”. Mas também, aproveito agora, para desmistificar que acção mortal do vírus não cobre todos os idosos, pois a maior parte deles, cerca de 92%, e refiro-me aos infectados em tratamento, são recuperados. E refiro-me também a faixas dos 80 para cima.

          6. Ainda como acréscimo, Henrique, importa também avaliar, no futuro, a quantidade de utentes que morreram devido à falta de assistência, ou pela precária assistência, em virtude de se terem canalizados esforços para esta covid sem salvaguardar a retaguarda, os doentes crónicos que também importa assistir.
            Estou em crer que a taxa de mortalidade poderá ser elevada.

          7. Caro Henrique, claro que, em princípio, tudo indica que em Portugal vamos ficar com uma mortalidade bastante abaixo da Lombardia, Madrid ou Nova Iorque. Muito me surpreenderia aliás se o nosso “resultado” não fosse dez vezes melhor que Itália ou Espanha, e possivelmente cem vezes melhor que algumas partes da Lombardia. O problema é que neste caso “dez vezes” é mais ou menos “uma semana.”

            Ao contrário do que possa parecer, eu até sou sensível ao argumento de que se exagerou nas medidas em Portugal face à evolução da epidemia cá. Que talvez fosse possível obter (quase) o mesmo resultado com medidas menos gravosas. E que é importante ter uma estratégia de saída. Mas não é esse o ponto. O ponto é: é preferível tomar as medidas antes ou depois de chegar ao ponto retratado nas notícias e relatos abaixo? Porque uma coisa é certa, em todo o lado, quando a coisa apertou, tomaram-se medidas tão ou mais gravosas que as tomadas cá. Estarão todos errados?

            https://twitter.com/MarkLevineNYC/status/1247156159896748032
            https://www.ecodibergamo.it/stories/bergamo-citta/coronavirus-the-real-death-tool-4500-victims-in-one-month-in-the-province-of_1347414_11

            Aquilo a que eu não sou sensível, e me impressiona bastante aliás, é ter pessoas bastante respeitáveis a olhar para notícias como as acima com a atitude de “eh, nada de especial.”

            Talvez no futuro venhamos a saber exactamente o que se passou em Wuhan, mas se numa das regiões mais ricas de Itália não conseguem cremar os mortos suficientemente depressa, se em Madrid precisam de improvisar uma morgue numa pista de gelo, e se em Nova Iorque estão a considerar enterrar os mortos num parque em valas comuns depois de gastarem as morgues e os camiões frigoríficos da cidade e arredores, parece-me um bocado excessivo dizer que são tudo problemas de organização, que isto não é pior que uma gripe má, e que é um exagero tentarmos evitar isso cá.

            Não é com esse argumento que convencem ninguém.

          8. Outra vez a história dos caixões? E Janeiro de 2017 morreram mais pessoas por lá que agora.
            A diferença é que na altura as funerárias funcionavam, os enterros tinham uma lógica local e não havia procedimentos especiais, cheios de cuidados para evitar contágios.
            Os caixões acumulam-se porque administrativamente são concentrados num sítio, quando eram dispersos, e o tratamento dos corpos decorre da ideia maluca de evitar contágios por causa de uma doença que tem uma mortalidade semelhante à da gripe

          9. Resta-me então pedir ao Henrique a
            que continue atento ao MoMo, tendo especial atenção à parte que são números e à parte que são estimativas (pois os números finais, mesmo em condições normais, demoram semanas a chegar).

            Daqui a um par de meses saberemos se esta pandemia foi ou não pior que a grande gripe de Janeiro de 2017.

          10. A Áustria anunciará ou não o no-lockdown até ao fim-de-semana. A Suécia também enveredou pela mesma via e pretende o no-lockdown.

            Portanto, parece-me que pouco a pouco os países acabarão por assimilar o princípio proposto pelo José Meireles e encararão a situação presente como simples baixas sazonais que se juntaram à mesma porta de uma vez e sufocaram (é uma figura de estilo sem significado emocional).
            Acredito que Portugal, salvaguardadas as necessárias condições sanitárias, avançara progressivamente com a medida a partir de Maio. As perdas serão co-financiadas pela UE.
            A desgraça económica da França, que há muito se pretendia esconder, poderá ser a salvação do sistema.

            Os números económicos do José são pouco relevantes nesta matéria, pois sem estas medidas os números de baixas, e baixas de serviço, seriam maiores e com a delapidação da capacidade do SNS e da SS, com maior peso para o sector produtivo em matéria de impostos; e o consequente aumento de perda de competitividade, aumento de preços e redução de poder de compra.
            Com uma agravante: o sector de serviços de exportação, o turismo, estaria sempre condenado pelo bloqueio externo. Pois se o “padeiro” não cose o pão porque o cereal não chega, também o que vende vitrinas, arcas, batedoras para a massa, tendedeiras, fornos… não sobreviveria. O sector de distribuição também perderia receita pela falta de turistas e não acabaríamos aqui.

            Assim, José Meireles, pouco poderíamos fazer e crescer mesmo que nada tivéssemos feito para conter o bicho.

  11. “Esta gente que nos pastoreia terá a lucidez de ver para lá do que diz a comunicação social”

    São os mesmos, por isso como podem ver mais?
    Esta gente só nos pastoreia porque a comunicação social os lá colocou.
    É a mesma cultura.

    lucklucky

  12. Fui, por causa desta litania de comentários, rever o meu texto e não vi nada que achasse dever alterar no raciocínio que lhe subjaz. Porém, dei-me conta de que há um erro base nos números: 20% de dez milhões não são 200.000 mas dois milhões. Isto significa que o número de mortos poderia atingir os 38.000, os internados 300.000, e os a requererem ventilação 100.000, com um custo para os aparelhos de 1.300 milhões, isto na hipótese absurda de todos os internados o deverem ser ao mesmo tempo e não haver entretanto recuperados. Mesmo assim, vou refazer o texto, com as inerentes desculpas aos leitores, atenuadas por, aparentemente, ninguém se ter dado conta do lapso. Trabalhar com números grandes às vezes dá nisto.

  13. O post versa sobre a sua preocupação com a destruição da economia vs custos humanos.
    A minha questão é : qual economia, é que ao que sabemos nós Portugal não produzimos nada de relevante, não somo auto-suficientes em quase nada, importamos mais de 50% daquilo que consumimos e aquilo que produzimos tem um relativo baixo valor acrescentado, além de que não temos política económica a médio prazo porque os repugnantes não querem nem deixam.
    Iamos agora fazer um aeroporto ainda por cima mal localizado para atender aos interesses de uma empresa privada e de algumas empresas na área do turismo. Em vez de novas infraestruturas temos de cuidar as que temos e que se forem bem aproveitadas / mantidas chegam e sobram.
    Importa pensar a médio prazo, cortar de vez com as ajudas á banca privada, renacionalizar (golden shares) empresas estratégicas ou que sejam monopólios naturais, redimensionar o estado (cortar nas gorduras).
    Estado = Soberania, SNS e Educação, não podemos ter 1000 tal freguesias e 300 e tal concelhos, hoje com as tecnologias existentes não se justifica.

    WW

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