O meu vizinho veio-me com o pedido de eu lhe avalizar um empréstimo que quer contrair por estar sem trabalhar, ter os sogros em casa, o Covid e não sei quê. Afinal, moramos na mesma rua, acrescentou.
Pois moramos, disse-lhe eu, mas porra: você tem aí esse carro quase novo, precisava de o ter comprado?
O homem respondeu, indignado, que comprou a merda do carro no meu stand e que, se ele e outros como ele não puderem continuar a viver como até aqui, a porcaria do stand vai levar um chimbalau; e que este caramelo que aparece na fotografia diz que temos que ser uns pr’òs outros.
Inda estou pr’a decidir mas já fui dizendo que a culpa foi de quem nos pôs a viver na mesma rua.


Uma parábola demasiado elaborada
*demasiadamente
Por acaso gostei de ouvir a carraspana do nosso PM ao Ostra. Como gostava de a ter ouvido, em devido tempo, ao outro, com um nome parecido ao do líder da SPECTRE.
A questão é que a outra declaração, a das “putas e vinho verde” era essa sim de bastante mau gosto, e objectivamente merecedora de reprovação.
Independentemente do que achamos das opiniões do actual ministro holandês, as declarações que foram produzidas agora são tudo menos comparáveis.
Sugerir que são a mesma coisa, e dizer que “mudam os nomes mas são todos iguais” não só desvaloriza as anteriores declarações, como só contribui para baixar o nível.
Desculpe lá mas, perante a desgraça humanitária, onde morrem milhares de pessoas, ao Ministro das Finanças holandês interessa – lhe mais onde andou a Espanha a gastar o dinheiro público, como se o estado das finanças fossem culpadas da hecatombe de vítimas? Não há país democrático no mundo que consiga enfrentar sozinho as consequências desta pandemia, seja ele os EUA, a Alemanha, Portugal ou Espanha. Não perceber isto é chocante. Tentar, entrelinhas, associar finanças com mortes é ultrajante. Rosado Fernandes há uns tempos mandou uma bolachada num ministro holandês, se não me engano. Era o que esse Ostra merecia
Lá voltamos aos semáforos da Sonnemannstraße.
Infelizmente não pudemos levar o balde e o limpa vidros – faltou a água no Tejo.
A aparência de fartura acabou-se e aí estamos, outra vez, com a ladainha da segunda guerra e outras parvoíces.
– Georgios Psomás, não esperes pela carta do Walter. Responde já!
Há herança anterior somam-se mais vinte mil milhões gastos nas eleições mais caras desta democracia podre que produziu uma vitória de Pirro. Estranhamente, para alguns, a dívida desceu!
Da última vez a culpa foi dos malvados bancos que nos ‘forçaram’ a aderir ao crédito pessoal barato para comprar Mercedes, Bê-Êmes, VWs e demais produtos aos também malvados alemães. Na altura safaram-se os chineses: telemóveis e bijuteria foram pagos sempre a pronto.
O discípulo do barbeiro do Faraó viu as vacas, voadoras por sinal, e nas tábuas dos amestrados da CS local fez constar uma página nova. Voltaram os Mercedes os Bê-Êmes, os VWs … a crédito. Os telemóveis e a bijuteria continuaram a ser pagos a pronto.
A desgraça ainda não chegou, sente-se, e a culpa não é nossa é dos outros …
Smoreira
“Da última vez a culpa foi dos malvados bancos que nos ‘forçaram’ a aderir ao crédito pessoal barato para comprar Mercedes, Bê-Êmes, VWs e demais produtos aos também malvados alemães. Na altura safaram-se os chineses: telemóveis e bijuteria foram pagos sempre a pronto.”
Os bancos não estoiraram devido ao crédito pessoal. Estoiraram devido ao crédito mal parado dos nossos “empreendedores” de pacotilha que tiraram o deles e foram à sua vida sem lhes acontecer nada. E também porque esses “empreendedores” pagaram a banqueiros “sérios seguros e confiáveis” para lhes fazerem empréstimos sem garantias.
Entretanto, enquanto a casa ardia, os nosso jornalistas que passam por comentadores económicos entretinham-se a cantar loas aos banqueiros.
Que bela metáfora.
Embora, como diz o povo, os vizinhos não escolhem, os amigos sim.
Somos vizinhos por força da geografia e amigos por força da conveniência, embora esse não possa ser a origem de uma amizade sincera.
E por este andar virá o tempo em que haverá dinheiro e não teremos vizinhos para produzir e o gastar. E assim é que está certo, pois se não pudermos ser uns para os outros seremos como qualquer outro.
Pouco mais de 15 dias para as águas e os céus se renovarem, sem poluição, onde o cheiro do ouro, prata e bonds não se sente e também não se mastiga, onde a virtualidade não compensa a falta do abraço e dar a mão, onde a renovação virá pela continuação do aperto do bicho e, como os ambientalistas desejavam, o mundo pertence agora os bichos e à natureza, confinados que estão os outros bichos aos seus muros de betão que outrora engrandeceram as contas de muitos que agora fazem contas às contas que não existem.
Sim, somos uns prós outros. Agora é a vez da bicharada.