O comentário da semana


Pedro Correia,

«Penso que, como bom funcionário público, está em casa resguardado da peste.

Não é o meu caso.

Hoje tive uma senhora de 94 anos que entrou de cadeira de rodas acolitada pelo filho e pelas duas filhas para se fazerem movimentadores da conta da senhora.

“Sabe, não é por nós, mas com o vírus é melhor para a mãe ter alguém que lhe possa mexer na conta se acontecer alguma coisa.”

Acontecendo alguma coisa “à mãe” penso que ela não estará preocupada com o assunto.

Penso que depois de mortos não nos preocupamos com nada.

 

Acho de uma irresponsabilidade tremenda o Banco do Estado (de todos nós como contribuintes) não tomar medidas drásticas, inequívocas.

Enquanto for seguro ir passear para o Banco (não se pode estacionar em Monsanto mas podemo-nos deslocar, alegremente, para uma instituição bancária com 68, 70, 73 e 94 anos de idade para estarmos num ambiente não desinfectado a contaminar e a sermos contaminados.)

A responsabilidade é do Estado.

 

Se é seguro um Banco ter atendimento normal, tudo o resto, também, é seguro.

Qual a lógica de não poder estar dois minutos numa cafetaria para tomar um café e poder estar duas horas num Banco a alterar titularidades de conta?

O “estado de emergência” neste país é uma anedota; como quase tudo.»

 

Do nosso leitor Pedro Oliveira. A propósito deste meu texto.

41 comentários em “O comentário da semana”

  1. O Senhor Pedro Oliveira é que é uma anedota. Não faz a menor ideia do que seja probabilidade. Reconheça-se que a grande maioria das pessoas não tem a menor ideia do que é a Estatística. Quando há desgraças temos de tomar medidas que diminuam a probabilidade dos males acontecerem, geralmente não se podem eliminar. E o que tem probabilidade baixa pode acontecer. Há até casos em que um acontecimento com probabilidade zero pode dar-se. Pouco sabem isso, é como o binómio de Newton, muito poucos o podem apreciar.

    1. Cara Joana,
      Agradecido pelo comentário e pela minha suposta anedotice.
      A minha mulher, ultimamente, não me tem achado grande piada.
      Fica histérica quando chego a casa.
      Faz-me descalçar e despir na entrada.
      Passar por uma passadeira de toalhas até à casa de banho.
      Roupas e toalhas tudo para dentro da máquina de lavar roupa, eu, também, mas na banheira.
      Quanto ao Newton vou recomenda-lo à senhora minha esposa, enfim, mulheres, gravidez, harmonas aos saltos e gravidez são coisas que não combinam bem umas com as outras.
      Agradecido pelas amáveis palavras, contudo.

  2. Meu caro Pedro Oliveira, o acontecer alguma coisa à mãe pode não significar a morte desta, mas tão simplesmente esta ficar impedida de exercer o acesso à conta até mesmo para sua sobrevivência. É um acto prudente que alguém em proveta idade possa salvaguardar-se, salvaguardando que outros a salvaguardem. E a família, neste caso descendentes directos, não existindo razões substantivas, deve preocupar-se com a matéria.
    É assim que acontece em qualquer família que se preze e se preocupe com os seus.

    Estes que indica certamente poderiam ter feito isto em outra altura. Mas se só agora o fizeram pode significar que não só tiveram pudor anteriormente em tocar no assunto que era privado como também estão conscientes que a situação actual é apropriada e excepcional.

    1. “proveta idade possa ” Proveta? Não seria mais apropriado dizer bureta? Qual a relação entre idade e as provetas?

    2. Caro Vento,
      A quem as palavras não levam, pelo contrário trazem-no.
      Resumindo aquilo que diz será mais ou menos isto:
      “a velha (de salientar que a eram todos velhos, todos deviam estar sossegados em casa) não morre mas fica entubada, a gente não lhe pode sacar o dinheiro da conta; solução vamos com ela para o Banco para prevenir que ele apanhe um vírus que se estivesse confinada em casa não apanharia”
      Brilhante, caro Vento, ainda bem que não tenho 94 anos, nem preciso dos seus “cuidados”.

      1. Meu caro Pedro, o Vento regressa.
        Brilhante parece ser você que vê mal em uma pessoa ter de se deslocar com seus 3 filhos para (re)titularizar a conta em um momento como este. Será que a CGD tem pessoal que se desloque a casa para prestar esses serviços por vontade dos próprios, e que se desloque sem vírus?

        E o que diz sobre o vírus parece-me ser matéria para manter sua tese, isto é, que os filhos usam de má fé e imprudência num acto que só revela prudência.

        Sim, ainda bem que não precisa de mim para cuidar de si, pois dá mostras de ser capaz de fazer pior que o mal que me atribui se fizesse isso.

        1. A palavra “contrair” neste contexto presta-se a interpretações dúbias.
          Não sei.
          Será preciso um morcego e um pangolim?
          Infelizmente, parece que não.
          Saúde para si e para os seus.

          1. Por acaso também não sei como se contrai o vírus.
            Nem sabia que o malvado se encolhia.

            Pergunte lá ao Vento que agora fiquei curioso com a contracção do bicho.
            Eu até lhe perguntava, mas sei lá se não vem por aí bazucada.

  3. A responsabilidade é do Banco. A Caixa gosta muito de viver no limbo e sacar a quem não pode e a culpa não ser dela, mas está na hora de irem todos para o caraças mais velho mais o vosso chefe ladrão.

    E não diga mal de Portugal: Portugal é muito melhor do que a Caixa.

    1. A responsabilidade é do Banco?
      O Banco é obrigado pelo accionista maioritário/único a estar aberto; com todas as agências abertas, com todos os funcionários (agora chamam-lhe colaboradores) a trabalharem (tanto quanto sei).
      Seria útil alguém (jornalistas) lembra-se de perguntar ao presidente do conselho de administração do Banco estatal (ex-ministro da saúde) se faz sentido continuar a manter todos nós balcões abertos, todos os funcionários na trabalharem (Areeiro e dois balcões na Avenida Almirante Reis, por exemplo) será que as pessoas agora não se podem deslocar 500 metros, mas há dois anos bastava ter um balcão aberto por concelho mesmo que isso implicasse uma deslocação de 40 km ou mais? /fecharam-se esses balcões, não eram produtivos, agora estão abertos balcões com seis ou sete funcionários ou mais a atenderem oito ou nove clientes por dia/
      Portugal é melhor que a Caixa, certamente.
      Esta Caixa da república portuguesa é pior, muito pior que a que foi criada no séc. XIX, Abril de 1876.
      Para que fique claro nunca direi mal de Portugal, já desta república que nos desgoverna..

      1. Só se for em Lisboa !
        Onde vivo existem muito poucos balcões e num deles (vi porque fui ao MB) tinha um aviso que só abriam a porta por questões urgentes e com prévia marcação.
        Mas já se sabe só existe Lisboa e o resto é paisagem.

        WW

        1. Ora aí está.
          Uma excelente medida!
          Felizmente na província há quem tenha tomates (nas hortas) e enfrente as “orientações dos lisboetas teletrabalhentos”.
          Um bem haja para si e para quem tão bem organiza o Banco na sua terra.

    1. Deveria.
      Deveria existir um desinfectador atrás de cada cidadão.
      Entrava no Banco, zás, desinfectado.
      Pouco prático, eficiente, sem dúvida.
      Outra solução, Bancos fechados, depósitos e levantamentos de dinheiro em máquinas que existem para o efeito. Outros assuntos tratados por telefone ou pela internet. Casos graves, raros mas existentes, pessoas analfabetas, por exemplo, duas ou três agências abertas em zonas estratégicas bem servidas por transportes públicos.

      1. Você é um lirico, só deve conhecer Lisboa ou então está sindicado !
        Se acha que está mal mude-se, o que não falta em Portugal são bancos pujantes cheios de capacidade de atrair os melhores, aproveite esta oportunidade pode ser que a próxima só surja daqui a 10 anos…

        WW

        1. Dez anos?
          Daqui a cerca de três anos espero estar a gozar uma merecida pré-reforma depois de mais de 30 anos a descontar para os “senhores e senhoras” que nos apascentam.
          (quanto ao sindicato, também, não. aprecio representantes que saibam o que estão a representar. nesta república temos sindicalistas profissionais. polícias que não são polícias. professores que não são professores. funcionárias de um sindicato que chegam a dirigentes máximas de uma confederação de sindicatos; nada disto é causa de indignação)

  4. Algo a propósito: atenção ao banco estatal (CGD) que se tornou perito em cativar as contas dos defuntos, fazendo exigências para lá do que impõem as Finanças para o dinheiro ser libertado.

    1. «atenção ao banco estatal (CGD) que se tornou perito em cativar as contas dos defuntos, fazendo exigências para lá do que impõem as Finanças para o dinheiro ser libertado.»
      O tal de «banco estatal (CGD)» apenas está a cumprir regulamentações nacionais/internacionais que ultrapassam as tais suas supostas «exigências para lá do que impõem as Finanças»… é que, na realidade, as suas “Finanças” até nem têm voz activa nessa matéria: elas só têm de se submeter a uma série de regulamentações que visam a palhaçada de transformar o capitalismo em algo de aceitável!

    2. Cara pessoa sampy
      Julgo que conseguirá com facilidade aceder ao meu endereço de correio electrónico (não me escondo atrás de pseudónimos) se precisar de me contactar para algum caso específico, não hesite.
      Lamento a sua perda e se foi o caso que tenha tido um mau atendimento.

  5. «Penso que, como bom funcionário público, está em casa resguardado da peste.»
    E pensa bem: sim, o que está errado é até o facto de que o destinatário do seu comentário, «como bom funcionário público, está em casa resguardado da peste»…
    Lá está, é o maldito socialismo que insiste em proteger o “funcionário público” e esquecer-se dos outros restantes portugueses, aqueles que V. julga serem de 2da. categoria… e deduzo, por isso, que V. até seja um desses comunas que defende o fim do sector privado ou, no mínimo, que esse sector da nossa economia até seja obrigado a atribuir aos seus empregados, todos os direitos, regalias, etc, de que qualquer “funcionário público” usufrui!
    Não? Então o que V. defende? Que o “funcionário público” seja sujeito a algo que V. julga ser errado?

    1. Caro António Vaz,
      Grande tiro ao lado.
      Se me definisse politicamente, diria que sou um monárquico da esquerda liberal.
      Não existe?
      Se calhar, não.
      Sou monárquico por convicção, é o sistema que melhor se adaptaria ao país/nação que somos.
      De esquerda pelas raízes, de onde venho, pela solidariedade, pelo voluntariedade, pela igualdade de oportunidades (mais Fergus menos Arthur).
      Liberal, obviamente, quanto menos Estado melhor.
      Quanto à pergunta que me faz no último parágrafo, de maneira nenhuma, se não existisse Estado (nem funcionários públicos) para mim melhor /estou a ser demasiado radical mas é mais ou menos isto que penso/
      Saúde.

  6. Meu caro,
    O problema, com 94 anos, não é morrer. É estar vivo, vulnerável e emocionalmente desamparado.

    Admira-me alguém com essa idade não ter quem lhe movimente a conta, em caso de necessidade.

    Já agora, e não obstante a razia que este vírus provoca nos idosos, a percentagem destes que sobrevive após contrair o vírus é grande.

    A sociedade já desamparou e isolou os idosos há muitos anos. Já alguém lhes perguntou como é que se sentem neste frenesim?
    Eu já perguntei aos meus sogros, que estão cá em casa, como costumam estar quase todas as semanas.
    Do alto dos seus quase 90 anos, a resposta varia entre “isto é pior que no tempo do fascismo”, ao “é preciso ter esta idade para mandarem em mim”, ou “se for agora já vivi o suficiente”.

    Tenhamos nós capacidade para lhes fazer perceber que aqueles que os amam ainda lhes sentem a falta, e que a sua dignidade é preservada, apesar de não concordarem com estas medidas.

    1. Caro Chakra,
      Já fiz as dialogamos noutras circunstâncias.
      Os meus pais têm cerca de oitenta anos, as contas deles são deles, só deles, não passa pela minha cabeça, nem pela dos meus irmãos, irmos com eles para o banco “obriga-los” a que os filhos possam mexer nas contas.
      Muito menos agora.
      O que tiver que ser, será.
      Cá estaremos (ou não) para resolver.
      Um abraço (virtual) que nesta altura não há divisões clubísticas, remamos todos para o mesmo lado

      1. Eu logo vi, Pedro, que o seu comentário transportava uma carga moralista e não uma preocupação pelo vírus. Se você e seus irmãos podem fazer alguma coisa por seus pais, talvez aqueles irmãos não tenham as mesmas condições para prover uma boa assistência a sua mãe, sem o dinheiro dela, caso esta venha a necessitar.

        Em alternativa, caso não tenham essa possibilidade, certamente que resolverão a situação com mais trabalho e exposição ao vírus.

        1. É isso, caro Vento. Sou um moralista. Escrevo em blogs há mais de 15 anos.
          Não lhe vou pedir para se dar ao trabalho de ler tudo o que escrevi (já escrevi muito disparate, também) parece-me, no entanto, que “moralismo” não é palavra que me defina enquanto cidadão que opina no espaço público.
          Quanto à situação em apreço, aprecio a sua costela de Rousseau “tudo pelo bem da mãe” nada pelo bem dos filhos.
          Estamos no séc XXI existem cheques, cartões multibanco e internet para movimentar as contas bancárias, no entanto, se persistir em tentar enganar-se a si próprio (desculpe a redundância) acreditando nos “bons selvagens” e na sociedade que não os corrompe (no caso dos três manos) por mim, esteja à vontade.
          Reitero os desejos de saúde.

          1. Existe tudo isso, mas não a titularização da conta que era o que estava em causa.
            Sem mais dados, e sendo também herdeiros directos, eles são para o bem e para o mal.

            Você é que persiste no moralismo e continua neste sentido para vincar o que se encontra em seu comentário.

  7. Bom, fui ali à drogaria e , antes que esgotasse, comprei um saco de serapilheira e um chocalho.

    Juízo senhores, juízo! Sãos ou doentes continuamos a ser pessoas.

    Smoreira

    1. Cara pessoa anónima,
      Fez-me lembrar “A Flecha Negra” um falso leproso que chocalhava para passar despercebido.
      A situação agora é, precisamente, o contrário.
      Os leprosos que não chocalham, não lepram mas podem fazer que outros leprem.

      1. Já não tenho grande recordação de Stevenson. Foi há vão muitos anos que o li e não fiquei muito apaixonado. Já não me recordo de muitos pormenores do ‘Flecha Negra’ e não fiquei cliente do ‘Ilha do Tesouro’. ‘O Médico e o Monstro’ ficou-se pela metade. Outros tempos …

        Bleim, bleim, bleim, bleim, até amanhã!

        Smoreira

  8. O que me parece é que tanto a mãe como os filhos não são pessoas confiáveis.
    Uma mãe com essa idade que só ela é titular da conta, e dos filhos que aproveitando a maré pretendem fazerem-se também titulares, tão cínicos são uns como os outros. O desconfiado a esconder do desconfioso.
    Não tenho essa idade, nem de longe e há que tempos as minhas filhas são titulares das minhas contas.
    Aliás, sempre foram.

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