Uma “revolução” falhada e falida


Pedro Correia,

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Maduro com Ortega: “socialismo do século XXI” gera opressão e pobreza

 

Até ao início do século XXI, o metropolitano de Caracas era apontado como símbolo de qualidade nos sistemas de transportes públicos da América Latina. Hoje está decrépito, por absoluta falta de manutenção, como quase todos os equipamentos públicos na Venezuela, excepto os que se relacionam com as forças armadas. Como ontem salientava o El País, «toda a gente entra sem pagar porque não há bilhetes, pois o papel em que se imprimem custa mais caro do que o dinheiro com que se pagam».

O metro da capital é um perfeito símbolo de um regime à beira do colapso: o do chamado “socialismo do século XXI”, instaurado em 1999 pelo falecido coronel Hugo Chávez e prosseguido desde 2013 pelo seu “filho dilecto”, um antigo motorista de autocarros que governa encerrado numa cave blindada do Palácio de Miraflores, apoiado em guardas pretorianos armados até aos dentes, postos à sua disposição pela tirania cubana. 

Tirando o PCP, por obediência cega ao quadro mental herdado da Guerra Fria, hoje quase não se detecta em Portugal um apoiante da proto-ditadura venezuelana. Mas há poucos anos não faltava por aí – nos meios políticos e académicos – quem entoasse hossanas ao “socialismo bolivariano”, apontando-o como modelo a seguir. Como noutros tempos fizeram com a ditadura líbia de Muamar Kadafi, o “socialismo” argelino ou os regimes despóticos implantados nas antigas colónias portuguesas em África. Para estas luminárias, tudo servia de meio para denegrir a democracia representativa de matriz liberal. O exemplo da Venezuela foi apenas o mais recente e talvez o mais trágico.

 

O que geraram Chávez e Maduro? Fome endémica, desabastecimento, desnutrição, falta de assistência sanitária, a redução da esperança de vida, a paralisia permanente de estruturas essenciais do país, a repressão das liberdades, a perseguição de opositores, o silenciamento de jornalistas incómodos, a depreciação total da moeda corrente, a maior taxa de inflação do mundo. 

É uma “revolução” falhada e falida no país mais rico em recursos da América Latina. A produção de petróleo caiu para metade nestas duas décadas devido à absoluta carência de técnicos especializados e de renovação das estruturas industriais. Nos últimos cinco anos, o PIB venezuelano caiu 65%. O bolívar perdeu todo o valor e o dólar americano circula como moeda extra-oficial de emergência. 

Em Caracas, a capital mais violenta do planeta, ninguém pode andar em segurança assim que cai a noite. A água e a luz faltam a todo o momento. Não há medicamentos em 88% dos hospitais. O absentismo escolar dispara: tanto alunos como professores passam grande parte do dia em busca de comida. Em 2017, cada venezuelano perdeu, em média, 11 quilos de peso. 

O êxodo da população é impressionante: mais de cinco milhões de habitantes já abandonaram o país e a ONU prevê que a cifra dos seis milhões seja ultrapassada este ano – superando assim o número dos que fogem da guerra civil na Síria. 

 

Está cheio de razão o ex-presidente do Governo espanhol Felipe González, em recente entrevista à agência EFE: a “revolução” em países como a Venezuela ou a Nicarágua (do ditador Daniel Ortega, outrora saudado como libertador em Manágua) conduziu à “roubolução”, com esquemas de corrupção impune, o desvio fraudulento de milhares de milhões de dólares, a destruição imparável do tecido económico e o alastramento da pobreza endémica.

Para González, o proclamado “socialismo do século XXI” – que reproduz experiências falhadas ao longo de todo o século XX – mais não é do que uma «utopia regressiva» que condena as respectivas populações à miséria. Para combater estes regimes, o antigo líder da social-democracia espanhola preconiza uma «revolução de pequenos passos», sempre destinada a fomentar a igualdade de oportunidades e gerar desenvolvimento económico, sem complacência de qualquer espécie perante novas tiranias. «Sem democracia, estaremos à mercê de tentações despóticas – e tanto me faz que sejam da direita como da esquerda. Porque um ditador é um ditador.»

Esta clareza de pensamento é fundamental para separar águas. Antes que novos charlatães apareçam por aí a apregoar modelos falhados de revoluções falidas. 

19 comentários em “Uma “revolução” falhada e falida”

    1. Lamentavelmente, são cada vez mais esporádicas as referências à Venezuela nos meios de informação portugueses. Apesar de viverem 500 mil portugueses ou luso-descendentes naquele país. E de muitos dos actuais habitantes de Portugal terem vivido na Venezuela.
      O segundo maior êxodo populacional à escala global, nos dias que correm, merece um tratamento muito inferior ao do sírio – ainda o maior, mas provavelmente não por muito mais tempo.

      1. Tem toda a razão, Pedro. Estivemos meses sem notícias de lá, até à visita de Guaidó à Europa. A sensação que dá é que a situação ficou suspensa no tempo.

        Os noticiários de hoje são tendencialmente virtuais, sem adesão à realidade. É difícil vislumbrar critérios de verdade e de justiça. Limitam-se a soprar sobre pequenos ou grandes fogachos e a consumir o juízo e a decência de quem desconfia e tenta ver a realidade.

        Dizem que só assim se vende informação. Parece-me desculpa de mau pagador; acredito mais que a razão esteja na preguiça (e falta de seriedade) de quem vende.

        Assim se cria um mundo fértil para os piores engodos.

        1. Todos os dias sucedem atropelos gravíssimos aos direitos humanos na Venezuela, onde vivem mais portugueses do que na cidade de Lisboa. É revoltante que tenhamos de saber o que lá se passa praticamente recorrendo apenas aos órgãos de informação estrangeiros.

  1. Boa tarde Pedro Correia
    Aqui do “Chapéus” uma chapelada de concordância absoluta.
    Boa semana, com saúde.
    António Cabral

    Ps: não sei se é eficaz para o que por aí anda, mas à cautela ao almoço bebi um óptimo tinto Alentejano, “Nã te Rales”

    1. Muito obrigado, caro António Cabral. Registo com muito agrado esta sintonia. Tudo quanto pudermos dizer ou escrever contra o regime titânico que oprime há duas décadas a Venezuela é sempre pouco.

      Um brinde grato – com Vinha Maria, da nobre região vinícola do Dão.

  2. A Venezuela e a Nicarágua não eram exatamente regimes económicos pujantes ou muito justos antes dos presentes ditadores chegarem. Décadas de apoio dos EUA e aliados ao governo de Somoza e afins não criou exatamente um amor assolapado desses povos ao liberalismo ocidental.

    Curioso como nos nossos media não se fala dos restantes países sul e centro americanos. Sabemos que da Guatemala e de Salvador a população está tão desesperada que se lança em caravanas para chegar aos EUA, apesar de saberem que serão mal recebidos no destino. Mas aí não há socialistas a quem atribuir culpas, logo não se fala deles.

  3. Em meados de Fevereiro fui à loja do cidadão tratar duma certidão.
    À minha frente estava uma jovem ( bonita) Venezuelana que se encontrava à 2 semanas em Portugal e tinha dificuldades pelos entraves de tratar de documentação na Embaixada própria.
    Disse-me ela; eu tenho emprego na Venezuela mas não ganho para comer. Só os militares têm dinheiro.
    Fui ao Continente e trouxe alguns alimentos que devorou em segundos.

  4. Então, alguma vez a rapaziada deixa avançar as coisas sem mais.
    Mesmo que haja eleições e desde que não ganhe o da fruta ou o do pitrol, tem que se manter tudo na mesma.
    Existem bairros de lata, rodeados de muros, com milhões de pessoas, junto das capitais que foram sempre aumentando ao longo de 60 anos.

  5. Estive na Venezuela há pouco mais que um par de anos e se for decretado um recolher obrigatório/quarentena talvez tenha tempo para relatar alguns deles, sem ideologia só com factos. Veremos

  6. Sempre fui da opinião de que o caso Venezuela é muito mais urgente do que a maioria do establishment quer admitir. Ainda pensei que fosse por uma questão de distância, mas depois de verificar que se passa muito mais tempo a bater no trump, ou a espancar Israel e o brasil na comunicação social, em vez de dar tempo de antena aos milhões que sofrem naquele país, percebo que afinal tudo não passa de estratégia e política, assegurada pelos media enviesados e controlados pelos políticos do poder.
    Por outro lado pasmo ao verificar que a ONU é absolutamente inoperante neste caso. E é inoperante por questões de política e ideologia política, quando a ideologia da ONU deveria ser o ser humano.
    Questiono o porquê do medo de uma intervenção, militar se necessário, para libertar aquele povo. Ok, ok não é politicamente correto. Então se a ONU só serve para o politicamente correto, então para que é que existe? Em Portugal não interessa falar na Venezuela. Desde logo pelo passado manchado do PS, que durante anos fez vários negócios com o regime e tantos foram os socialistas que apareceram em abraços e sorrisos com aqueles ditadores. Depois porque leva ao descrédito os parceiros deste governo, pcp e be, que tão mal ficam na fotografia quando se fala na Venezuela.
    E assim se condiciona uma comunicação social, que omite o assunto Venezuela, mas que vem de imediato colocar repórteres a tecerem opiniões pessoais em reportagens, assim que algo se passa na faixa de gaza, ou na fronteira italiana, ou na sociedade brasileira.
    Se o comunismo fosse tão maravilhoso, em vez de termos 5 milhões a fugir da Venezuela, teríamos 5 milhões a tentar entrar….

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