DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não saberemos nunca se Cavaco efectivamente disse aquilo que pensa, mas sabemos já que aquilo que disse só ajuda a sua reconciliação com o povo socialista, confirmando a vontade de Cavaco de ser reeleito. A questão que agora se coloca, perante a revelação das escutas, é se essa vontade é maior do que o sentido de Estado que dele se esperaria.»

 

Ana Sofia Couto: «Fui ontem ver Um Profeta, um filme de Jacques Audiard. A história – «uma história de aprendizagem», como diz o Luís Miguel Oliveira – gira à volta de Malik El Djebena, um ‘árabe, analfabeto, de aparência frágil e desprotegida’, que é condenado a seis anos de prisão. Mas a razão por que escrevo este pequeno texto não é o filme, propriamente dito. A razão prende-se com uma questão em que pensei num momento do filme: o momento em que Malik entra na prisão – uma prisão francesa – e lhe é feito um interrogatório. O guarda que o interroga pergunta, entre outras coisas, se Malik pode comer carne de porco.»

 

Ana Vidal: «Bater no fundo pode até ser desejável, se significar um renascer das cinzas e uma natural subida, por não ser possível descer mais. Infelizmente, até nisto Portugal parece ter descoberto uma originalidade: a de estar sempre a bater no fundo, repetidamente, como uma bola de borracha incapaz de estabilizar por causa da lei da gravidade. Da gravidade do que se passa lá no fundo, sobretudo.»

 

João Carvalho: «De hora a hora, ouço repetidamente na SIC-Notícias Jorge Lacão a perorar sobre a consciência e as preocupações e as boas intenções e a boa governação que se contrapõem às maldades que andam por aí a dizer-se. Acho notável o exercício e fluidez de Lacão, que só peca por não se ter lembrado de aproveitar o tempo de antena para esclarecer a sua posição no caso recente em que foi dado como um dos protagonistas.»

 

Paulo Gorjão: «Parece que José Pacheco Pereira está muito preocupado com a asfixia democrática. Também eu. Ainda não me esqueci de como as listas de deputados do PSD foram expurgadas das vozes mais incómodas. Cada um vai silenciando o que pode à sua escala. Isso, de facto, é preocupante. E os double standards também.»

 

Teresa Ribeiro: «Felizmente que em democracia, por mais pequeno que um país seja, nunca se consegue metê-lo inteiramente no bolso.»

 

Eu: «Pior que haver políticos que desgovernam as contas públicas, levando o País a tornar-se na chacota das principais instituições financeiras internacionais, é haver políticos que conspiram, traficam influências, mentem por cálculo ou vocação e degradam irreversivelmente a imagem das instituições. Não sei se a situação actual envergonha alguns dos protagonistas dos mais recentes episódios tornados públicos. Eu, como português, sinto-me envergonhado.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. O guarda que o interroga pergunta, entre outras coisas, se Malik pode comer carne de porco.

    É uma pergunta perfeitamente racional e justificada. A prisão deve servir ao prisioneiro alimentação que esteja de acordo com as suas convicções religiosas. E, lá por Malik ser árabe, não quer dizer que não possa comer carne de porco – os árabes cristãos (ou sem religião) comem-na.

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