Ouvi há pouco que a boys band D´Arrasar vai voltar a actuar numa festa revivalista dos anos noventa. O momento não podia ser mais oportuno. Sempre que abro o computador e me aparecem notícias relevantes – do ponto de vista do emissor – o verbo arrasar sobressai logo, aplicado a várias situações: “A actriz x arrasou na passadeira vermelha; “a estrela y arrasou na festa”; “a namorada de tal arrasou no banquete”. Exemplos concretos: “dona Dolores Aveiro arrasa na entrega de prémios…”. E assim por diante. Só é estranho que esses locais não fiquem em ruínas, tal é o arraso que estas pessoas provocam. Depois, nas mesmas notícias, os críticos da moda “arrasam” as famosas e famosos, pela roupa, porque determinada cor não combinava com o padrão, por uma atitude ou gesto que passou despercebida ao comum dos mortais, etc. E finalmente vêm os “arrasos” opinativos, aqueles em que “o político fulano arrasou o seu adversário sicrano na assembleia municipal” ou “numa extensa entrevista”, ou “o defensor do clube bege arrasa o representante do clube cor de burro quando foge no debate semanal futebolístico”. Normalmente, quem o afirma é das cores do arrasador em questão.
Com tão grande míngua de vocabulário e tanto arrasamento, quem fica mesmo arrasada é a qualidade do texto, uma vez que a substância já não era grande coisa. E a paciência do incauto leitor também. Vejam lá se arrasam um pouco menos antes de deixar tudo em ruínas, ainda que não passem de virtuais.

Nem mais! Desculpe o meu abuso. elicoso-e-populista-do-verbo.html
https://ctmx.blogspot.com/2019/12/o-uso-b
Não abusa nada. Quem abusa são os autores constantes do verbo. Nota-se que mais gente tem notado o mesmo que eu. E garanto-lhe que nem conhecia os textos que me envia.
Uma outra palavra de que os jornalistas muito gostaram em tempos (agora já está fora de moda) é “disparar”, com o sentido de “crescer” ou “aumentar”. Tantos disparos mas nunca ninguém caiu morto.
Eram sem dúvida disparos de pólvora seca.
Aproveitarei todas estas oportunidades para alertar que as grandes agressões à Língua acontecem na sintaxe e não no vocabulário.
De resto, “arrasar” até é uma palavra sugestiva e forte para o uso referido.
João de Brito
Sim, mas percorra as manchetes que surgem na net, sobretudo na MSN, e vá ver se não é irritante.
Ela atravessou sem olhar e o carro passou-lhe arrasar!
(então, é um clássico)
Ao menos dá para rir.
Rai’s parta, os comentários anónimos.
Bem, errar é o mano.
Mas arrasar assim tanto é desumano.
Realmente o aparecimento de notícias ‘arrasar’ é de arrasar.
Na maioria dos assuntos o ‘arrasar’ é um chamariz para um assunto sem interesse nenhum mas parece que quem vai meter o nariz no ‘arrasar’ dá um dinheirinho ao autor da notícia. É nitidamente banha de cobre.
‘Nesta foto a Maria Cachucha está de arrasar’, afinal a dita Maria é normalíssima e não tem nada de arrasar.
E há também aquela que passa as ‘merecidas férias’ de dois em dois meses em locais de arrasar.
Lá está: é tudo um arraso. Provavelmente estagiários viciados na palavra que a usam para poupar tempo.