Livros, filmes e viagens


Pedro Correia,

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Há livros que nos abrem o apetite para conhecermos países e cidades. De tal maneira que, mal chegamos ao fim da obra, nos apetece logo fazer a mala. Aconteceu-me com a capital francesa depois de ler Paris É uma Festa, de Hemingway, e vários policiais de Simenon. Aconteceu-me com Barcelona, depois de ler Os Mares do Sul, de Vázquez Montalbán. Aconteceu-me com Londres, depois de ler O Livro das Cidades, de Cabrera Infante. Aconteceu-me com Amesterdão, depois de ler A Porta no Chão, de John Irving. Aconteceu-me com o Rio de Janeiro, depois de ler esse fabuloso livro homónimo que lhe dedicou Ruy Castro – autêntica carta de amor à Cidade Maravilhosa.

Mas também podemos apaixonar-nos por uma cidade que ainda não conhecemos ao ver um filme. Aconteceu-me com Viena assim que vi Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, espécie de Casablanca dos anos 90 sem guerra nem nazis. Corria ainda o genérico final no ecrã e já eu fazia planos para rumar sem demora à capital austríaca, seguindo os passos de Ethan Hawke e Julie Delpy nesse filme hipnótico. E assim foi. Com uma diferença de pormenor, que neste caso era de pormaior: o filme passa-se no Verão e eu aterrei em Viena no Inverno, faiscavam as luzes de Natal na Rathaus. Com seis graus negativos, as águas do Danúbio estavam geladas e a animação de rua reduzida ao mínimo. Mas apanhei o eléctrico do Ring, andei na roda gigante do Prater (que me havia sido apresentada noutro filme, o inesquecível O Terceiro Homem) e era capaz de jurar que o fantasma de Sissi andava em Schönbrunn, na manhã luminosa em que lá estive, com as verdes alamedas do palácio transformadas num deslumbrante mar de neve.

52 comentários em “Livros, filmes e viagens”

        1. Julgo que já não será possível, infelizmente. Teria de enfrentar as brigadas da correcção política e sexual – gente a chamar-lhe depravado, tarado, violador e sei lá que mais.
          Foi o que lhe aconteceu neste último filme que rodou, em San Sebastián.
          As novas fogueiras andam acesas por aí.

          1. Também pensei nisso, Pedro. O mundo está a ficar um local estranho para se viver… apetece zarpar daqui, ir para outra galáxia, conhecer seres com mentes menos poluídas, talvez os marcianos que até dizem que são verdes , devem ser bons seres…
            Bom sábado.

            Maria

          2. Obrigado, Maria.
            Vai-me ganhando claramente nos Nobéis: eu ainda só li 52.
            Os últimos dois foram a Olga Tokarczuk e o Peter Handke. Gostei dela, não gostei dele.

            Tenho dedicado grande parte deste ano à leitura (ou releitura) de romances e novelas portugueses do século XX: vão 33 desde Maio. Com proveito pessoal e profissional. Se houve três ou quatro decepções ou mesmo fiascos, a grande maioria valeu a pena. E houve até excelentes surpresas: temos mais obras-primas do que eu pensava.
            Mas de tudo isto tenciono dar nota detalhada aqui muito em breve.

            Bom sábado, bom fim de semana, continuação de boas leituras.

    1. Viena é só por si cenário cinematográfico. Outra é Veneza: também lá andei, a espreitar cada recanto, em busca de alusões
      cinematográficas.
      Fui ao Lido de propósito para espreitar o hotel que serve de palco à Morte em Veneza, por exemplo.

      1. Em Veneza ( e Florença) estive em Agosto/Setembro, mesmo a coincidir com o Festival de Cinema. Muito calor. Muita gente! Mesmo assim fiz aquilo a que me propus, dessa vez não pelos filmes, mas pelo meu fascínio intemporal pela Fábula de Veneza. Perdi-me por lá vezes sem conta. E encontrei-me por lá todos os dias. Outra viagem a repetir , sem dúvida.

  1. Exatamente o que fiz na semana passada. Ver a Viena onde o Jesse e a Céline estiveram. Com a diferença que demorei uns 20 anos a fazê-lo…

      1. Saudável, sem dúvida, mas nada barata (leia-se inacessível a muitos) mania.
        E digo isto sem inveja, apenas com alguma mágoa, apesar de ter conseguido ir a meia dúzia de sítios interessantes lá fora.
        Mas cá dentro, conheço sítios maravilhosos aonde nunca ninguém vai… alguns começam agora a ser conhecidos.
        Mas esta foi uma ideia excelente, Pedro, é que eu também viajo ouvindo (ou lendo) alguém contar as viagens que fez .

        Pedro, já li a LER.
        Parabéns renovados, e espero que seja para continuar 🙂
        🎄
        Maria

        1. conheço sítios maravilhosos aonde nunca ninguém vai

          Atualmente eu diria que muita gente vai a todo o lado.

          Quando eu era jovem, há uns 30 anos, fui a muitos sítios onde, então, não havia ninguém mesmo. Mas agora estão cheios de turistas.

          Por exemplo, os pegos do rio Xévora ao pé de Ouguela (Campo Maior).

          Ou a Caldeira Velha em São Miguel.

          Há trinta anos nenhum turista punha os pés nesses sítios, somente os locais (e eu). Hoje em dia é gente aos montes. A Caldeira Velha, na qual eu passei uma noite, a tomar banho sempre que me apetecia, hoje em dia até é preciso (segundo me disseram) pagar para lá entrar.

          1. Que mania que o Lavoura tem de responder aos comentários que eu faço ao Pedro. Da outra vez foi com o 🐃 na Ilha do Pico, agora é com a Caldeira Velha e mais não sei o quê.
            E depois eu é que fico sem resposta…

            Maria

          2. Já era assim em pequenino.

            Não. Só fiquei assim após ter passado uma noite inteira enfiado na caldeira velha.

  2. Eu já fui umas três vezes a Viena, sempre em trabalho, e nunca andei de elétrico no Ring nem na roda gigante do Prater. E não me parece uma cidade tão especialmente bonita (grandiosa, imperial sim) como isso. Não é, nem de longe, um sítio que eu recomendasse às pessoas que fossem gastar tempo e dinheiro para verem.

  3. Há uns anos estive em Viena. Schonbrun, a catedral, o relógio do hotel, as vinhas ao redor, o Danúbio fazem desta cidade um das mais bonitas que já pude ver!
    Todavia é também na Austria mais propriamente em Halstat que se encontra o local mais bonito que já tive oportunidade de visitar.
    Um assombro.

    1. Uma das mais belas (e históricas) capitais europeias. Autêntico museu ao ar livre, meu amigo.
      Mas gostei ainda mais de Salzburgo e toda aquela zona dos lagos de montanha que a rodeiam.
      Halstat ainda não conheço.

      1. Hallstatt tem história e paisagem que por si só já justificam a viagem. Dormimos em Bad Aussi num airbnb muito familiar e cheguamos ao lago de comboio. Atravessamos o lago no pequeno ferry Stefanie e assim chegamos à povoação por água.
        Ali à volta em meia dúzia de dias de carro ainda se pode visitar os locais de rodagem do eterno Sound of Music (exigência familiar) sem deixar para trás o mundo gelado de Eisriesenwelt, este só visitável no verão. Em meia dúzia de horas de condução ainda dá para uma passagem pelo lago de Bled no sopé dos Alpes Julianos, onde a minha filha e a minha esposa têm juntas a melhor foto da vida delas.
        Ao ler o texto lembrei-me da Catedral do Mar e de Barcelona onde apetece ir ainda antes de acabar o livro.

  4. Eis doença que nunca me atacou. Sucede-me apenas rever lugares que os filmes mostram e ficar toda contente a saborear o prato inesperado. Suponho que vejo filmes e leio livros fora do mundo. Para mim são lugares que não existem, não os memorizo, são o palco da história. Desgraçadamente, só me fica a história.

  5. É tal como diz. A viagem resgata a memória do que se lê e vê. Não só memória dos lugares e das personagens dos livros, filmes (e música e pintura) que lemos ou vimos como a da imaginação, às vezes, mesmo da imaginação herdada. 

    Se ao Pedro Correia pareceu ver o fantasma da Sissi em Viena, eu ia jurar que a vi,  ao lado da minha mãe, na Praça de São Marcos. E a pequena filhota a correr para os seus braços. Com todos a entoar um Viva la mamma! Tal como na última ou penúltima página do livro que aos onze anos comecei a ler pelo fim, sugerido pela minha mãe, fã absoluta na meninice dos filmes da Romy Schneider. 

    Mas a verdade é que as imperatrizes, príncipes e princesas me diziam pouco. O meu imaginário era outro. Por mais que soubesse que foi filmado em Itália, quando me vi a vaguear entre o Nevada, Utah e Arizona, com destino a Las Vegas e ao Grand Canyon, e consegui o silêncio solitário do deserto, não pude deixar de imaginar que aparecessem os fora-da-lei, o insolente Trinità refastelado na padiola ao som do batuque da sertã, sob o olhar do possante Bud Spencer. Ou, então, que me cruzasse com um corredor de diligências em busca do ouro perdido, de onde saíssem mulheres de empolados vestidos compridos cheios de atilhos e crianças de toucas, e de cowboys sempre atentos aos ataques. 

    Depois há memórias do futuro sempre adiado. Está por fazer a viagem à América do Sul, para encontrar a cadeira do Rubicundo dentista, a cabana e a fotografia da mulher desaparecida e o medo da fera, do Velho que lia romances de amor do Sepúlveda, ou  Nívea a Clara e a Blanca, a mesa da cozinha onde ainda deve jazer um corpo e todo o esoterismo cru da Isabel Allende, se bem que saiba que posso sempre encontrar o Jeremy Irons no Alentejo.

    1. Também o pode encontrar em Lisboa, Isabel, no Comboio Nocturno para Lisboa – e será sempre um belo encontro 😉
      🎄
      Maria

          1. 🙂 É gráfico, como se diz agora.

            Foi uma das palavras especiais que despontaram hoje, esta e o fedúncia.
            Ainda não tive pretexto para usar a segunda, por isso fica aqui a despropósito.

        1. Como assim, Isabel?
          É um filme, eu vi em dvd, mas ele deve estar na net.
          O livro é muito melhor do que o filme, mas vale sempre a pena ver o Jeremy Irons, mesmo num filme medíocre, penso eu…
          Maria

          1. Maria, disse que ficava à desamão, porque vivo no Porto. 🙂

            Li o livro antes de ver o filme, e o resultado é o de sempre, prefiro a leitura, apesar da admiração por Jeremy Irons.

          2. Maria, desculpe a lerdice. Só depois do comentário anónimo percebi. Não vi o Comboio Nocturno para Lisboa. Ainda estava na Casa dos Espíritos.

            É o que dá meter-me com gente sábia. Só faço vergonhas.

          3. De modo nenhum, a Isabel é das comentadoras mais interessantes do Delito 🙂
            Pensei que tinha visto esse filme (adaptado de um romance do Pascal Mercier) que já tem uns anitos.
            Nem tinha reparado nesse comentário anónimo.
            Então está no Porto… e está muito bem 🙂
            O Puôrto é lindo, carago!
            Bom fds, Isabel.
            ⚘
            Maria

        1. Não me meto onde?
          E eu incomodei, ou sequer mencionei o Pascal Mercier?
          Que comentário tão “a despropósito” (obrigada, Isabel ), senhor anónimo.
          Se bem que, pela forma e pelo conteúdo, eu até diria que sei quem é o anónimo.
          E eu é que peço para me deixar em paz, okay?
          Fez bem em seguir-me e vir conhecer o Delito e o Horas da Rosário, dois excelentes blogs, mas fez muito mal em seguir-me no blog da Paula, onde com aquele comentário estapafúrdio, fora de contexto, idiota mesmo, me pôs em cheque e a levou a encerrar a Pomba Doce.
          E isso, caro senhor ou senhora (sei lá quem é), apesar de estarmos no Advento, nunca lhe vou perdoar.
          Repito: Deixe-me em paz!

          Maria

          PS: Pedro, obviamente, deixo ao seu critério publicar ou não.

          1. Muito obrigada pela confiança, Pedro.
            Espero que ele desista.
            O blog era ‘a doce pomba não morreu’ de uma Senhora culta, inteligente e com muito sentido de humor (Paula), com quem tive o prazer de trocar comentários durante apenas 3 semanas, pois alguém se meteu com gracinhas e estragou tudo.
            A Paula disse que pensava que eu e essa criatura éramos a mesma pessoa (ou seja, que andávamos a brincar com ela), deu-nos um raspanate e encerrou o blog. E eu fiquei devastada, (por mim, mas principalmente por ela, que não merecia ter passado pelo que passou).

            Eu andava a ver os posts anteriores, precisamente as impressões dela sobre Florença (que fiquei com vontade de conhecer desde que vi A Room with a View, mas nunca foi possível…), só que ficou tudo a meio 🙁

            E ele ficou caladinho durante uns dias, mas depois voltou aos blogs do costume, a meter-se com gracinhas sem graça nenhuma… e agora até nos blogs do sapo!
            Enfim, uma tristeza…

            E é isto, Pedro.
            Obrigada, mais uma vez.
            ⚘
            Maria

          2. Desconhecia tudo isso, Maria. Mas aqui tal criatura fica à porta, é garantido.

            Nem alguma vez este blogue fecharia por X ou Y dizerem não sei o quê numa caixa de comentários.

            Em quase 11 anos já apareceu por cá um pouco de tudo. Mal seria se desistíssemos por tão pouco.

          3. Era um blog intimista, Pedro, tinha poucos comentadores (contudo alguns ilustres como o xilre); por vezes era só eu e era muito bom.
            Hoje fui à Bertrand (que está a fazer 20% nas novidades dias 7, 8 e 9) e comprei um livro de que a Paula me tinha falado lá no blog: ‘Harmonia’ do António Colinas, Assírio & Alvim.
            Já agora, também comprei a biografia do Bergman pela Cristina Carvalho; os ‘Diários de Emília Bravo’ da Maria Judite de Carvalho; o ‘Rapazinho’ do Lawrence Ferlinghetti (um little boy da Beat Generation que já fez 100 anos) e ainda – não se ria, Pedro – o último do Corto Maltese (um amor antigo que gosto de manter ).
            Agora falta decidir que livro vou lá buscar com os 17,20€ que ficaram no cartão.
            Boas Leituras, Pedro.

            Maria

          4. Eu vi, ela foi muito simpática 🙂
            Por acaso até já troquei alguns comentários com ela no blog da Maria do Rosário Pedreira, felizmente a Cristina Carvalho não sofre de vedetismo agudo, doença muito comum entre nós.
            🍁
            Maria

  6. Estive em Viena em Março, há muitos anos, e também tive a sorte de apanhar um nevão em Schöenbrunn, precisamente (já agora espero que tenhas feito a subida até à Glorietta: atrás situa-se um lago e um bosque de abetos e pinheiros que com neve dá o postal de natal perfeito). Uma imagem que nunca vou esquecer. Mas em dez dias consegui fazer uma porção de coisas: assisti a conferências no mesmo palácio de Schöenbrunn, deambulei pela cidade, estive numa sessão da ONU – ladeada pela Aristides Sousa Mendes strasse – estive num baile de gala, fui à ópera, conheci a “noite” vienense, jantei nos heurige, passei pelo Hotel Sacher e pelo Hotel Central para comparar os respectivos bolos de chocolate (o do Sacher continua a ser o melhor), andei na roda do Prater, avistei ainda o fim de um comício político do famigerado FPO, incluindo Jorg Haider, então em alta (quando partidos populistas de direita eram então uma raridade na Europa), e claro, visitei a catedral de Santo Estêvão, a Karlkirche e o Hermitage, etc, Acho que só me faltou ir ao palácio de Hofburg. Por tudo isso, essa é uma das viagens da minha vida. Depois dessa foto, era impossível não me recordar desse tempo.

    Mas creio que nunca estive numa cidade depois de inspirado num livro (o contrário sim, ler um livro com uma cidade conhecida em pano de fundo, como A Insustentável Leveza do Ser depois de Praga). Tenho de experimentar.

    1. Uau, os bolos do Sacher – candidatos a melhores da Europa. Imperdíveis.

      Fiz também esse circuito que referes: ópera, catedral, Glorietta. E o Museu de Viena, o Museu das Belas Artes.
      Para ver as obras de Klimt, Schiele, Kokoschka e outros grandes nomes da pintura universal.
      Imperdíveis também.

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