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A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
(…)
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Poema ‘Pátria Minha’, de Vinicius de Moraes (excerto)

Entranho e estranho: faz-me cantar a minha, ao cantar a que minha não é.
Sim, entranha-se. Como dizia aquele que sabemos. E quanto mais se lê mais nos sentimos ali também, no todo ou em parte.
Essa pátria teria existido? Vinícius reconheceria esta actual pátria, se viesse cá?
Há a pátria que foi de Vinícius, dos baianos e da bossa nova, mas esta pátria actual não se sabe de quem é.
Pátria errante.
É pátria a mais.
Gosto mais da poesia do outro Vinicius.
Essa sim! espoleta-me satisfação mais evidente.
A outra é mais conhecida. Gosto muito desta também.
Lembrar Vinicius encheu-me de saudade desta carta que integra um disco fabuloso que há décadas me acompanha
https://youtu.be/h3HOlFEoakE
Excelente.