Sim, Pedro, concerteza, mas foi este que me amassou:
Poema, A Noite, de José Mário Branco.
Em tudo o que já fomos está o que seremos. No fundo desta noite tocam-se os extremos, E se soubermos ver nos sonhos o processo, Os passos para trás não são um retrocesso. A noite é um sinal de tudo quanto fomos. Dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos, Da ignorância pura e da ciência irmã, Em que, sendo passado, já somos amanhã. A noite é o espaço vago, o tempo sem história, Em que as perguntas nascem dentro da memória. Em tudo o que já fomos está o que seremos. Mas cabe perguntar : foi isto que quisémos ? Em tudo o que já fomos está o que deixamos. No fundo das marés, nos portos que tocamos. O rumo desvendado, o preço da bagagem, É tudo quanto resta para seguir viagem. A noite é parideira da contradição, Que existe em cada sim que nos parece não. Olhando para nós, os grandes dissidentes, No meio da luta, entre lemes e correntes, Será esta viagem feita pelo vento, Será feita por nós, em amor e pensamento? O sonho é sempre sonho se nos enganamos, Mas cabe perguntar : como é que aqui chegámos ?
Em tudo o que já fomos estão os nossos mortos. E os vivos que ficaram entram nos seus corpos Na noite do amor, na noite do sinal, Naufrágio de fantasmas na pia baptismal. A noite é o impreciso e escuro purgatório, Que alinha as nossas almas no seu dormitório. A culpa dos heróis é serem sempre poucos. Acaso somos mais, ou tão somente loucos? Temos que descasar a culpa e o prazer, No que fizemos ou deixamos de fazer, Para reconstruir os corações cativos. Mas cabe perguntar : acaso estamos vivos ? Em tudo o que já fomos há um sonho antigo, Conversa universal de cada um consigo. São sombras e brinquedos, tudo misturado, E o vago sentimento de nascer culpado. Será um sonho absurdo, este olhar p’ra dentro, E o nosso destino, só, servir de exemplo? Andamos a fugir à frente desta vida, Mas cabe perguntar : existe uma saída?”
“O refluxo do PREC obriga-nos a meter os pés no chão e dizer assim: “pá, vocês são uns sonhadores do caraças. Não têm jeito nenhum para isto. Houve aqui alguém que se enganou”. Mais uma vez, uma coisa tipo Maio de ’68. Para mim foi uma espécie de repetição. E eu acho que é isso o “Fim de Festa”. Se a gente tiver valores de base – o amor, a justiça, a liberdade, essas coisas básicas que eu adquiri muito cedo –, vamos fazendo tentativas de chegar a uma mudança da sociedade. São ensaios, historicamente falando. Como aquele cientista alemão Ehrlich, que descobriu a cura para a sífilis. Experiência Ehrlich 600 e tal – eles numeravam as experiências. Inventou o remédio para a sífilis, mas o remédio não era bom porque tinha chumbo e matava o doente. Matava a doença e o doente. Então ele continuou a tentar até que no Ehrlich 900 e não sei quantos ele descobre o remédio que cura a sífilis sem matar o doente. E a pergunta que a gente tem que fazer é: “quantas vezes é que nós já tentámos?”. Se formos pessimistas, achamos que é uma coisa tipo Sísifo. Ou seja, é uma condenação de estar a levar o penedo pela montanha acima e depois chegar quase, quase lá acima e o penedo soltar-se e cair outra vez para a base e andar nisto por toda a eternidade”
Belíssimo tema do último disco de originais gravado por José Mário Branco.
Sim, Pedro, concerteza, mas foi este que me amassou:
Poema, A Noite, de José Mário Branco.
Em tudo o que já fomos está o que seremos.
No fundo desta noite tocam-se os extremos,
E se soubermos ver nos sonhos o processo,
Os passos para trás não são um retrocesso.
A noite é um sinal de tudo quanto fomos.
Dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos,
Da ignorância pura e da ciência irmã,
Em que, sendo passado, já somos amanhã.
A noite é o espaço vago, o tempo sem história,
Em que as perguntas nascem dentro da memória.
Em tudo o que já fomos está o que seremos.
Mas cabe perguntar : foi isto que quisémos ?
Em tudo o que já fomos está o que deixamos.
No fundo das marés, nos portos que tocamos.
O rumo desvendado, o preço da bagagem,
É tudo quanto resta para seguir viagem.
A noite é parideira da contradição,
Que existe em cada sim que nos parece não.
Olhando para nós, os grandes dissidentes,
No meio da luta, entre lemes e correntes,
Será esta viagem feita pelo vento,
Será feita por nós, em amor e pensamento?
O sonho é sempre sonho se nos enganamos,
Mas cabe perguntar : como é que aqui chegámos ?
Em tudo o que já fomos estão os nossos mortos.
E os vivos que ficaram entram nos seus corpos
Na noite do amor, na noite do sinal,
Naufrágio de fantasmas na pia baptismal.
A noite é o impreciso e escuro purgatório,
Que alinha as nossas almas no seu dormitório.
A culpa dos heróis é serem sempre poucos.
Acaso somos mais, ou tão somente loucos?
Temos que descasar a culpa e o prazer,
No que fizemos ou deixamos de fazer,
Para reconstruir os corações cativos.
Mas cabe perguntar : acaso estamos vivos ?
Em tudo o que já fomos há um sonho antigo,
Conversa universal de cada um consigo.
São sombras e brinquedos, tudo misturado,
E o vago sentimento de nascer culpado.
Será um sonho absurdo, este olhar p’ra dentro,
E o nosso destino, só, servir de exemplo?
Andamos a fugir à frente desta vida,
Mas cabe perguntar : existe uma saída?”
https://youtu.be/NycZiWLnDww
“O refluxo do PREC obriga-nos a meter os pés no chão e dizer assim: “pá, vocês são uns sonhadores do caraças. Não têm jeito nenhum para isto. Houve aqui alguém que se enganou”. Mais uma vez, uma coisa tipo Maio de ’68. Para mim foi uma espécie de repetição. E eu acho que é isso o “Fim de Festa”. Se a gente tiver valores de base – o amor, a justiça, a liberdade, essas coisas básicas que eu adquiri muito cedo –, vamos fazendo tentativas de chegar a uma mudança da sociedade. São ensaios, historicamente falando. Como aquele cientista alemão Ehrlich, que descobriu a cura para a sífilis. Experiência Ehrlich 600 e tal – eles numeravam as experiências. Inventou o remédio para a sífilis, mas o remédio não era bom porque tinha chumbo e matava o doente. Matava a doença e o doente. Então ele continuou a tentar até que no Ehrlich 900 e não sei quantos ele descobre o remédio que cura a sífilis sem matar o doente. E a pergunta que a gente tem que fazer é: “quantas vezes é que nós já tentámos?”. Se formos pessimistas, achamos que é uma coisa tipo Sísifo. Ou seja, é uma condenação de estar a levar o penedo pela montanha acima e depois chegar quase, quase lá acima e o penedo soltar-se e cair outra vez para a base e andar nisto por toda a eternidade”