Senhor, falta cumprir-se Portugal


Paulo Sousa,

Nestes dias o principal assunto nos Emirados Árabes Unidos é a chegada de Hazza Al Mansouri, o primeiro astronauta emiradense (ou emirático) à Estação Espacial Internacional.

Chegou hoje pela manhã e de acordo com a Wikipédia é o seu 228º visitante, representando a 19ª nacionalidade a fazer-se presente neste veículo que se pode definir sem metáforas como sendo uma das fronteiras do conhecimento.

Além das bandeiras mais habituais nestas paranças, já por lá andaram um belga, um sueco, um dinamarquês, um cazaque, um sul-africano, um malaio e um espanhol.

Não consigo ficar indiferente quando olho isto e de seguida para aquilo que fomos e somos.

A importância que o nosso país, uma nação antiga, no contributo da descoberta das costas do mundo inteiro e na recolha de informação para que se pudessem desenhar os mapas e assim conhecer o globo onde vivemos esgotou-se há muito.

O tempo passou e no sec XXI a nossa mais recente conquista foi conseguir trocar défice financeiro por défice nos serviços públicos.

Tentamos esquecer que o quadro de pessoal do império português, na sua versão mais extensa do Brasil ao Japão, não ultrapassava 6000 pessoas, clérigos incluídos. Hoje temos mais de meio milhão de servidores públicos mas, ao contrário do que aconteceu no passado, vivemos obcecados com o próprio umbigo.

Nos tempos em que desbravamos o desconhecimento e vivemos na fronteira de ciência aportamos em muitas latitudes e também no desértico e desinteressante território onde Hazza Al Mansouri nasceu. Hoje o país dele ambiciona em sentar-se a bordo da ISS enquanto que no país dos outrora descobridores se discute quem é que sabia o quê e quem que é que anda a mentir.

Neste tempo sobressaltado de eleições gostava que pelo menos um dos candidatos se propusesse a nos levar pela mão e nos transmitisse a ambição de regressarmos às franjas do conhecimento, onde já fomos felizes para que então, como nos disse Pessoa, se cumprisse Portugal.

21 comentários em “Senhor, falta cumprir-se Portugal”

  1. Pessoalmente acho que está a sonhar demasiado alto. E Fernando Pessoa, um poeta maior, tinha também um sonho megalómano para o mundo português. Que não vejo como pode um dia ser verdade. Mas eu vejo mal, nada de desânimos.

  2. nos transmitisse a ambição de regressarmos às franjas do conhecimento

    Há em Portugal muitos cientistas (portugueses e estrangeiros, tal e qual como na época dos Descobrimentos) que trabalham nas franjas do conhecimento.

    Se incluirmos os indivíduos que, como Al Mansuri, têm uma certa nacionalidade mas trabalham nas franjas do conhecimento noutro país, então ainda há mais: muitos portugueses trabalham nas franjas do conhecimento em países estrangeiros (incluindo, ao que ouvi no outro dia, uma portuguesa que está a treinar para astronauta na NASA).

    Portanto, este post é indevidamente pessimista.

  3. Continuamos a sofrer do síndrome dos Fonsecas e Madureiras retratada na “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto e também cantado nesta canção de Fausto Bordalo Dias rematada tão bem assim: “na verdade o que vos dói
    É que não queremos ser heróis””
    https://youtu.be/G8cVqT7tSkA
    OLHA O FADO
    “Eu cá sou dos Fonsecas
    Eu cá sou dos Madureiras
    De ferro e puro sangue
    O que me corre nas veias
    Nasci da paixão temporal
    Do parto dos vendavais
    Cresço no fragor da luta
    Numa força bruta
    P’ra além dos mortais
    Mas tenho muitas saudades
    Certas penas e desejos
    E aquela louca ansiedade
    Como um pecado
    Meu amor se te não vejo

    Olha o fado

    Ora é tão vingativo
    Ora é tão paciente
    Amanhã é comedor
    Hoje abstinente
    Mentiroso alcoviteiro
    Doce e verdadeiro
    Uma vez conquistador
    Outra vez vencido
    Amanhã é navegante
    Hoje é desvalido
    Sensual aventureiro
    Doido e bandoleiro

    Somos capitães
    Somos Albuquerques
    Nós somos leões
    Os lobos do mar
    De olhos pregados nos céus
    De cima dos chapitéus

    Somos capitães
    Somos Albuquerques
    Nós somos leões
    Dos lobos dos mares
    E na verdade o que vos dói
    É que não queremos ser heróis”

  4. “Neste tempo sobressaltado de eleições gostava que pelo menos um dos candidatos se propusesse a nos levar pela mão e nos transmitisse a ambição de regressarmos às franjas do conhecimento,”

    O meu caro Paulo ou é pouco ambicioso ou na realidade adora o paternalismo do estado. Não percebo que alguém que tanto repudia a sombra do estado esteja à espera que um candidato se propusesse a tal feito.

    A colocar franjinhas no conhecimento anda este país a fazer há uns bons anos.

    Como país naufragado que somos, proponho que aproveitemos tão grande oportunidade para no mínimo explorarmos o fundo do oceano.

    1. Tudo na vida é feito de equilíbrios e a nossa realidade política está desequilibrada para a esquerda. Quando defendo menos estado não defendo estado nulo.
      Acho que os líderes políticos deveriam exactamente apresentar-se com uma visão mobilizadora para o país deixando o público escolher pelo voto.
      Qual a visão de longo prazo que temos para o nosso país? Devolver rendimentos? Fazer um aeroporto? Cumprir o acordo orçamental? Ferrovia de alta velocidade?
      Ouviu o que disse Horta Osório sobre o nosso nível de endividamento? Chegamos a este ponto por distribuir o que não temos. Só ultrapassaremos isto com crescimento económico efectivo.

  5. Não preciso que nenhum candidato me leve pela mão. Basta saírem-me da frente ou não se montarem nas minhas costas.

  6. Eu dispenso ter alguém no Espaço com um autocolante do benfica colado lá num sítio estratégico para se ver durante as transmissões para a Terra. Fiquem cá em baixo que é o lugar deles.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *