![250x[1].jpg 250x[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2019/21554672_26jAQ.jpeg)
«As pessoas mortas pertencem às pessoas vivas que as reclamam mais obsessivamente.»
James Ellroy, O Meu Quarto Escuro (1996), p. 384
Ed. Notícias, 1998. Tradução de Margarida Vale de Gato
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«As pessoas mortas pertencem às pessoas vivas que as reclamam mais obsessivamente.»
James Ellroy, O Meu Quarto Escuro (1996), p. 384
Ed. Notícias, 1998. Tradução de Margarida Vale de Gato
Todos levamos dentro de nós os nossos mortos. Vivemos, hoje, esquecendo aqueles que um dia decidimos enterrar. Como fantasmas, olhamo-nos ao espelho.
Vorph, isso que escreve: levar dentro de nós os nossos mortos – e é verdade – faz lembrar “as cruzes dos nossos mortos”.
Tempos em que se cultivava o idioma, muito que as ideias fossem diversas das nossas. E até insuportáveis (agora é ouvlr-lhes a novilíngua da forma, jubiloso triunfo da mediocridade; e o nada – ou bem pior, porque insuportável – do conteúdo).
Costa
Sinceramente não percebi bem em que direcção vai o seu comentário. Mas pensava, quando escrevi, que muitas vezes, os nossos mortos somos nós mesmos. Esses “nós”, que um dia decidimos matar, para o Eu continuar vivo . Seríamos assim feitos de fantasmas antigos, sendo o eu, de agora, não mais que uma fantasia, um futuro defunto. Não sou, hoje, o que fui, nem serei amanhã, o que sou. Já pensou?
Era (é) apenas isto, Vorph:
“Quando se tem vivida uma vida já longa, e, sobre longa, intensa, de trabalhos, de fadigas, de inquietações, até de sonhos, o caminho que percorremos fica ladeado de numerosas cruzes – as cruzes dos nossos mortos. E se essa vida foi sobretudo colaboração íntima, soma de esforços comuns, inteiro dom das qualidades nobres da alma, eles não ficam para trás: continuam caminhando a nosso lado, graves e doces como entes tutelares, purificados pelo sacrifício da vida, despidos da jaça da terra, sublimados na serenidade augusta da morte. Na verdade, há mortos que não morrem: desaparecem no seu invólucro terreno, na sua figuração humana, na fragilidade e nos defeitos e nas limitações da carne; mas o espírito continua a brilhar como as estrelas que se apagaram no céu há cem mil anos, vincam-se mais na terra os sulcos que o seu exemplo abriu e parece até que os seus afectos não deixam de aquecer-nos o coração. Nem de outra forma se compreenderia que a Providência suscitasse tantas vezes almas extraordinárias, cumes de beleza espiritual, e lhes não conceda mais que uma breve aparição, como voo de asa que corta o céu, botão que murcha sem revelar ao sol da manhã a graça e o perfume da rosa. Há mortos que não morrem, e nós que viemos de longe ou de perto, em saudosa peregrinação, somos os que testemunhamos que este não morreu.”
Discurso de António de Oliveira Salazar em memória de Duarte Pacheco, Loulé, 15 de Novembro de 1953, in Discursos e Notas Políticas, V.
(copiado, com a devida vénia, de um blogue infelizmente há muito inactivo: Portugal dos Pequeninos).
Obrigado, Costa, pela resposta. Fugindo ao meu escrito, porque lembrando quem, esse, escreveu.
Não raras vezes, os artífices das palavras, os comandantes das vontades, só conseguem amar a vida e os vivos pelos olhos da morte, não sendo ao amor, pelo outro, que dão abraço. Andam descalços, levados pelas correntes da auto-comiseração. Falam dos outros, sentem pelos outros, somente quando não esquecem os seus próprios sofrimentos. Medem a vida numa vara de dores. Bons mareantes apenas na borrasca, desorientam-se nas acalmias dos baixios. Prescutam o horizonte na esperança do mau augúrio (que nunca mais vem!)
Pois queira – se a vida também ignorante, enebriante. Louvemos os vivos, fora dos dias de enterro. Mas tanta é essa gente, unicamente, capaz de apreciar a vida longe dos vivos.
Prescrutam….inebriante.