O Síndrome do Robocop


Maria Dulce Fernandes,

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O plástico é uma praga.
A máxima de Lavoisier está incompleta. Nem tudo se transforma. Depois de convertida em plástico, a natureza perde a degradabilidade e consequentemente a capacidade de criar vida a partir do pó em tempo útil. Nenhum de nós tem o poder de viver mais de 500 anos para ver extinto todo e qualquer vestígio de pegada ecológica deixada pela poluição devastadora provocada pelo descarte de artefactos de plástico e derivados.
No nosso afã para mantermos a durabilidade das coisas pela arte da plastificação, deixamos de parte a única variável fundamental a qualquer equação em que a incógnita seja a introdução no corpo humano de matéria orgânica polmérica sintética, ou qualquer outra preparação criada in vitro que permita obter uma melhoria no desempenho e na longevidade do corpo.
Qualquer tentativa de plastificar a vida tem apenas resultado na sua anulação.
Qualquer “arte” plástica a que se submeta o corpo tem somente o sucesso efémero que a gravidade lhe permite. É tão normal a nova e renovada forma ficar disforme em curto tempo.
É por isso que, numa época em que toda a informação está disponível em tempo real para quase toda a gente, como se explica o uso e abuso de substâncias “plastificadoras” que incrementam a fisicultura, ao ponto de se morrer por ela?

52 comentários em “O Síndrome do Robocop”

  1. Os arqueólogos destaparam corpos antigos rodeados de flechas, arcos, machados. Sinais da sina desses tempos. Sérios, num sénior silêncio, pousaram esses restos mortais. Como nos acharão, a nós, os arqueólogos do futuro? Ossos, ladeados por bolsas de silicone, presumo, que muitos deles. Temo que ao silêncio lhe suceda a gargalhada. Sinais da sina destes tempos. Não mais estoiramos em ais, mas em gaitadas.

      1. A preocupação passou do outro, para este mundo. Estranhamente a gravidade não nos deu seriedade. E ao trazemos para baixo o paraíso mais sentimos o abismo. Ao contrário de Diógenes, não procuro o Homem, mas a lembrança de deus, nele. Para onde olhar? Em frente, ou para o alto?

          1. Sentimos tanto mais a beleza, quanto mais nos sabemos efémeros. E nesta era egotista, julgamo-nos donos do tempo e do relógio. Na ilusão da intemporalidade, prometemo-nos a um tempo que jamais será nosso. Adiamo-nos, esquecidos, acordamos atrasados. Oxalá o sono tudo cure.

          2. Sentimos, sabemos, julgamo-nos, prometemo-nos, Adiamo-nos, acordamos.

            Excluo-me, obviamente.

    1. Esses corpos eram de verdadeiros heróis, de lutadores que sem redes sociais, necessidade de aceitação e ainda sem sofás faziam alguma coisa (nem sempre bem) pelo mundo onde viviam… Esses sim, são corpos interessantes.

      No futuro, a arqueologia não se vai preocupar com o vazio 🙂

  2. Cara Maria Dulce, sigo com bastante atenção a sua prosa, as suas vivências e experiências que por aqui nos vai deliciando, mas não posso deixar de comentar este seu parágrafo:

    “Na nossa afã para mantermos a durabilidade das coisas pela arte da plastificação, deixamos de parte a única variável? fundamental a qualquer equação em que a incógnita seja a introdução no corpo humano de matéria orgânica polmérica sintética, ou qualquer outra preparação criada in vitro que permita obter uma melhoria no desempenho e na longevidade do corpo.”

    Não percebi patavina o que quis dizer. E depois, “…única variável fundamental…” como pode sequer afirmar com tanta certeza que é mesmo a única variável?

    De resto, é um prazer ler os seus pensamentos.

    CarlosC.

    1. Viva Carlos. Muito agradeço que aprecie ler os meus pensamentos.
      Nós ” plastificamos” tudo. Como raça dominante, “plastificamos” os outros animais. Para comer enchemo- los de antibióticos, agua e conservantes corantes etc. Para nos vangloriarmos da superioridade caçamo-los e embalsamamo-los para não se deterioriarem… Como raça inconsequente, “plastificamo-nos” a nós, com botox, com próteses, com injeções de hormonas modificadas e esteróides…
      A variável fundamental e única que descartamos quando avançamos para a “arte plástica” é a que demonstra que o corpo humano não é “plastificável” . Pode dar algum conforto ilusório por algum tempo, mas como é sobejamente demonstrado, a reacção que secunda uma acção irreflectida costuma ser desastrosa.

  3. Cara Maria Dulce,
    O histerismo dos plásticos é mais um, como a dor do talo de couve quando cortado com uma faca afiada.
    Não existem plásticos com 500 anos.
    Aquilo que daria origem ao plástico apareceu no segundo quartel do séc. XIX.
    Tenhamos calma, provavelmente, vai aparecer uma “lixívia” qualquer que elimina todos os vestígios do plástico.
    Quanto à segunda parte, mais do mesmo e as senhoras que colocam uma bolsa de silicone dentro do peito flácido? ou que colam umas unhas postiças em cima de unhas verdadeiras?
    Enfim.
    Viver rápido, morrer belo.
    É uma máxima como outra qualquer.
    Pensando na “inqualidade” de vida que têm os nossos idosos não é mal pensado de todo (acredite lido com muitos/com alguns deles, sei daquilo que estou a falar).

    1. Sim, Pedro Oliveira, e as senhoras que se plastificam com silicone, botox, etc.e que passados un anos ficam umas batatas porque a pele perde a elasticidade?
      Prefiro morrer tarde e feia do que me envenenar com alquimias.
      Não sou espartana; corpo, cultura e poder não fazem o meu género.
      E sim, a degradibilidade do plástico está estimada em cerca de 600 anos. Quando inventar a tal lixívia, com certeza que a mesma não irá actuar nas toneladas de plástico aterradas.
      Pelos idosos é importante fazer tudo o que possa aumentar a sua qualidade de vida, desde que não se deteriore ainda mais o avanço da idade.

    2. A plastificação está longe de ser uma ” tara ” exclusivamente feminina.
      Senhoras que colocam uma bolsa de silicone dentro do peito flácido e
      homens que colocam uma bolsa dentro de testículos flácidos.
      Esta última plastificação está coberta de um tabu desconcertante. Será tabu ?
      ou outra coisa mais complexa ?

    3. Não é bem assim, Pedro Oliveira.
      As senhoras que colocam uma bolsa de silicone dentro do peito flácido ou que colam umas unhas postiças em cima de unhas verdadeiras, sendo corpos estranhos não são de maneira nenhuma perigosos para a saúde dado não entrarem na corrente sanguínea.

      1. Desculpe mas não é bem assim.
        Quem não se lembra do escândalo das próteses defeituosas e
        altamente tóxicas que vitimaram tantas mulheres ?
        O risco zero não existe no que diz respeito a estas intervenções e respectivos
        produtos. ( curiosamente não me recordo de próteses de testículos defeituosas ).

      2. Há casos de rotura das bolsas que dão reacções inflamatórias importantes e casos de desenvolvimento de tumores como linfomas…

  4. É que não faço mesmo nenhuma ideia:). Para mim foi um plástico qualquer que lhes subiu à moleirinha. Morrer por parvidades destas não é só um desperdício, é criminoso.

      1. nesta vida morre-se muito e de muita maneira. Este afã de bem parecer cria pequenos e grandes monstros. Primeiro por dentro e quanta vez por fora. A dor que estes desaires envolvem.

  5. Isto acerca do actor(?) que está em coma porque abusou da seringa?
    O país vai acordar para o uso de substâncias para “cuidar” do físico. Acordar… fazer barulho, quiçá legislar, e no fim fica tudo igual. Pode ser que cheguem à tanga que é o impacto positivo do treino de alto rendimento que se faz nos ginásios na saúde das pessoas.

      1. Anonimus, sff 😉

        Fazer parte do quê, ao certo?
        Nunca percebi bem o isso do culto do corpo, e sempre fui um desportista ávido (até em excesso).

        1. Tem razão, Anonimus.
          Será que “arranjar” o nariz, as maçãs do rosto, por exemplo ou fazer um implante mamário ou um six-pack abdominal é condição para se ter status social?
          Qualquer actor/actriz, socialite ou aspirante a tal , por muito obscura que seja a sua condição, basta “ir ao bisturi” e é logo notícia. Muitas vezes de capa de revista. Lamentavelmente verdadeiro.

  6. Um triste qualquer (nem interessa quem, nem o que faz) fez más escolhas, mal informado ou até bem informado mas menosprezou as consequências. Faz-se um equilíbrio do bem e do mal e às vezes corre mal.
    Tenho pena sim. Mas foram também as suas escolhas, pelas quais mais ninguém é responsável, por muito que tenham “ajudado”, seja o ginásio, sejam os “colegas”, a profissão, o serviço nacional de saúde que agora o vai tratar…
    Lamentável é a quantidade de abutres que falam na televisão, escrevem nas revistas, nos blogues, nas redes sociais para conseguirem na arrancar um bocado de fama da carcaça de quem está no chão.
    Casos desde acontecem todos os dias, há anos e anos e quase sempre com substâncias ilegais ou administradas ilegalmente. Daí, não é preciso legislar.
    Se calhar devia-se legislar sobre os abutres…

    1. Por definição, abutres serão todos os que não atacam de frente, aprovetam-se apenas dos despojos pela calada, porque nas suas escolhas não incluiram manutenção de espinha dorsal.
      Anónimo também poderá ser um bom exemplo.

  7. Esta é uma daquelas questoes em que o senso comum nao tem duvidas. Desde logo porque o senso comum se compoe de adultos e adultos seniores, pessoas nao dadas a extravagancias tais, sendo que uma ou outra acaba por pecar, por experimentar.

    Portanto é uma nao discussao, chover no molhado, podendo até a publicidade abrir os olhos, incentivar outros a faze-lo.

    Eu preferia ver um estudo a dizer : este ano “drogaram-se ” mil, mas no ano seguinte ja so serao 800, e continuara a decrescer…. ou seja, o mundo a andar para tras.

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