My name is Bond – although the jury is still out on my first name


Diogo Novo,

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A capacidade de adaptação é essencial à sobrevivência. Mais do que um truísmo darwinista, trata-se de um princípio intuitivo para qualquer bípede que tenha de fazer pela vida. Devemos, contudo, ponderar as diferenças entre “adaptação” e “invenção”. A primeira acomoda à realidade aquilo que já existe, a segunda cria algo de novo. E o que é novo, por incipiente e frágil, tem maior probabilidade de não sobreviver. Tudo isto vem a propósito da última polémica em torno do espião mais famoso do mundo.

De acordo com uma fonte alegadamente bem informada, na próxima entrega da saga James Bond o código 007 é passado a uma mulher. A actriz escolhida será Lashana Lynch (na foto). Após 24 filmes – na verdade, contando com os não-oficiais, são 26 – e passados 57 anos da exibição do primeiro título da série, Bond troca a testosterona por estrogénio. O rumor despoletou uma arenga feroz. De um lado, os puristas indignam-se, pois Bond em versão feminina matará a essência e a história do personagem. Do outro lado, os hereges exigem que Bond espelhe as agendas e as causas do momento.

Confesso que a cor da pele da actriz me é absolutamente indiferente. Veria com bons olhos a substituição de Daniel Craig por Idris Elba, um actor, de resto, várias vezes apontado como o próximo a estar ao serviço de Sua Majestade. Não é uma cedência minha ao politicamente correcto nem às causas fracturantes, apenas creio que Elba tem três bons argumentos a seu favor: é um excelente actor; é britânico; e permitiria uma evolução do Bond de Daniel Craig sem uma ruptura abrupta com o passado. Bom, e Elba é homem.

Como bem escreve o Francisco José Viegas aqui ao lado, Daniel Craig é o melhor de todos os Bond. A sua substituição será difícil e o adiamento é prova disso – o actor expressou em termos contundentes a pouca vontade de protagonizar o filme agora em produção. Craig encarnou um James Bond celibatário e mulherengo, mordaz e inventivo, isto é, igual a todos os outros. Mas, em simultâneo, mostrou um espião que se engana, que tem dilemas, que sofre, inovações que muito se agradecem numa sociedade que parece viver obcecada com o êxito e com a perfeição. Com Craig houve uma solução de compromisso entre passado e presente, uma adaptação bem-sucedida. Transformar James Bond em mulher será uma invenção, um corte absoluto com o legado de mais de vinte filmes. Porventura uma agente secreta feminista e cáustica que use os homens a seu bel-prazer dê um filme interessante – tenho a certeza que me divertiria – e até uma saga com êxito, mas não será um Bond.

No texto já citado, o Francisco recupera declarações Phoebe Waller-Bridge, a guionista do próximo filme, que deviam ser óbvias e que denotam uma mudança importante na forma como a franquia cinematográfica retrata o sexo feminino: “Bond é Bond, mas as mulheres também são (felizmente) novas e diferentes daquilo que aparecia nos ecrãs nos anos 70 ou 80”. Waller-Bridge tem fama de feminista desenfreada e será dela a intenção de atribuir o código 007 a uma mulher, um rumor que não bate certo com as declarações anteriores. Esperemos que impere o bom-senso e que se fuja daquilo que o Alexandre Guerra justamente apelidou de idiotice. É James, não Jane.

44 comentários em “My name is Bond – although the jury is still out on my first name”

  1. É o século XXI. As mulheres representam apenas 30% das personagens dos bons guiões. Há que impor quotas (proponho para palavra do ano 2019 …) para boas personagens femininas. As ideias surgem e acontece o Spin-off feminista de “Ocean´s de Steven Soderbergh”. É um exemplo do que acontecerá ao “Bond, Jane Bond”. Um flop monumental, o plano do assalto de Sandra Bullock é tão fraco que a única regra que ela estabelece para a ação, que não haja nenhum homem no grupo, é traída no clímax, quando um actor realiza o elemento mais complexo. O feminismo “descabelado” traído na sua essência por erros básicos e elementares. Sherlock Holmes sobreviveu a adaptações onde a suas opções sexuais foram questionadas, a sua dependência da cocaína banalizada, e recentemente sua fleuma britânica substituída pela veia de Indiana Jones, não sobreviverá à mudança de género. Nem com Meryll Streep lá chegarão, a não ser que Meryll interprete um travesti masculino, nesse caso ganhará o seu quarto óscar! Em tempos palermas a idiotice é o melhor remédio!

    1. Inshallah, Bea. Mas depois de um rumor muito indefinido no final do ano passado (e ao qual se refere o ‘postal’ do Alexandre Guerra), eis que nos chega outro, desta feita mais concreto. Espero o pior.

      1. Pior?! Ser uma mulher a desempenhar o papel de James Bond?! Mau Maria. Deixe lá a senhora experimentar. E fale-se depois sobre. E olhe que sou uma conservadora. Mas é verdade que esse é para mim um não assunto, coisinha de nada.
        Tenha um dia bom, Diogo

  2. A correcção política é tanta que qualquer dia suprimem a pistola ao Bond. Passa a andar de bisnaga.
    Ou nem isso: torna-se pacifista radical e aparece de flor nos cabelos, tornado ‘hippy’. Apregoando “peace & love”.
    Depois sai do armário concorre a Miss Universo Transgénero.

  3. Haverá quem goste.
    Uma Bonda que não coma carne, conduza um Tesla, evite explosões (toda aquela combustão deve fazer mal ao planeta) e recicle. E beba chá de camomila feito com água da torneira. Beber martinis é um apelo ao alcoolismo.
    E que quando aparecerem os vilões (homens caucasianos, não vamos ofender outras etnias), antes de puxar da pistola, fale com eles, tente compreender as suas motivações e frustrações.
    Ah, e lésbica. Convém.

    1. Meu Deus! Beber chá com água da torneira é politicamente correcto? Mas faz-se chá sem ser com água da torneira? As coisas com que me assaltam neste verão tristonho.

  4. Só uma adenda. O melhor Bond foi Sean Connery. O novo OO7 fará do sexo, arma de investigação, ou será tal abordagem considerada misógena? Já agora, continuaremos a ter Bond girls ( sendo a agente bissexual/ lésbica), ou serão substituidas por Bond guys?! Eu faria da agente, uma lésbica, tendo em consideração que a maior parte do público alvo, destes filmes, é masculino….com cenas lésbicas e tiros, todos ficariamos a ganhar..ah, só mais uma coisa. Cereja em cima do bolo. Lésbica e Ninfomaníaca…bang, bang

      1. Daniel Craig é, um Bond muito, muito bom. Será um melhor Bond do que Connery? Concedo que até possa ser – mas também digo que o Bond que foi posto à sua disposição é um personagem muito melhor do que aquele com que Connery teve que trabalhar.

        1. De acordo, João. Tivesse Craig de interpretar o Bond escrito para Pierce Brosnan e a avaliação seria outra. De facto, a fase Craig conta com bons guiões e boas histórias.

  5. O Daniel Craig é um bocadinho sorumbático, se formos ser justos com o personagem de Fleming.
    De qualquer modo, acho um disparate pegado isto da Bonda.É que é uma ideia tão sabuja de quotas, que não faz qualquer sentido.
    Qualquer dia o Ramalhete é a Gaiola das Loucas, sei lá

    1. Nem mais, Maria Dulce. O Ramalhete será a Gaiola das Loucas, o Carlos da Maia será um ‘hipster’ que nasceu Jéssica, o João da Ega será um cientista asiático adicto ao trabalho, etc. Será um admirável mundo novo.

    2. Agora peço-lhe eu que “não lhes dê ideias”. Nem o Ramalhete escapa? Uma Carla da Maia e um Mário Eduardo, é isso (ou mantinha-se uma Maria Eduarda, mas sujeita a um aggiornamento sáfico)? E com a Carla, quem correria para o americano, pela Rampa de Santos, para “ainda o apanhar”, a Joana da Ega? Depois de se erguer e atirar “(n)um gesto desolado”, “falhamos a vida, menina!”?

      Ou seria o Carlos da Maia e o Mário Eduardo? Com um João da Ega forçosamente “bi” e talvez de etnia “minoritária”? Em todo o caso, isto tudo em acordês – evidentemente – tudo muito correcto e integrando o plano nacional de leitura. Em nome do multiculturalismo e da inclusão.

      Não lhes dê ideias…

      Costa

      1. Os 7 eram pequenos mas não eram crianças,
        talvez por isso a Branca de Neve , sem pudor os enfeitiçou.
        Desconhecia a existência do produto tóxico.
        Sendo assim , com tanta poluição não seria politicamente correcto
        utilizar uma personagem que não branca.

    1. Há uns meses estalou uma gritaria nos USA com umas
      esganiçadas completamente histéricas simplesmente porque um
      branco usava dreadlocks. Inadmissível lhes roubarem assim a sua cultura.
      ( um emaranhado de sujidade e bicheza).

  6. Eu cá acho bem. Agora que a rainha se vai reformar, é bom que o agente ao serviço de sua majestade seja uma mulher ao serviço de Carlos.

  7. “Devemos, contudo, ponderar as diferenças entre “adaptação” e “invenção”.”

    Não tenho nenhum cavalo nesta corrida em particular, mas o tema interessa-me em abstracto – e neste ponto em particular não posso deixar de discordar. Alterar o género de uma personagem fictícia continua a ser uma das possibilidades da adaptação – tal como alterar a época em que a narrativa decorre, ou até mesmo a cor da pele. É apenas uma interpretação diferente, com uma perspectiva diferente. Neste caso concreto, ao que parece, o projecto nem irá tornar James Bond em “Jane Bond” (Daniel Craig lá aceitou regressar); o seu nome de código é que é atribuído a outra personagem, neste caso a uma mulher. Bond, pelos vistos, continuará a ser Bond, e haverá pelo menos uma mulher que será diferente do habitual da série – a mim, isto parece bater certo com as declarações anteriores de Waller-Bridge (que me pareceram acertadas). Olhando para isto de fora, diria que o resultado tanto pode ser uma óptima história como um disparate que não vai agradar nem aos gregos nem às troianas. Mas nem por isso deixará de ser uma adaptação – mesmo que tome mais liberdades do que o habitual.

    Invenção seria criar uma personagem nova de raiz, numa narrativa própria e original – e pode-se argumentar se a “questão” feminista não ficaria mais bem servida criando novas histórias para novas personagens femininas, ou adaptando histórias já existentes com boas personagens femininas (ocorrem-me várias), em vez de se continuar a remexer em narrativas trabalhadas inúmeras vezes, e frequentemente datadas.

    Não obstante, houve casos em que o “genderbending” resultou. À época o remake de “Battlestar Galactica” também gerou polémica (ainda que menor, por as redes sociais estarem ainda longe da dimensão actual) pela transformação do Starbuck na Starbuck. E a Katee Sackhoff tem um desempenho memorável, mesmo quando nas últimas temporadas a qualidade da escrita da sua personagem caiu a pique. E houve (há) ainda “Dr. Who”, mais recente e não menos polémico – embora deva reconhecer que aqui a premissa seja mesmo muito conveniente (o que nestas discussões costuma servir de muito pouco).

    Em última análise, será tudo uma questão da qualidade da escrita, ou da falta dela.

    1. João, mas o Bond criado por Ian Fleming seria desfigurado, psicologicamente, caso fosse substituido por uma mulher. O 007, não é apenas definido pela licença de matar, é todo um modus vivendi que é muito mais compativel, coerente, credivel com um personagem masculino(o mesmo sucederia com Sherlock Holmes; mudá-los, de género, seria um desrespeito com os seus criadores). Há personagens-tipo de tal maneira emblemáticos, idiosincráticos que não devem ser mudados, com o risco de os “matarmos”, de os fazermos ridiculos.

      1. Certo. Mas continuaria a ser uma adaptação, por má que pudesse ser. O meu ponto é só esse. Eu não ligo muito a espiões; prefiro a Starbuck, a Ripley e a Connor. 🙂

    2. Desta vez, meu caro João, ‘we agree to disagree’. No caso em apreço, alterar o género do personagem não seria uma adaptação, mas sim uma ruptura com o estribo da história. Bond não é um personagem saído de uma série televisiva recente que possa acomodar ‘remakes’ profundos. Há um longo lastro cinematográfico – e literário – que, podendo ser adaptado e reinventado, deve observar o cumprimento de mínimos olímpicos. E o género do personagem é um deles. Quanto à cor da pele, como refiro no ‘postal’, é-me indiferente. Com todo o respeito por Timothy Dalton, não tenho a mais pequena dúvida que um Bond interpretado por Idris Elba seria incomensuravelmente melhor.

      Se, como dizes, Bond continuará a ser Bond e haverá apenas uma mulher que será diferente do habitual da série – algo que os rumores não deixam claro – nada a opor. De resto, as personagens femininas dos últimos filmes são bastante diferentes daquelas que entraram nos primeiros títulos. Foi, a meu ver, uma mudança que se agradece (veja-se a fantástica Miss Moneypenny encarnada por Naomie Harris). Mas o que interpreto da boataria que corre é que haverá uma personagem feminina que assumirá o código 007, que terá uma narrativa própria e original e que, chamando-se Jane Bond ou Maria Sousa, substituirá a prazo Bond. A ser verdade, é disparate do grosso.

      Sim, a qualidade da escrita é essencial. Pierce Brosnan não é mau actor, tem um perfil muito adequado ao personagem, mas os filmes eram inenarráveis. Não há milagres. Daniel Craig, sem prejuízo dos seus méritos, beneficiou muito dos guiões. Mas entregar um personagem que é, por definição e natureza, masculino a uma mulher é um disparate. Seria como transformar a Wonder Women num homem. Nunca teria sucesso.

      1. Com os super-heróis as coisas serão talvez um pouco mais cinzentas. Não sou a melhor pessoa para falar disso, já que conheço pouco do género (prefiro outros comics), mas no caso da Wonder Woman já existe o Superman, o Batman, e toda uma vasta galeria de super-heróis criados pela DC, pelo que a necessidade de alterar o género à Wonder Woman seria escassa (ainda por cima sendo um ícone feminista). Quanto muito, haverá muita gente a querer mais super-heroínas, ou super-heróis com origens mais diversas, já que super-heróis masculinos e causasianos sempre foram a pré-definição do género (os filmes da Wonder Woman e do Black Panther não foram êxitos de bilheteira por acaso). Já não acontecerá o mesmo com as narrativas policiais e de espionagem, géneros que julgo continuarem a ser essencialmente masculinos.

        Verdade seja dita, também não sou a melhor pessoa para falar de 007, já que não aprecio o género. Mas sim, entendo que o género de um protagonista possa ser adaptado (e iremos continuar a assistir a isto nos próximos anos – voltaremos a falar disto quando a Amazon revelar o elenco para a adaptação de The Lord of the Rings).

        Como disse, tenho dúvidas de a opção seja a melhor, mesmo tendo havido casos em que a coisa tenha corrido bem (Dr Who não começou ontem, e Galactica também já tem os seus aninhos). Pensando em dois exemplos que me dizem muito, a Ellen Ripley de Sigourney Weaver e a Sarah Connor de Linda Hamilton são icónicas por terem sido personagens “próprias”, sem adaptações ou cedências. Pessoalmente, gosto mais de ler/ver novas histórias com personagens femininas e de outras culturas do que ver essas personagens e essas culturas marteladas num molde antigo e datado. Mas é o que temos.

        No resto, tudo isto é marketing; o tal politicamente correcto é um mero pretexto para tebtar agarrar mais algumas libras. Quem detém os direitos de 007 julgará chegar a outros públicos. Se isso resulta ou não…é outra história.

  8. Um 007 preto… Essas apropriações culturais de natureza supremacista é que chateiam. São estas imbecilidades que dão vontade de carregar no botão do ataque nuclear. Ainda por cima defendidas por um europeu que aprendeu estas parvoíces na escola pública.

    Mas a verdade é que por muito que façam filmes em que até o rei Alfredo é preto, a Inglaterra seja muçulmana e toda a Europa esteja coberta de prédios esburacados e de favelas — eles nunca serão brancos. C’est la vie.

    1. O Londonistão é invocado há muitos anos. E é ouvi-los, por lá, a garantirem – de forma não exactamente cordata; mas sempre sob protecção policial, garantindo a liberdade de expressão -, que a seu tempo a Albion será um emirato. Emirato; fórmula não exactamente compatível com a liberdade de expressão (um detalhe menor, enfim) e afirmada precisamente em oposição aberta e triunfante aos “nossos” valores.

      O que, vistas as coisas friamente, não surge na verdade como uma surpresa. A coisa, é pelo menos lícito antever, poderá acontecer dentro da maior e mais “ocidental” normalidade democrática, e não só por lá (nem por lá primeiro), pelo simples resultado do mais democrático e universal sufrágio. Não num futuro exactamente imediato – ainda lá espero ir, nos anos que me restam, beber umas pints e folhear o England an Elegy, sentado num jardim (não frequentarei certos locais, é tudo) – mas afinal não tão distante.

      É que é bem capaz de ser apenas uma questão de demografia. E de paciência (deles; e nem muita). Não se percebe, aliás e perante isso, por que se matam. Deve ser por causa das setenta virgens (ou lá quantas são).

      Elas e puro ódio.

      Costa

  9. Tenho uma ideia: não será possível começar o próximo filme do Bond com ele como homem, descobrindo o agente secreto a meio do filme que, afinal, lhe foi atribuído o “género” errado à nascença, dando-se, após rápida “transição”, o termo do filme com o Bond já “she”?
    A mudança de etnia pode dar-se já na 250ª sequela da saga, quando a Bond transgénero chegar à conclusão que lhe foi atribuída à nascença uma identidade étnica que não corresponde ao seu verdadeiro “eu” étnico. “Transição” michaeljacksoniana às arrecuas e… hop-la, assunto resolvido!
    Para os amantes da saga (eu, não me levem a mal, não me incluo no grupo) a satisfação será pouco menos que eterna: com tanto “género”, ainda deve haver Bond lá para o ano 3500 da Era Comum.

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