O laicismo pode esperar


Pedro Correia,

thumbnail_20190620_123642.jpg

De barco na Ria Formosa, ontem, em Cabanas

 

Ontem teria sido um dia muito indicado para os mais frementes militantes do laicismo saírem em defesa desta bandeira, entre indignadas proclamações contra as ingerências religiosas nas leis que regulam o funcionamento do Estado. Mas não lhes ouvi sequer um sussurro. Talvez tivessem feito como eu, a banhos algarvios no feriado nacional que celebrou o Corpo de Deus.

Aposto que agirão da mesma forma a 15 de Agosto, feriado nacional que celebra a Assunção de Nossa Senhora. O laicismo pode sempre esperar.

0 comentários em “O laicismo pode esperar”

  1. O Pedro Correia tem toda a razão: não há qualquer motivo para que o Corpo de Deus seja feriado nacional. A imensa maioria da população portuguesa está-se marimbando para o Corpo de Deus (que aliás é uma coisa que não existe, pois Deus, por definição, é incorpóreo).

    É um feriado que foi muito bem eliminado por Passos Coelho, e que não deveria ter sido restaurado (ao contrário de alguns outros feriados).

    1. “A imensa maioria da população portuguesa está-se marimbando para o Corpo de Deus”
      Mas não se está marimbando para o feriado.

      1. Quando Passos Coelho suprimiu dois feriados religiosos (mal, a meu ver), ia caindo o Carmo e a Trindade.
        Até ateus empedernidos viraram devotos da Santa Madre Igreja.

        1. “suprimiu dois feriados religiosos (mal, a meu ver), ia caindo o Carmo e a Trindade.” Claro, os portugueses não se estão marimbando para os feriados.

          1. Nunca vi tantos “católicos” aos gritos como nesses anos em que dois feriados religiosos foram suprimidos. Todos ansiavam por celebrar o Corpo de Deus.

    2. Eu não digo que há ou não razão na existencia deste feriado.
      Limito-me a anotar a hipocrisia daqueles que estão sempre prontos a rasgar as vestes contra a Igreja Católica em nome do laicismo mais radical e no entanto jamais se insurgem contra a manutenção dos feriados religiosos no calendário laboral definido pelo Estado português.
      É um laicismo de geometria variável.

    3. Tem razão, caro Anónimo. A imensa maioria da população portuguesa está-se marimbando para o Corpo de Deus. Profunda verdade.
      Mas uma maioria ainda maior, quase atingindo a totalidade, não se está marimbando para um feriado que cai que nem ginjas.
      Ai é do corpo de Deus? Há que respeitá-lo que isto somos uma nação de fervorosos católicos e não queremos ir parar ao Inferno.
      Ámen!

      1. O que seria de esperar de uma nação em que a maioria dos comungantes do desporto com mais devotos chama “Catedral” ao seu estádio e exige “mística” aos seus jogadores?

  2. Os monárquicos trabalham a 5 de Outubro? Os iberistas apresentam-se no emprego no 1 de Dezembro?
    Acho que o laicismo não é impeditivo da liberdade de culto. Igrejas, procissões, romarias, façam as que quiserem. Missa dominical na RTP, nada contra.
    Daí a colocarem religião como disciplina escolar ou obrigarem a usar símbolos como crucifixo ou hijab vai um longo caminho.

    1. Iberista, não conheço nenhum.
      Monárquicos, conheço vários. Celebram – como eu – o 5 de Outubro. Não cono data da implantação de nenhum regime político, mas da fundação de Portugal, a 5 de Outubro de 1143.

  3. E aposto que na Páscoa se alambazarão com carnes vermelhas e mal passadas. Os feriados cristãos já não são mais que romanos repastos. Carpe Diem

    Para quando uma petição para, ao Natal chamarmos, novamente, Festa da Familia, ou Saturnália? ( julgo que os jacobinos, no séc XIX, proibiram, em Portugal, a celebração da natividade do filho do Homem)

  4. Há pelo menos uma coisa em que o PSD de Passos Coelho e o PCP de Jerónimo de Sousa estão de acordo: um feriado é somente um dia em que não se trabalha, e o motivo para que esse dia seja feriado é perfeitamente irrelevante. Tanto faz que seja Corpo de Deus como Primeiro de Dezembro, é irrelevante: a única coisa que importa é que é um dia em que não se trabalha.

    1. E o Natal, em vez de celebrar o nascimento de Cristo, passaria a festejar-se a 5 de Maio, dia de nascimento de Marx.
      Transferindo-se a Páscoa para 21 de Janeiro, data em que Lenine morreu (não tendo ressuscitado até hoje).

  5. Esqueci completamente o feriado, talvez por ter trabalhado. Mas está bem observado – feriados religiosos só deviam ser gozados por pessoas dessa religião, seja ela Católica ou Função Pública (parece que esses vão ter mais um para levar os filhos à escola no primeiro dia de aulas, benesse vedada a outros credos).

      1. Parece que me enganei, são 3 horas por pirralho, cumulativamente. Quem tiver 3 pirralhos tem 9 horas, e folga. Quem tiver só 1 tem a manhã livre. Na práctica é melhor não contar com os serviços nesse dia.

          1. É capaz de se tornar surreal, os professores tirarem a folga para levar os filhos e não haver aulas porque os outros professores foram também levar os filhos, sendo que o primeiro dia de aulas passa efectivamente para o dia seguinte, no qual sucede o mesmo, num loop.

            O problema aqui é mesmo sério, é como o feriado de Carnaval, que não existia e passou a existir por estupidez de Cavaco Silva ou Guterres. O Governo podia passar perfeitamente sem isto, que se vai tornar num direito adquirido, defendido com unhas e dentes pelo PCP e pelo Tribunal Constitucional. Ora as aulas, por coincidência, geralmente começam a uma quinta-feira, portanto, com uma boa gestão arranjam-se umas mini-férias. É o que fazem com as “pontes”.
            Também desagradável é quem trabalha no sector privado ver tudo isto, ter que trabalhar mais, e saber que está a pagar a festa.
            Também desagradável é ainda ter de ouvir Catarina Martins e Marisa Matias virem todas contentes “descobrir” que “Portugal dá lucro”. A elas, não duvido.

          2. O Presidente da República promulgou entretanto o diploma com a ressalva de que terá de estender-se ao sector privado para evitar maior desigualdades entre os direitos e as regalias dos funcionários públicos em comparação com os restantes trabalhadores.
            Ao menos isto.

  6. Compreendo o sarcasmo, mas não concordo. Defender o laicismo do Estado não implica refutar a estruturante tradição católica do país e nisso findar com as festas religiosas em forma de feriados. Aqui (como em tantos outros países) comemora-se em forma de feriado o Pentecostes, em Portugal por razões que desconheço opta-se pela versão um pouco mais supersticiosa do Corpo de Deus. Mas isso são opções entre o Estado e a igreja católica, que datas consagrar. Ou então, seguindo-te, que se termine com a Páscoa, as liberalidades laborais da dita sexta-feira santa (e com as férias escolares) e com o Natal. Já para não falar do carnaval pagão.

    1. Meu caro, sobre a supressão dos feriados ocorrida em 2012, logo na altura, reflecti desta forma:
      https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5017428.html

      E a reposição do feriado do Corpo de Cristo, em Maio de 2016, suscitou-me a seguinte reflexão:
      https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/para-reflectir-neste-feriado-8475279

      Como refiro, em resposta ao leitor que primeiro comentou, a perplexidade que agora me levou a escrever o que escrevi resulta de chegar a sítios como este
      http://www.aateistaportuguesa.org/
      e não encontrar uma palavra, uma palavrinha apenas, a favor da supressão dos feriados religiosos.
      O tal laicismo de geometria muito variável…

      1. Eu sei, conheço a tua posição – e por isso comecei por dizer que compreendo o sarcasmo … bem merecido para com esses “radicais” veraneantes. Apenas usei o espaço para sublinhar que nem todos os pró-laicidade pensam assim. Aliás, os do laicismo não pensam mesmo como esses a que aludes, os comunitaristas do secularismo.

        1. Pois, fazes bem em vincar essas diferenças. A um desses “radicais” veraneantes, dotado até de capacidade legislativa por ser deputado da Nação, perguntei certa vez se o seu programa “radical” de “separação total do Estado e da Igreja” abrangeria a supressão dos feriados religiosos, tendo obtido a seguinte resposta: «Não! Bem vê, Pedro Correia, há que respeitar os sentimentos de inequívoca religiosidade do nosso povo.»

  7. O dia 15 de Agosto sempre foi feriado na minha aldeia, dia de romaria e convivência. Desde criança assim vi esse dia e ainda hoje o comemoro visitando a aldeia e os amigos e indo à romaria comer uns bolos e etc.
    Não sou católico mas deste feriado e respectiva romaria eu não abdico. E peço aos laicos que o sejam (como eu o sou) mas que não digam asneiras. De feriados e festas toda a gente gosta. Até acho que deveria haver mais religiosos ou não. Agora que há tanto muçulmano e indu etc. em Portugal, é boa altura para arranjar mais dias de festa. Ou os laicos querem acabar com o dia do Senhor, isto é, o domingo???

    1. Nada contra o 15 de Agosto, tudo a favor.
      Sou contra – isso sim – aqueles que, militando contra a religião, cumprem religiosamente as pausas laborais que decorrem da Concordata assinada entre o Estado português e a Santa Sé.

    2. Na minha aldeia também há feriado a 15 de Agosto (vai na volta e ainda somos vizinhos..!) . Não somos muito espertos lá na aldeia, ou teríamos escolhido para feriado local uma data que não fosse já feriado nacional… 🙂

      1. Eheheheheh… Muitas povoações celebram o 15 de Agosto, data de grande religiosidade popular. Também escolhida como festa local, em muitas paragens do País, por ser uma data em que muitos emigrantes estão de regresso em férias.

  8. Eu não professo qualquer religião, mas também não sou contra os feriados religiosos.
    Sou fortemente a favor de existirem feriados de outras religiões 😁😂😂

    Trigueiros

    1. Eu também! apoio incondicionalmente, sobretudo em paralelo.
      Quando fui para o Gabão em 77, havia uma religião, a católica e os feriados religiosos eram escrupulosamente respeitados. Sem dúvida educação ministrada a preceito pelos franciús certamente para dissiparem resquícios do São Bartolomeu; e havia os feriados referentes ao próprio país que também não pecavam por avareza. Dia da Independência, dia da ideia independentista, dia da discussão para o dia da independência, dia do consenso para a independência, dia do presidente, dia do vice-presidente, e por aí adiante.
      Um ano depois a juntar a estes feriados todos, vieram os muçulmanos porque o presidente, antes senhor Albert-Bernard Bongo, decretara o Islamismo no país, – sem abolir o cristianismo, – porque parece que o petróleo tinha mais propriedades energéticas, tendo ele mesmo dado o sublime exemplo de fé e passou a chamar-se senhor El Hadj Omar Bongo Ondimba.
      Sabe lá este povo português, eternamente oprimido, o que são feriados.

    2. Uma das melhores idéias que já li neste blogue. Numa sociedade que se quer multicultural todas as regiões deviam ter as mesmas prerrogativas. Se juntarmos os dias da independência ou fundação da nacionalidade de todos os países até podíamos abolir os despertadores

    3. É para mim incompreensível que um ateu devoto, laicista por convicção, opte por renunciar ao direito ao trabalho num feriado religioso. Tal como seria um iberista (não conheço nenhum) ficar a roncar em casa no 1.º de Dezembro.
      O ateu devoto e militante tem o dever ético, moral e cívico de lutar pela supressão destes feriados.

  9. Por acaso nem sabia que era feriado e só dei conta ao acordar ao ver a minha filha em casa a emperiquitar-se.
    A ausência da neta não estranhei porque há dias tinha ido para o pai. Vai daí.
    – Então hoje não foste trabalhar?
    – Não! hoje é feriado. Não sabias?
    – Não! então e que feriado é?
    – Ah! é um feriado muito importante para nós, católicos. É do Corpo de Deus.
    Sempre a espalhar batom, escova nos cabelos, e tal e tal: uma lindeza.
    E vou eu:
    – Olha! diz-me a que horas vens da missa para eu tratar do almoço.
    – Não vou à missa, pai; vou só sair.
    – Ah bom! como te vejo tão embonecada pensei que fosses. Como nunca vais à missa e como católica respeitadora que és pensei que fosses à missa.
    – Ó pai, ó pai. Lá estás tu com as tuas coisas. Não se pode conversar contigo.

  10. Tanta gente inteligente e bem pensante que por aqui vai. Foram todos baptizados mas nem sabem o significado desse sacramento, rendidos que estão à nova religião do laicismo. Sejam felizes que a vida passa rápido em especial para aqueles que não acreditam na próxima.

  11. Apoio, abaixo a folga aos domingos!, tudo a trabalhar 7 dias por semana! Vou ali acender uma velinha ao santo liberalismo.

      1. No pasa nada, caro Pedro, se já o saudoso Alienista ´achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos (…) mas, como tinha medo ao vigário, atribuiu o pensamento a Benedito VIII’. Ámen!

  12. Dos13 feriados nacionais 7 são feriados religiosos católicos”!
    Porque todas as religiões devem ser tratadas com total imparcialidade devem ser acrescentados ao calendário o mesmo número de feriados religiosos que contemplem todas as religiões reconhecidas em Portugal e instituídas através de uma Igreja própria.

    1. Se todas as religiões merecem o mesmo tratamento, seja qual for a sua relevância social, suprimam-se já os domingos – dias tradicional de descanso em sociedades com matriz cristã.
      Os muçulmanos elegem sexta-feira como esse dia e os judeus reservam os sábados.

      E suprimam-se todos os feriados religiosos – começando pelo Natal e pela Páscoa, que os ortodoxos festejam noutras datas.

      Que tal? Melhor assim?

      1. A festa que hoje chamam de natal é uma festa pagã milenar da partilha e fraternidade que se celebrava no solstício de Inverno com tantas variantes quantos os lugares onde era celebrada e ainda se celebra com o mesmo sentido por gentes do norte escandinavo.
        Os romanos sequestraram-na para a sua mitologia em honra do deus Saturno a que chamaram de Saturnália.
        Com o tempo a igreja Católica foi aproveitando e sequestrando as festas pagãs para as converter em festas religiosas em honra de santos e santas e foi assim que o Papa Gregório XIII a fez deslocar para o dia 25 de Dezembro fazendo-a de comemoração à natividade Cristo, a que deu o nome de Natal, palavra derivada do verbo nāscor (nāsceris, nāscī, nātus sum).
        Que os feriados nacionais católicos sejam substituídos por dias festivos iminentemente nacionais que até poderão ser rotativos tantas são as datas que honram Portugal e portugueses!
        Que as igrejas sejam obrigadas a contabilidade organizada, auditada e tornada pública e lhes seja abolida a isenção de impostos que incrementam os dos que que não as confessam e os dos que não confessam nenhuma, e que sejam os crentes a sustentar as suas igrejas.
        Que se acabe de vez com as passagens dos templos católicos para a posse do Estado a título de interesse cultural para serem reparados e mantidos com dinheiros do erário público e com alguns o Estado ainda paga à Igreja Católica para fazerem o que já faziam, ocupá-los e geri-los, e se acabe com a construção, reparação e obras em templos católicos com dinheiros das autarquias (os únicos beneficiados).
        Que se acabe com o abominável tratamento de parcialidade à Igreja Católica que continua a comportar-se e a ser tratada como se ainda fosse a igreja de estado!
        Que a RTP deixe de privilegiar a Igreja Católica com tempos de antena superiores aos das outras igrejas, programas católicos como a eucaristia dominical instituída por Salazar e ainda mantida, o programa católico 7×7 e largas coberturas de eventos católicos, cujos todos estes tempos de antena são pagos por todos os contribuintes.
        Que todas as igrejas sejam tratadas com total parcialidade e por igual.

        1. Seja consequente: trabalhe todos os domingos. E todos os feriados religiosos. Incluindo, naturalmente, o Corpo de Deus, a Assunção, o Dia de Todos os Santos, a Imaculada Conceição, a Sexta-Feira Santa, a Páscoa e o Natal.
          Demonstre a força das suas convicções abdicando desses dias de descanso e destes dias feriados.

          1. As práticas sexuais e religiosas não só não se impõem a ninguém como devem ficar confinadas aos olhares e aos ouvidos dos que nela intervêm.
            É crime iniciar as crianças e os adolescentes nas práticas sexuais e religiosas.
            Estas matérias devem fazer parte da sua e instrução e educação para que as possam ajudar, orientar e tomar as suas próprias opções em liberdade.

          2. Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos perdem poder quando põem em causa os dos outros!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *