
No longo e divertidíssimo anedotário de Juan Carlos de Borbón figura um episódio protagonizado pela então deputada republicana e catalanista Pilar Rahola. Com especial propensão para bravatas, provocações e disparates, Rahola foi buscar lã e saiu tosquiada. Contei essa história aqui.
Anos passados, a história repetiu-se, desta feita com o actual monarca e com uma sucedânea de Rahola. Laura Borrás, deputada da força política catalanista Junts per Cat, apresentou-se na audiência com Felipe VI envergando uma borboleta amarela na lapela, uma alusão clara aos laços da mesma cor que simbolizam o apoio à independência da Catalunha. Acto contínuo, Borrás deu ao monarca um recado de Carles Puigdemont, conhecido fugitivo e o mais temeroso dos independentistas. “O senhor Puigdemont informa que o aprecia mais como Príncipe de Girona do que como Rei de Espanha”. Ainda que sem o registo castiço do seu pai, mas igualmente certeiro nos tempos e no conteúdo, Felipe VI respondeu “pois eu apreciava-o mais como presidente da câmara de Girona do que como President”. Como se diz na esgrima: ataque, parada e resposta. Touché.

Mas pelo menos já dizem Girona (que se lê como em português) em vez de Gerona (que se lê Rerona).
É interessante como o rei evita o olhar directo, ao mesmo tempo que segue em frente, sorrindo. Uma linguagem corporal que revela um pensamento.
É apenas uma fotografia. Um instante, estático e captado naquilo que também se chama de “instantâneo”. Pode afirmar que o rei manteve sempre aquele olhar, naquela direcção? Pode afastar, com este simples registo, que por exemplo o rei tivesse momentaneamente olhado o fotógrafo, uma outra pessoa na sala, retribuisse uma outra saudação, enquanto se dirigia à senhora? Conhece o que se passou imediatamente antes e o que lhe sucedeu? Tem elementos que aqui não apresenta e que fundamentem o que escreve? Pode assim afirmar que pelo menos a elementar boa educação protocolar não foi seguida nesta saudação?
Isso de uma imagem valer mais do que mil palavras é uma consagrada tirada de retórica. Muito conveniente, mais ainda se vai ao encontro de (pre)conceitos que se deseja ver demonstrados. Mas daí a ser dogma…
Costa
Meu caro, não criticava! Apenas fazia uma análise de linguagem corporal, estática, e barata.