Fazer nada é a felicidade das crianças e a infelicidade dos velhos.
V. Hugo

Quem nunca deu de caras com o ponto G da ruptura emocional e psicológica, que atire a primeira pedra.
Não me digam que se resolve com uma boa noite de sono. Desconheço o conceito há bastante tempo. Talvez nunca o tenha verdadeiramente conhecido. Muitos são aqueles cujo espírito sossega durante as horas de descanso, mesmo que poucas sejam, vá.
Eu sou da raça que passa esse mesmo tempo em bolandas e correrias, em diversos e estranhos lugares, sempre com muita gente e em situações bizarras, algumas tão reais que me empurram para um acordar desnatural, extravagante até. Creio que foi sempre assim.
É claro que é absurdamente fácil alcançar o estado de oblívio total, mas tornamo-nos tantas vezes tão convencidos, desleixados e auto-indulgentes quanto à habituação aos meios que nos conduzem aos fins, que criamos aquele ouroboros de continuidade: não descansamos enquanto não abraçarmos o descanso e nunca alcançaremos o almejado descanso se não pudermos descansar.
Não há dia que passe, que num qualquer momento, a uma qualquer hora, um qualquer acontecimento não me leve a vegetar pelo delírio das improbabilidades. Olho para as mãos, conto os dedos pela enésima vez e tento convencer-me que afinal já não falta muito, falta é chegar lá.
Uma vez estabelecida a meta, o pódium de toda uma vida de trabalho, o tempo, que sempre correu célere sulcando profundamente o rosto com a marca da sua passagem, esse mesmo, sempre tão apressado em nos carregar a experiência com anos em cima de anos, dá-se ao desfrute do remanso para nossa exasperação.
Enquanto aguardo remetida à desvantagem e ao desfavor, cogito sobre os prodigiosos anos dourados ainda no reino do porvir, mas que suscitam ânsias e impaciências sem fim. Irei finalmente poder colher os pomos das hispérides plantadas e cuidadas por minhas mãos durante anos de labuta, e cujo néctar me libertará enfim para realizar os prodígios globais que sempre me motivaram a prosseguir com o meu caminho e a carregar a cruz dos meus dias maus.
Atentando bem na realidade, todos os meus objectivos são simples, por serem fruto de uma mente simples e pragmática. Coisa para três, quatro anos…
Cuida-me que em tendo realizado os meus propósitos, ainda me ouvirão lamuriar de insatisfação por não saber o que fazer com o tempo que me sobra e que, qual saco sem fundo, nunca consigo preencher a meu contento…

Da esperança pode nascer o vício de suportarmos o mal, de hoje, pelos presentes do amanhã.
Esperança subentende recompensa, e eu sou céptica quanto ao meu futuro, que contrariamente ao que diz o ditado, gostava que a mim pertencesse, Pedro.
Foi isso que quis dizer. Mas o ditado não diz que ” o futuro a deus pertence”?
Os ditados ditam uma sabedoria lá muito deles e, sem querer parecer herética, gostava mesmo muito que o meu futuro me pertencesse a mim.
Obrigado.
Não tem de quê! Sou eu quem lhe agradece, Vítor.
Não entendi muito bem este texto. Mas fiquei com a ideia de que lhe sobra tempo e não sabe o que fazer com ele. Pois devo dar-lhe os parabéns, o meu é sempre curto. Mas talvez seja porque, à semelhança de Miguel Esteves Cardoso, des penso, o futuro. É no presente que vivemos e só porque ele existe podemos chamar o passado e antever o dito futuro de que me vou desinteressando. Viver um dia de cada vez é função que me chega:).
Bom Domingo
O cansaço e o descanso são duas faces da mesma moeda que cada vez tende mais a estar virada para o mesmo lado.
Quem é que não anseia o descanso depois de uma vida de trabalho?
Irá chegar quando, se mata se vislumbra cada vez mais longe?
E será que tudo aquilo que nos propusémos fazer quando cortarmos a almejada fita, nos preencherá e satisfará? Ouserá que passados anos, ou mesmo meses de ociosidade incontrolada nos encontraremos sem saber bem o que fazer com todo o tempo que temos em mãos?
Bom Domingo Bea .
Irá chegar quando, se a meta se vislumbra cada vez mais longe?
Sabe o que acontece? Quando chega o tal descanso faz-se sempre a vida de outra forma que não a programada. Que ela foge aos programas. Não sou capaz de supor pessoas de ociosidade incontrolada:). gente a quem sobre tempo, que não tem nada para fazer. Que mundo é esse em que tudo está feito…palavra que não entendo. Parece-me que acontece o exacto contrário, a gente vai deixando tanta coisa que ainda gostava de continuar a fazer e não pode. Mas fica sempre muito por onde girar e gastar o resto das energias.
Boa noite:)
O meu marido trabalhou 46 anos e está reformado há quatro anos. Adiou N projectos para quando estivesse em casa. Tinha uma programação plenas de afazeres e conteúdos para os dias de ócio.
No que concerne a programas a solo, gastou-os todos nos primeiros 3 anos. Foram uns excelentes 3 anos.
Aqueles planeados a dois, vão acontecendo, dependendo da minha disponibilidade que é imensamente reduzida e ainda é coisa para termos que aguardar uns bons pares de anos.
Os restantes, em família, acontecem 3 -4 vezes por ano, consertando ao milímetro horários e folgas, etc…
Felizmente não está tudo feito, não, mas na impossibilidade de fazer o que falta, a rotina diária pode tornar-se um tédio.
Eu gosto da rotina:). O que me preocupa é se a mudo por impossibilidade física de cumpri-la. E não porque fique sem nada para fazer ou entedie, mas porque o que habitualmente faço, fica por fazer.
Contudo, existe muita gente que se deixa tomar pelo tédio. É mal que afecta certas classes sociais, mas não é apêndice que ataque as gentes que conheço. Estejam ou não na reforma. Presumo que os problemas e o trabalho preencham tanto espaço que o tédio não lhes chegue perto.
Bom Dia:)
Já eu, Bea, tenho mesmo que gostar de rotina…mal de mim.

Outras pessoas há que viveram quase toda a sua vida de adultos a dois e é difícil adaptarem-na a uma rotina a solo, principalmente quando a cumplicidade é grande e a companhia está mesmo ali, mas afinal não está lá.
Mas a situação em causa não é tédio, é falta de adaptação a viver só, saudade da companhia, coisas assim que a vida também traz. Vive-se de toda a maneira.
Ah, mas há-de convir que uma rotina desinteressante é enfadonha.
Dulce, no livro de Emma Reys que é afinal um conjunto de cartas, não há tédio, há o que há. Aconselho.
Há vidas infelizes; períodos menos bons, mas achar o interesse da vida é prerrogativa nossa, seja qual for a nossa situação. nem sempre é fácil.
Obrigada por mais um texto belíssimo.
Muito obrigada, Cristina.
Já levo bastante tempo, que mando no meu tempo, mas nunca me sobrou tempo. Todos os dias tenho de escolher, entre a imensidade de coisas, que posso fazer.
Já eu faço quase todos os dias o que tenho que fazer. Como faço o que escolhi fazer, não me resta outra escolha senão fazer o que faço no tempo que tenho para o fazer.
Se terei a sorte de mandar no meu tempo? Tudo faço para que assim seja.
Entretanto faço o que tenho que fazer enquanto espero o tempo passar para conseguirlá chegar.
Boa semana, Cheia