«Tenho muitas memórias, quer da infância, quer da juventude, mas todas elas muito dispersas, sem qualquer tipo de aglutinante integrador que lhes proporcione um sentido da redacção, quanto mais do conto. Mas qual conto? Isso é uma coisa de Autor. Eu sou só um mau leitor, tardio, que vivi a minha infância nos idos anos em que a escola era bem estimulada pela severidade, para lhe não chamar outra coisa, e que não estimulava a criatividade. As férias grandes eram de três meses e meio e, por compensadora coincidência ou não, aconteciam no período do ano dos dias intermináveis, para nossa sorte, embora sempre nos parecessem pequenos, demasiado pequenos para tudo o que desejávamos fazer, incluindo todas as brincadeiras da rua, do monte (ia dizer bosque, mas esta palavra, bosque, assim como charneca, são já tardias, oriundas das leituras da Enid Blyton), junto ao bairro, e dos campos, que percorríamos alegremente, ao longo dos caminhos sinuosos por entre eles até ao rio. Na verdade era um ribeiro, mas que para crianças era um grande curso de água, onde tomávamos longos banhos naquela água corrente quase gélida, mesmo sendo o Verão, sem qualquer tipo de controlo parental nem salva-vidas. Tivemos sempre connosco o nosso anjo-da-guarda.
Não havia, pois, tempo para leituras. Isso era coisa de adultos que não tinham que fazer, estavam permanentemente ocupados com tarefas inúteis, e sempre que se juntavam, passavam horas a fio a falar de assuntos estranhos e enfadonhos. Nós, crianças, ocupávamo-nos de coisas realmente pertinentes, tipo brincar na rua livremente, a tudo quanto um espaço quase sem carros nos permitia fazer, e éramos muito ruidosos, mas o ruído feliz que ainda hoje me faz imobilizar quando me encontro próximo do recreio de uma escola, o único local onde agora se pode presenciar as crianças a brincarem em turbamulta.

Ainda me lembro da carrinha em chapa canelada que estacionava periodicamente, sempre no mesmo sítio do bairro e abria as portas e a pala lateral, expondo as suas estantes interiores pejadas de livros, bem iguais aos da estante da sala de estar que estavam lá em casa e que só o pai lia, talvez também para nos tentar estimular à leitura, embora julgo nunca o ter conseguido, pelo menos comigo. Com os meus filhos, tive que ser bem mais activo na mobilização para a leitura e mesmo assim só consegui um sucesso parcial.
Por isso, minha cara Maria, a leitura, está, e ainda bem, hoje ao alcance de todos, mas a escrita é uma arte só bem dominada pelos que tratam os livros por tu desde tenra idade, o que não é de todo o meu caso. Voltei a ler o seu texto. Eu sabia que ele me tinha lembrado um livro, muito bonito de resto, o “dicionário dos lugares imaginários” do Alberto Manguel, onde cabem, pelo menos parcialmente, todos os livros de ficção presentes em qualquer estante.»
Vítor Augusto, neste texto da Maria Dulce Fernandes

Senti-me a regressar a casa, agora.
Belo comentário, este do comentador Vítor Augusto.
Isabel
Merecidíssimo destaque, Vítor!
«escola era bem estimulada pela severidade, para lhe não chamar outra coisa, e que não estimulava a criatividade. »
Tinhas tempo e espaço livre para a criatividade, sem manual aprovado, sem supervisão ideológica…
Vero!!!
O ensino em 1960 não era menos ideológico; a ideologia é que era diferente. Basta folhear um manual da antiga quarta classe. Para nem falar na brutalidade – a expressão é rigorosa – de muitas professoras. Sei de histórias, algumas até não tão antigas quanto isso (25-30 anos) que hoje só podiam acabar em prisão. O facto de se ter passado de um extremo ao outro não torna o passado mais simpático.
Não sei qual era a realidade desse tempo em Lisboa ou no Porto, mas sei o que os meus pais me contam da infância no Alentejo. Que espaço havia para a criatividade quando todas as crianças tinham de ajudar os pais a trabalhar no campo após as aulas e aos fins-de-semana e férias, e quando o trabalho agrícola ou na construção era o que se seguia à quarta classe?
Caro João Campos:
Eu acho que é preciso ter lata para dizer que dantes não havia supervisão ideológica. Nem sequer era disfarçada, basta ler os livros de leitura da Escola Primária ou o de História da quarta classe. E os valores que incutia nem sequer tinham a ver com a democracia.
Quanto a castigos físicos era o que hoje se chama porrada de criar bicho, tareias ao pontapé e bofetada para não falar das costumeiras reguadas.
Eu segui parta o liceu mas a maioria da minha turma ficou com muito tempo livre para a criatividade a guardar ovelhas, cavar terra, tomar conta dos irmãos mais novos e a passar fome. etc.
Como disse no início parece que há gente com lata para tudo e mais alguma coisa.
Precisamente. E a muito didáctica porrada de criar bicho perdurou bem para lá do 25 de Abril, pelo menos em algumas zonas. Eu safei-me: tive uma professora extraordinária na escola primária. Mas a geração da minha irmã ainda apanhou (em vários sentidos da palavra) duas professoras da “velha guarda”.
Em casa dos meus pais ainda existirá algures o manual da quarta classe de História. Ou de Propaganda.
suponho que a brincar eram bastante criativos. Não havia brinquedos e tinham de fazê-los; não havia dinheiro; não havia, como nos livros dos famosos cinco, lanches divinais, a maioria andava descalço e remendado, não tinha nem um livro dentro de casa, os avós eram todos analfabetos e os pais sabiam ler e escrever, mas não liam nem escreviam nada além do nome. A carrinha da Gulbenkian mobilizava muito pouca gente, por mais que mostrasse prateleiras de livros como não se viam em nenhum lugar da aldeia. Mostrava um mundo desconhecido e até temerário, onde poucos entravam.
E quê? Os pastorinhos e as donas de casa de palmo e meio não eram criativos?! Eram, sim. Adquiriam uma criatividade prática inimaginável, a miséria também aguça o engenho. Sonhavam ao rés da realidade que outra coisa não tinham; faltou-lhes o célebre ócio para lhes trazer ao intelecto a possível criatividade de que aqui se fala. Contudo, pergunto-me se os nossos jovens terão consciência do muito que lhes é dado de mão beijada.
“pergunto-me se os nossos jovens terão consciência do muito que lhes é dado de mão beijada.” Não sei, talvez não. Mas a pergunta pode pôr-se em qualquer época (e por isso me parece pouco relevante). Seria assim: quem vive no século n tem consciência daquilo que, não existindo em épocas anteriores, lhes é dado de mão beijada? Concretizando: as crianças que viveram na idade do ferro teriam consciência de que as crianças que viveram na idade da pedra não conheciam os metais??