Cívicos ou étnico-culturais, os nacionalismos têm o mérito de reforçar os laços de solidariedade e de lealdade entre os membros da nação. O problema é que esse reforço só é possível mediante a exclusão (mais ou menos declarada) do Outro.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

A Democracia também…
É verdade: a democracia pressupõe a distinção entre quem é cidadão e, por exclusão, quem não o é. Sem traçar essa linha de ‘fronteira’ (condição necessária mas não suficiente), não há possibilidade de democracia. Sem comunidade não há democracia.
A grande diferença é que num sistema democrático aceita-se a noção (e a realidade) de que numa sociedade (pode ser nacional) coexistem a solidariedade e o conflito; enquanto os nacionalismos têm um discurso que pretende essencializar a solidariedade entre os membros da sociedade nacional (suprimindo os conflitos internos, ie. suprimindo a democracia) e projectando os conflitos assim reprimidos sobre o Outro.
Mas há democracias cuja Constituição – a nossa, por exemplo – confere direitos, liberdades e garantias a estrangeiros. A democracia não precisa de separar cidadãos de não-cidadãos para sobreviver e prosperar.
Não precisa? Então se não há distinção explique-me como é que essa democracia preenche os cadernos eleitorais, por favor. Quem vem de férias, envia um SMS para se recensear e a seguir vai votar? Quem trabalha no país dois anos tem os mesmos direitos políticos? Ou, um aficionado estrangeiro do debate político nacional envia o voto do seu país por via postal? Pode candidatar-se à presidência da república? Claro que tem de haver distinção.
Mas não é a preto e branco, claro. O facto de uma democracia distinguir entre cidadãos e não-cidadãos não obsta a que dê direitos a estrangeiros residentes. Nomeadamente, os direitos associados ao trabalho, à justiça, à educação, à propriedade, e até alguns direitos eleitorais. Mas a deliberação democrática e os cargos políticos são, em muitos aspectos essenciais, vedados aos estrangeiros residentes. E aos não-residentes não confere direitos políticos. Em teoria. Sem estas distinções uma sociedade não tem autonomia política. Castioradis fez uma análise interessante, em parte segundo a dicotomia autonomia-heteronomia.
Não era esse o meu ponto.
A Democracia ao votar está a dizer quem faz leis, leis são sempre contra alguém. Exclusão.
Leis além de excluírem, são sempre violência, pode-se é discutir se é contra uma violência maior e/ou ilegítima.
Legislativas de 2015
Abstenção – 43.07%
Brancos – 2.09%
Nulos – 1.61%
lucklucky
Bom, se é por aí …. não é problema da democracia, pois não vivemos em democracia, sr lucklucky. Vivemos numa oligarquia electiva. Temos muitas liberdades, incluindo liberdade de expressão, o que é positivo, alguma embora escassa capacidade política de influenciar as decisões, mas não nos governamos. A exclusão da população do grosso das decisões está na base do sistema. Um pouco de genealogia mostra-o. Os pais fundadoras, em França e nos EUA, eram todos republicanos e anti-democratas (é só consultar os federalist papers), democrata era termo de abuso, as eleições censitárias, etc etc; a grande preocupação então (como agora) era evitar os desmandos resultantes dos ´ímpetos irracionais das massas’ , tudo isso se estende pelo sec xx, ed bernays, lippmann, … veja-se o brexit e a naiveté das gentes, e agora o referendo e a democracia directa (sic). Muito bem, votaram para sair, mas como e a que preço, e a que prećo para quem? … são as elites que governam todo o processo e têm carta branca para decidir sair com o acordo que inventarem, ou até sem acordo algum, e no fim não há consulta popular, nem sequer alguém se lembrou de o exigir … onde encontrar melhor ilustração? Por vezes tenho a impressão de que nos habituámos a viver de palavras.
O meu ponto é tanto uma crítica à Democracia como a todas as outras formas de Governo que não são voluntárias e não aceitam a Objecção de Consciência e eventualmente Liberdade de Secessão.
lucklucky
E quanto sobre mais coisas se vota -ou se dá mais poder à política- mais derrotados temos.
Mas o pior não é a exclusão.
É a inclusão pela coerção e violencia da Democracia Totalitária.
Uma verdade lapalissada cuja dimensão paradoxal parece escapar a muitos:
O ser humano precisa de fronteiras.
Quanto mais próximas, mais congregam; e mais excluem.
Um punhado de bem-intencionados julga ser possível acabar com as fronteiras: chutam-nas pela porta e observam chocados elas entrarem pela janela. Néscios.
A revolução é, afinal, apenas trocar uma fronteira por outra.
O ser humano precisa de fronteiras.
Não vejo como.
Hoje em dia na Europa vivemos basicamente sem fronteiras, e a maior parte dos portugueses está muito satisfeita com isso.
As fronteiras são necessárias para a governabilidade, não propriamente para a vida dos seres humanos.
Por exemplo, ninguém se quer ralar com as fronteiras entre dois municípios – as pessoas cruzam regularmente tais fronteiras, não as respeitam. Essas fronteiras são necessárias apenas para se saber como cada espaço é governado.
Depende
Fizessemos fronteira com a Arábia Saudita, era importante.
Outros hábitos.
Chame-me utópico, mas não ignorando a importância das fronteiras (principalmente para assuntos de ordem prática), não creio que sejam assim tão importantes para a vida em sociedade.
Exclusão e rebaixamento do outro. Rebaixamento este tanto maior quanto maior for a veneração de um Passado, na maioria das vezes mitico, na maioria das vezes construido à custa do Outro. Aliás a união nacionalista sacrifica o futuro, raiz de toda a decrepitude, no altar do Passado, simbolo da imaculada virtude – venera-se um passado mitico e nunca verdadeiro. Daí o nacionalismo ser o regime da emoção irracional, da adoração fanática de simbolos, de mitos, de figuras irreais – o orgulho nacional provém mais de um Ser imaginado, morto, do que um Real, presente e vivo. O Nacionalismo nasce do Romantismo e como este tem sempre na Morte, no Sacrificio, no Martirio o seu leitmotiv.
Tem sido esse o grande problema português, pois verdadeiramente somos vincadamente nacionalistas pois grande e longo é o nosso Passado, a nossa história, em grande parte mitica, criada por romancistas e não historiadores. Habita ainda no nosso inconsciente colectivo o Portugal Imperial, que amargamente nos serve de comparação ao canto ibérico que somos. E daí advém o nosso insidioso mal estar. Não sermos capazes de esquecer. Não sermos capazes de andar para a frente sem olhar para trás. Daí o tropeço
Quase em absoluto acordo com o primeiro parágrafo, já em relação ao segundo introduziria alguns matizes. Mas sim, não há nação sem mitos.
O Diogo está a melhorar…ou então sou eu.
Desculpe se alguma vez o ofendi. Se o fiz foi porque não encontrei melhores argumentos do que a ofensa, revelando assim,eu, uma limitação de pensamento.
Sob este ponto de vista, os nacionalismos fazem o mesmo que as religiões: por um lado unem, pelo outro excluem; por um lado criam laços de amizade, pelo outro criam profundas inimizades.
E por isso há nacionalismos acusados de serem religiões de substituição. Não creio que seja sempre o caso – não o é, desde logo, no caso basco, frequentemente descrito como tal – mas existem paralelismos.
O Nacional Socialismo foi um nacionalismo-religião. Parece-me também que o nosso V Império também esboçava algo de parecido.
Se o «outro» não aceita integrar-se na nação em que está ou para a qual pretende ir, se rejeita as leis e os valores daquela, se não respeita os cidadãos que poderiam ser seus compatriotas, é evidente que deve ser excluído; tal não é um «problema» mas sim a solução.
O que fazer aos portugueses que, supostamente, rejeitam “as leis e os valores” da “nação”? Devem ser excluídos? Ostracizados? Expulsos do país? Deve ser-lhes retirada a nacionalidade?
Octávio, o Outro deve aceitar os valores, direitos e deveres de cidadania. A nação é uma história diferente.
Caro Diogo Noivo,
«O problema é que esse reforço só é possível mediante a exclusão (mais ou menos declarada) do Outro». Suponho que esteja equivocado. O problema apenas existe num contexto em que a noção de ordem moral coletiva seja equívoca, inconsciente, sem conteúdos claros e consensuais. Esse é o maior vazio/desorientação do nosso tempo que se resolve muito melhor com nacionalismos/patriotismos (aqui o significado é indiferente) do que sem eles.
Cumprimentos,
Gabriel Mithá Ribeiro
“ordem moral coletiva” com “conteúdos claros e consensuais”? O que é, exatamente, isso?
Em Portugal temos leis que, supostamente, têm conteúdos claros e consensuais. Quem viola essas leis é castigado, de acordo com essas mesmas leis. É a isso que o G.M.R. se refere? Ou a algo mais?
Essa expressão “ordem moral coletiva” cheira-me vagamente a fascismo ou outras teorias políticas dos anos 1940.
Caro Luís Lavoura,
É por causa de adjetivações como «fascismo» que já tornou o diálogo impossível. E é por causa de o diálogo ser impossível que vivemos uma crise profunda na ordem moral.
Cumprimentos,
Gabriel Mithá Ribeiro
Caro Gabriel Mithá Ribeiro,
Não há equivoco. Creio sim que há divergência conceptual e, porventura, saudável desacordo.
Todos os nacionalismos europeus, sobretudo a partir do final do século XIX, usaram um conjunto de mecanismos para se construírem e obterem a adesão emocional da população à qual se destinavam. Um desses mecanismos foi precisamente a oposição ao Outro, enfatizando as diferenças e, em alguns casos, alardeando virtudes próprias.
É verdade que a aposta por um nacionalismo cívico, em detrimento de um de matriz étnico-cultural, atenuou a clivagem. Mas não a eliminou.
O Gabriel fala, e bem, na noção de ordem moral colectiva. Estamos de acordo quando à sua importância. Defendo, contudo, que ela emana (ou deve emanar) do espírito constitucional, sendo, por isso, (desejavelmente) dissociável do primado nacionalista.
Cumprimentos,
DN
PS – Quanto ao uso frívolo da palavra “fascismo”, não podia estar mais de acordo consigo.
Felizmente temos os “liberais” de turno e a esquerda a lembrarem-nos todos os dias e pelo mundo fora, as escolhas correctas e ainda bem que assim é pois se isto já estava mau, então ficava pior.
WW
Não sei se isto é um postulado verdadeiro, porque as condições de possibilidade enunciadas para o primeiro não residem de facto na incompatibilidade com as do segundo (vagamente inexistente) nem nos termos da comparação. No fundo, é uma rasteira. Como fazem nos jornais.